Amor e morte no louva-a-deus

louva

Levei um macho de Mantis carolina [louva-a-deus] a um amigo que vinha mantendo uma fêmea solitária como mascote. Colocados os dois no mesmo frasco, o macho, alarmado, procurou escapar. Em poucos minutos, a fêmea conseguiu agarrá-lo. Primeiro, ela lhe arrancou parte do tarso dianteiro esquerdo e devorou-lhe a tíbia e o fêmur. Em seguida, roeu-lhe o olho esquerdo. Feito isto, o macho pareceu dar-se conta da proximidade de um indivíduo do sexo oposto e pôs-lhe a fazer vãs tentativas de acasalamento. Em seguida, a fêmea comeu-lhe a perna dianteira direita e depois decapitou-o inteiramente, devorando-lhe a cabeça e pondo-se a morder-lhe o tórax. Só parou para descansar depois de ter comido todo o tórax do macho, exceto 3 mm. Durante todo esse tempo, o macho havia persistido em suas vãs tentativas de ganhar acesso às válvulas da fêmea, o que conseguiu neste momento, quando ela voluntariamente posicionou as válvulas por sobre o macho, tendo então lugar a união. Ela permaneceu imóvel durante quatro horas, e os restos do macho apresentaram sinais ocasionais de vida, com o movimento de um ou outro dos tarsos restantes, durante três horas. Na manhã seguinte, ela se livrara completamente do cônjuge, e nada havia restado dele, além de suas asas.

(L. O. Howard em 1886)

Dentre os fatos curiosos da natureza, estão os machos do louva-a-deus decapitados por sua parceira voraz no ato de cópula – aquilo que a literatura biológica chama de “canibalismo sexual”.

Para Charles Darwin, o mundo está repleto de formatos e comportamentos peculiares que seriam desprovidos de sentido se não funcionassem apenas para promover a vitória no grande jogo de acasalamento e reprodução. A guerra sexual teria um sentido que lhe é próprio: a boa adaptação pela transmissão de genes às gerações futuras.

O próprio Darwin, no entanto, percebeu que a seleção natural no seu sentido usual, ou seja, pela adaptação progressiva a ambientes em mudança, não explicaria que benefícios os indivíduos teriam no acasalamento – em casos mais extremos, qual seria a razão para o louva-a-deus macho se submeter a uma relação que o colocaria em risco de morte? Por isso Darwin batizou a seleção sexual para explicar esta evidência crucial. Ele argumentava que essa seleção poderia acontecer no combate entre machos (exibição) ou escolha da parte das fêmeas (atenção). Assim S. J. Gould diverte-se: o rouxinol não canta para o nosso deleite.

Darwin introduz até os humanos neste ponto: os padrões diferentes de beleza – mais que serem as línguas eslavas cheias de consoantes porque é melhor que as bocas fiquem fechadas em climas frios, enquanto os havaianos são o oposto –, são intensificadas pela seleção sexual: os indivíduos acidentalmente favorecidos são mais procurados e, portanto, melhor sucedidos na reprodução. Gould utiliza o canibalismo sexual para exaltar a realidade enquanto mundo darwiniano – e liricamente cita W. H. Austens. O poeta teria escrito que o amor e a morte são os únicos temas dignos de atenção na literatura.

O artigo A seleção natural do canibalismo sexual de R. E. Buskirk, C. Frohlich e K. G. Ross, publicado no American Naturalist, foi mostrado um modelo matemático desenvolvido por eles para demonstrar, como foi exposto por Gould no Sorriso do Flamingo, que o sacrifício voluntário da vida a uma parceira fecundada será darwinianamente vantajoso para o macho caso ele tenha pouca expectativa de acasalamento subsequente e caso o valor alimentar do seu corpo venha a fazer uma diferença substancial no desenvolvimento e na criação bem-sucedidos da sua prole. O modelo faria ainda mais sentido se os machos não tentassem fugir após o acasalamento. Mas na verdade, mesmo podendo dar a vida por uma boa causa, qual seria a razão para o louva-a-deus não tentar salvar-se e repetir o processo, ou seja, procriar outra vez? Sua tentativa de fuga mostra novamente o pulsar da vida pela geração.

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Categoria: Biofilia, Zoologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Gabriel disse:

    Uma prova cabal que a vida visa somente a reprodução apesar de filósofos tentarem demonstrar o contrário.

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