Anaxímenes e o sopro infinito do ar

AnaximendesAnaxímenes de Mileto, filho de Eurístrato, foi discípulo de Anaximandro; alguns há que afirmam que foi também discípulo de Parménides. Disse ele que o princípio material era o ar e o infinito; e que os astros se movem, não por baixo da Terra, mas em redor dela.

(Diógenes Laércio II, 3)

Tudo o que Aristóteles disse a respeito de Anaxímenes era que este e Diógenes fazem do ar, e não da água, o princípio material entre os demais corpos simples. Assim, a tradição clássica sobre o pré-socrático está a depender de Diógenes Laércio, Teofrasto (que teria escrito a respeito dele, segundo Diógenes, uma monografia especial), Simplício, Hipólito e Pseudoplutarco. Consta que Anaxímenes costumava dizer ser a substância originadora a forma básica da matéria do muno diferenciado, e, assim, essa substância podia converter-se noutros componentes do mundo, como o mar ou a terra, sem perder sua própria natureza.  A isso o filósofo explicou a condensação ou rarefacção a partir da alteração da aparência da coisa em relação a quantidade de substância originária que havia em determinado lugar. Para ele o ar era vasto em extensão, rodeava todas as coisas, era, conforme descrição de Teofrasto, infinito. Todas as coisas estão rodeadas de sopro e ar, a alma está aparentada com este ar.

[Anaxímenes dizia que] o ar infinito era o princípio, do qual provêm todas as coisas que estão a gerar-se, e que existem, e que hão-de existir, e os deuses e as coisas divinas, e o resto proveniente dos seres por eles produzidos. A forma do ar é a seguinte: quando ele é muito igual, é invisível à vista, mas é revelado pelo frio e pelo calor e pela humanidade e pelo movimento. O ar está sempre em movimento: é que as coisas que mudam, não mudam a menos que haja movimento. Com o aumento da densidade ou da rarefacção, o ar toma diferentes aspectos; pois, quando se dissolve no que é mais subtil, torna-se fogo, ao passo que os ventos são, por sua vez, ar condensado, e a nuvem é produzida a partir do ar por compressão. Quando se condensa ainda mais, produz-se a água; com um maior grau de condensação produz-se a terra, e quando condensado ao mais alto grau, as pedras. Donde resulta que os componentes com maior influência na geração são contrários, a saber, o calor e o frio.

(Hipólito, referência I, 7, 1)

Todos os Pré-Socráticos aceitavam as mudanças das formas naturais, mas Anaxímenes foi o primeiro (e único) a explicá-las em função da densidade de um único ingrediente, o ar, presente no espaço. Este ar estava em toda parte e, partilhando da hipótese de Tales, segundo a qual a matéria estava de certo modo viva, Anaxímenes falou da constante mobilidade deste elemento primeiro. Essa concepção, inclusive, deu margem à interpretação de Teofrasto, carregando à fórmula do movimento perpétuo, segundo o qual toda a mudança no mundo estava a depender deste movimento.

[Anaxímenes de Mileto disse] que a natureza subjacente é uma e infinita, mas não indefinida, como afirmou Anaximandro, mas definida, porquanto a identifica com o ar; e que ela difere na sua natureza substancial pelo grau de rarefacção e de densidade. Ao tornar-se mais subtil transforma-se em fogo, ao tornar-se mais densa transforma-se em vento, depois em nuvem, depois (quando ainda mais densa) em água, depois em terra, depois em pedras; e tudo o mais provém destas substâncias. Ele admite também o movimento perpétuo, e que é também através dele que se verifica a mudança.

(Teofrasto ap. Simplicium in Phys. 24, 26)

Anaxímenes, assim, conforme relata Pseudoplutarco, deu provavelmente uma explicação do desenvolvimento do mundo a partir do ar indiferenciado. A Terra seria plana, responsável então pela sua estabilidade, e levada pelo ar, cobrindo-o como uma espécie de tampa.

Diz ele que os corpos celestes não se movem por baixo da Terra, como outros supuseram, mas em redor dela, precisamente como um gorro de feltro roda à volta da nossa cabeça, e que o sol se esconde, não por estar debaixo da Terra, mas por ser encoberto pelas partes mais elevadas da Terra e pelo aumento da distância que dele nos separa.

(Hipólito referência I, 7, 6)

Mais adiante, intelectuais como Cícero, Écio e Agostinho de Hipona sugeriram ter Anaxímenes visto o ar como algo de divino. Cícero, em sua De Natura Deorum (I, 10, 26), disse que Anaxímenes via o ar como imenso e infinito e como algo sempre em movimento, como se o ar sem forma pudesse ser um deus ou a mortalidade não acompanhasse tudo o que nasceu. Écio (I, 7, 13), por sua vez, interpretaria o pré-socrático ver o ar como um deus a partir de suas forças, que penetram inteiramente os elementos ou corpos. O último dos comentadores em questão, Agostinho (Cidade de Deus, VIII, 2), utilizou a divindade do ar para que Anaxímenes não tenha negado a existência de deuses, ou passado sobre eles em silêncio; mas, acreditado, não que o ar fosse feito por eles, mas que foram eles que surgiram do ar.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Filosofia, Filosofia Pré-Socrática

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

Trackback URL | Feed RSS dos Comentários

  1. Víctor Friedrich disse:

    “Hipólito, referência l,7,1” Linha 7 palavra 7. Gostaria de fazer uma pequena correção, está escrito “humanidade” ao invés de “umidade”.
    Muito bom texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas