O envolvimento dúbio com o álcool

O alcoolismo é um dos problemas mundiais em saúde pública de grande envergadura e uma das maiores causas de morte clínica em muitos países. Dentre as beatitudes oferecidas pelo estado do alcoolismo, a mitologia grega mais uma vez vem à tona com Dionisio, um ótimo exemplo para explanar tal tema.

Conhecido como o deus do vinho, do mistério, um ser estrangeiro, Dionisio possui natureza epifânica de deus que oscila entre presença e ausência; aparece como um protótipo do homem sofredor e alucinado. Ocultações e máscaras são um tema bastante recorrente ao mesmo tempo muito significativo no quotidiano dos alcoólicos, uma vez que o bebedor tenta esconder o fato de beber e, ainda mais, de ser dependente da bebida.

Parece, então, que o alcoólico põe uma mascara na qual oculta sua solidão, seus sentimentos de inferioridade, seus medos, enfim toda uma gama de sentimentos, revivendo um paradoxo no qual uma outra máscara revela os sentimentos mais íntimos e ocultos; e os segredos são liberados através do álcool.

Qual seria a panaceia da vez? A dificuldade já começa na tentativa de se buscar o motivo que desencadeou o problema em si. O estudo sobre o álcool e suas patologias aponta para diversos fatores, como biológico, enfatizando aspectos orgânicos e químicos do beber; fatores sociais abarcando os amigos, familiares, o ambiente e a cultura; fatores econômicos; fatores psicológicos, seu comportamento, etc. sendo impossível reduzir a origem do problema a um fator exclusivo, haja vista sua etiologia múltipla (piorando a situação), além de ser visto como deficiência moral ou fraqueza de vontade.

Nesse sentido, os AA definem como “uma doença fatal, incurável e progressiva.” além de acreditar que o bebedor tem problemas porque bebe e não, ao contrário, que por ter problemas é que ele bebe. Para Twerski, estudioso do tema, o alcoolismo é “quando qualquer função normal se torna dependente do álcool, não importando a quantidade consumida, como – comer, dormir, socializar-se, ter relações sexuais etc.- Quando qualquer uma destas funções ou mais de uma se torna dependente do consumo do álcool para sua execução, pode-se dizer que existe alcoolismo”.

Sintetizando a questão da alteridade em Dionisio, por extensão, nos alcoólicos, define-se como a tentativa de metamorfose em um outro ser, um outro ser que não ele mesmo. Bebe-se para se ser outro… será? Uma tentativa de preencher o hiato entre eu e o eu ideal todo-poderoso. Esta dupla relação com o álcool parece decorrer da própria natureza da bebida, pois ao mesmo tempo que é fonte de alegria, é fonte de dor, estando presente em muitos momentos da nossa vida social, religiosa tornando-se um elemento cultural.

No entanto, diga-se de passagem que o alcoolico causa estranheza ocupando um lugar desprezível, à margem das regras da ordem social, transgredindo suas normas e leis, pois é tido como um indivíduo problemático, que suscita fortes sentimentos e reações contra transferenciais negativas, distúrbios de caráter, na pior das hipóteses, dificultando o estabelecimento de uma aliança terapêutica, recusando-se a todo custo a encarar a sua realidade. Portanto, rendição, abstenção e resiliência são palavras de ordem. Ainda gostaria de levantar uma discussão sobre considerar o ‘álcool’ como droga legalizada.

Condena-se o alcoólico mas estimula-se sua produção… Sem dúvida estamos diante de um problema “mascarado”. Assim, a celebração coletiva do culto dionisíaco certamente continuará, e as máscaras sob as quais esse deus se oculta aparecerão nessas celebrações, revelando-se em novas epifanias, em todos os lugares. O tempo perde seu sentido real e tudo é postergado para um vago futuro quando o homem de copo cheio diz: “posso parar quando quiser!”

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Categoria: Cotidiano, Ética e Cidadania, Existência

Sobre o(a) Autor(a) ()

Paraibucana. Estudante de RI. Indecisa com o que quer, certa do que não quer. Dona de angústias e alegrias que se alternam até me decompor em palavras.

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