Nietzsche e Kant: Aproximações e afastamentos

Kant_X_NitzscheProfessor da PUC-PR, Antonio Edmilson Paschoal, levanta um aspecto pouco apreciado pelos principais intérpretes que fazem uma correlação de F. W. Nietzsche com outros filósofos: as aproximações, usos e afastamentos entre este e Immanuel Kant. Segundo o professor paranaense o que podemos chamar de o Kant de Nietzsche se refere, principalmente, ao período em que este último lecionava filologia clássica na Universidade da Basileia.

(1) Segundo A. E. Paschoal

(A) Quais os pontos do pensamento de Nietzsche que mais se aproximam de Kant?

  1. A preocupação com os limites do intelecto, marcante em seus primeiros escritos e possui um fundo explicitamente kantiano;
  2. A questão de suas fontes e instrumentos de trabalho e o modo como ele se relaciona com eles;
  3. O encadeamento entre conhecimento e moral, entre o problema da verdade e o impulso à verdade, numa imbricação entre a questão da linguagem conceitual e uma outra semiótica: a dos afetos.

(B) Que outras leituras acerca da correlação entre os dois filósofos merecem destaque?

Em revisão da literatura, Paschoal mostra que Friedrich Kaulbach, quando analisa a filosofia experimental de Nietzsche, mostra como a mesma é elaborada no interior de uma tradição a partir do princípio metódico de Descartes e o método do conhecimento crítico de Kant [1]. Assim como o autor de Zaratustra, Kant também acentua o primado da razão prática sobre a teórica. Em Nietzsche, esse caráter é observado principalmente em sua avaliação sobre a finalidade e o sentido dos pensamentos e ações – “o direito à validade de uma perspectiva filosófica de mundo não pode mais ser visto, a partir deste ponto, como sendo estabelecido por sua ‘verdade’ teórica, porém por sua significação para um grau e constituição específica da vida” [2]. Não se admite mais, a partir daí, a possibilidade de acesso à coisa-em-si ou a qualquer verdade última, a avaliação de um pensamento passa então a estar em função de sua importância para o vivente.

Tendo em vista especialmente o Nietzsche tardio, aparece também Volker Gerhardt afirmando ser o trabalho nietzschiano, por um lado, “um representante radical da crítica da razão”[3]. Gerhardt se propões a fazer algumas conclusões sistemáticas do pensamento do filósofo, por exemplo, que “a vontade de poder nietzschiana só poderá contribuir para a autodeterminação humana se se mantiver válido o primado kantiano da razão prática” porque a vontade de poder deve ser tomada no sentido da “autodeterminação e da autorresponsabilização do homem”, correspondendo a uma “experiência ativa de si pelo homem”[4]. O interprete afirma ainda haver uma correlação entre o efeito ético esperado por Nietzsche para o pensamento do eterno retorno e o imperativo categórico de Kant, assim como o mesmo tipo de correlação que, segundo ele, se poderia identificar na proposição do “dever” do espírito livre, que seria, igualmente, tomado como um imperativo ético.

Por fim, Paschoal cita Antonio Marques, intérprete favorável a ambos: ao perspectivismo de Kaulbach e à leitura da vontade de poder de Gerhardt. Segundo ele, Nietzsche e Kant reduzem o real ao fenômeno, ambos identificam as supremas categorias da tradição metafísicas com hipóteses enraizadas em impulsos automatizantes, quer do hábito, quer da própria razão, ambos acabam por compreender o universo conceptual cognitivo como utensílios, que o sujeito deverá, à falta de intuitus originarius, aplicar a esse fundo irredutível de particularidades, já ele próprio fenomenalizado e por isso de certo modo incognoscível[5]. A. Marques interpreta a filosofia de Nietzsche não como uma excrescência marginal, mas como uma radicalização dos traços mais característicos da tradição racionalista e crítica da modernidade.

(C) Como deve ser lido o projeto da modernidade nos primeiros escritos de Nietzsche?

Seria este uma crítica à metafísica, àquela do uso dogmático da razão, um estabelecer dos limites nos quais a razão possa agir com segurança (os limites do “uso crítico da razão”, substancialmente presente em Kant). E é da Crítica da Razão Pura que Nietzsche (ou mesmo Schopenhauer), segundo Paschoal, considera a maioria de seus escritos da juventude como expressão da modernidade.

A crítica à metafísica schopenhaueriana e kantiana seria um instrumento notável e possível para Nietzsche. Em 1886, no seu O nascimento da tragédia, o filósofo diz ter se inserido, de alguma forma, na critica à razão da cultura alexandrina, tornando-se assim um crítico severo a partir de Kant e Schopenhauer para se opor ao infortúnio que, segundo ele, angustia o homem moderno.

[Kant e Schopenhauer] souberam utilizar com incrível sensatez o instrumento da própria ciência, para expor os limites e o condicionamento do conhecer em geral e, com isso, negar definitivamente a pretensão da ciência à validade universal e a metas universais: por meio de tal prova, foi reconhecida como tal, pela primeira vez, aquela ideia ilusória de que, pela mão da causalidade, se poderia pretender sondar o ser mais íntimo das coisas [6].

Assim como Schopenhauer, Kant, em particular, aparece colocando freios no otimismo da razão, livrando então a cultura alemã da sedução da razão e introduzindo nela a cultura trágica. Apesar dos instrumentos kantianos, A. E. Paschoal deixa claro que eles serviram a Nietzsche como um meio de expressão para fins particulares (perda da crença na metafísica), jamais profundos, como lhe foi Schopenhauer.

Um dos principais afastamentos entre Nietzsche e Kant citados pelo intérprete em questão é quanto à crença na verdade. Diz ele que, enquanto este último não nega nem a verdade nem a possibilidade de o homem chegar a ela, por mais que o filósofo de Konigsberg critique um “uso não crítico da razão”, Nietzsche, já em Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, não parece acreditar na possibilidade da verdade não só do ponto de vista metafísico, como a de Kant. Para Nietzsche, nem sequer no mundo dos fenômenos, por meio das regras formais do intelecto, é possível encontrar ou estabelecer um suporte seguro para a verdade, as verdades seriam sempre ilusões, convenções, generalizações e metáforas.

[1] Friedrich Kaulbach, Nietzsche Idee einer Experimentalphilosophie, Koln, Wien, Bohlau, 1980, p. IX.

[2] Idem, p. X

[3]Volker Gerhardt, “Da vontade de poder para a gênese e interpretação da filosofia do poder em Nietzsche”, in: António Marques, Nietzsche: cem anos após o projeto “vontade de poder-transmutação de todos os valores”, Lisboa, Veja, 1986, p. 11.

[4] Idem, p. 29.

[5] Antonio Marques, A filosofia perspectiva de Nietzsche, São Paulo, Discurso Editorial/Grupo de Estudos Nietzsche (GEN)/Unijuí, 2003, p. 107.

[6] O Nascimento da tragédia, 18.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia Moderna

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Kant, com sua filosofia contrailuminista, deu base para o pós-modernismo irracionalista que Nietzsche mergulha.

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