O Anarquismo e a Revolução Russa

russia-240x179A Revolução Russa

Iniciada em 1917, a revolução russa foi um período de conflitos que derrubou a autocracia russa e levou ao poder o Partido Bolchevique, de Vladimir Lênin. Recém industrializada e sofrendo com a Primeira Guerra Mundial, a Rússia tinha uma grande massa de operários e camponeses trabalhando muito e ganhando pouco. Além disso, o governo absolutista do czar Nicolau II desagradava o povo, que queria uma liderança menos opressiva e mais democrática. A soma dos fatores levou a manifestações populares que fizeram o monarca renunciar e, no fim do processo, deram origem à União Soviética, o primeiro país socialista do mundo, que durou até 1991.

As relações entre o Anarquismo e a Revolução

Com a Revolução, os ideais anarquistas se ascenderam no país. Entretanto, a história – escrita pelos vencedores (capitalistas vs lênistas) – ignora aquilo que o anarquista Voline chamou de “a revolução desconhecida”, a revolução que surge de baixo para cima pelas ações do povo.

A derrubada inicial do Czar ocorreu devido à ação direta das massas, a revolução alcançou tal ímpeto que o novo estado “socialista” não foi suficientemente forte para detê-la. Para as esquerdas, o fim do czarismo foi o ponto culminante de anos de esforços de socialistas e de anarquistas em todo o mundo, representando a ala progressista do pensamento humano vencendo a tradicional opressão. A queda do Czar foi celebrada pelas esquerdas em todo o mundo.

Apesar disso, achava-se que a abolição do feudalismo não era politicamente suficiente. Os trabalhadores, ainda insatisfeitos, começaram a tomar os postos de trabalho e os camponeses a tomar a terra. O povo começou a construir suas próprias organizações, sindicatos, cooperativas, comitês de fábrica e conselhos (ou “soviets” em russo). Estas organizações originalmente se formaram de maneira anarquista, com delegados revogáveis e federados uns com os outros.

Os anarquistas participaram neste movimento, adotando todas as tendências da auto-gestão. De acordo com o oficial francês Jacques Sadoul, os anarquistas eram os mais ativos, os mais militantes de todos os grupos de oposição.

Inicialmente, os anarquistas apoiaram aos Bolcheviques (socialistas), mas logo foram contrariados. Ainda no começo de 1918, os socialistas autoritários, uma vez no poder, iniciaram a eliminação física de seus rivais anarquistas. Os Bolcheviques mostraram, pouco a pouco, que não buscavam o verdadeiro socialismo, procuravam assegurar e garantir o poder para si próprios, não mais buscavam a propriedade coletiva da terra e dos meios de produção mas a propriedade do governo.

Lênin suprimiu o controle dos trabalhadores baseando-se na duvidosa premissa de que isso reduzia a produtividade, argumento que depois se revelou falso nos casos onde o controle dos trabalhadores se estabeleceu. Os bolcheviques perseguiram, aprisionaram e assassinaram seus opositores, assim como os anarquistas, assim como limitaram a liberdade das massas que diziam proteger.

Foi apenas em 1921 que ocorreu o primeiro grande levante do povo pelo verdadeiro socialismo: o levante do Kronstadt. O povo independente (a classe trabalhadora sem pastores, políticos ou líderes) tentou livrar-se de todo controle e levar a cabo a revolução social.

Na Ucraniana, as ideias anarquistas se aplicaram com êxito. Nas áreas sob a proteção do movimento Makhnovista, as pessoas da classe trabalhadora organizavam suas vidas diretamente, baseando-se em suas próprias ideias e necessidades, a verdadeira autodeterminação social. Sob a liderança de Nestor Makhno, um camponês autodidata, o movimento não apenas lutou contra as ditaduras branca e vermelha, mas também resistiu aos nacionalistas ucranianos.

Opondo-se à convocatória para a “autodeterminação nacional”, ou seja, um novo estado ucraniano, Makhno fez uma chamada à autodeterminação da classe trabalhadora na Ucrânia e no mundo inteiro. Chegou a ser conhecido como o “Robin Hood” da Ucrrania. A experiência da auto-gestão anarquista na Ucrânia teve um final sangrento quando os bolcheviques se voltaram contra os makhnovistas (seus antigos aliados contra os “brancos” pro-czaristas) quando não necessitavam mais deles.

O último desfile anarquista em Moscou antes de 1987 teve lugar com o funeral de Kropotkin em 1921, quando aproximadamente 10 mil pessoas acompanharam seu ataúde. Muitas deles haviam sido colocados em liberdade nesse dia, e seriam assassinados pelos leninistas nos anos seguintes. A partir de 1921, os anarquistas começaram a descrever a URSS como uma nação “estadista-capitalista” para indicar que embora os patrões anteriores houvessem sido eliminados, surgiram outros, a burocracia estatal soviética passou a exercer o mesmo papel que os chefes exercem no Ocidente.

Depois desses fatos, no principio dos anos 20, as confederações anarco-sindicalistas se uniram aos anarquistas em seu repúdio ao “socialismo” da Rússia como capitalismo de estado e ditadura do partido.

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Categoria: Ética e Cidadania, História

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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