Sapiência como ciência das causas

downloadO Livro A da Metafísica de Aristóteles começa expondo que a sapiência é a mais elevada das ciências, pois esta é o conhecimento das causas e dos princípios primeiros. O filósofo grego assevera como todos os homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas sensações. De fato, eles amam as sensações por si mesmas, independentemente da sua utilidade (Aristóteles, Metafísica, 980a 25).

Embora todos os animais sejam naturalmente dotados de sensação, a faculdade de sentir nasce no homem na memória, por isso – com o auxilio da audição – são eles mais inteligentes e mais aptos a aprender do que aqueles que não têm capacidade de recordar. Enquanto os outros animais vivem com imagens sensíveis, os homens vivem da experiência e, por meio desta, adquirem a arte a ciência. A inexperiência produz o acaso, a arte se produz a partir de muitas observações da experiência.

De maneira prática, chega a parecer não haver diferença entre a ação e a arte. Mas a experiência conhece os particulares, enquanto a arte é o conhecimento dos universais. A primeira pode acidentalmente fazer um bem, mas a aplicação em seus semelhantes somente será efetivada pela arte. Aqueles que têm sapiência conhecem o porquê e a causa, enquanto os outros não a conhecem. Por essa razão Aristóteles diverge quem sabe e quem não sabe a partir da capacidade de ensinar.

O sábio, conhecedor dos princípios primeiros, conhece todas as coisas que lhe é possível conhecer – não individualmente, mas universalmente – especialmente as não facilmente compreensíveis. O conhecimento sensível, por exemplo, por ser comum a todos não é sapiência. Quanto mais um homem possui conhecimento das causas e melhor ensina aos outros, mais sábio é ele. E a sapiência (ciência teorética), por ser estudada pelo simples conhecer – e não em vista do que seu conhecimento deriva – é a mais eleada entre as ciências.

Também na Ética a Nicômaco Aristóteles já havia separado as ciências. Aquelas que são poiéticas (poíesis, em grego, significa ação fabricadora ou produtora) tem como finalidade da ação algo de fora da própria ação, e lidam com o contingente (o que pode ser ou deixar de ser) e com o particular (o que existe num tempo e num lugar determinado). A metafísica, por outro lado, busca conhecer os universais só mesmo por conhecer. Assim, esta última ciência é a que mais indaga as causas e a que é mais capaz de ensinar, pois os que dizem quais são as causas de cada coisa são os que ensinam.

Os homens começaram a filosofar por causa da admiração, inicialmente ficando perplexos diante das dificuldades mais simples; embora em seguida, progredindo pouco a pouco, chegaram a enfrentar problemas maiores e relativos aos fenômenos de todo o universo. Essa sensação de espanto inicial, em prol da libertação da ignorância, é o filosofar. E quem busca o conhecimento unicamente em vista do saber, e não por alguma utilidade prática, deseja o conhecimento somente pelo conhecer – não por uma vantagem que lhe seja estranha. Portanto somente esta ciência, dentre todas as outras, é livre, só ela é um fim para si mesma. Assim, Aristóteles cita Simônides quando diz que a sapiência pode não ser própria dos homens, e sim dos deuses. Uma ciência é divina ou porque representa o conhecimento que Deus possui em grau supremo ou porque tem por objeto as coisas divinas – e a sapiência possui essas duas características.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Antiga

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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