Poetas em tempo de crise

Poesias não mais brotam de flores num outono rubro,
O lirismo XXI mais parece estar n’uma sala de trabalho crua.
Quem este dia há de proferir versos apaixonados e arrebatadores?!
À frente do aedo então encontram-se três ou quatro fatídicos proletários,
Com semblante hipocondríaco, sonham nas próximas férias minguadas.

Não mais são contempladores aqueles que escrevem em verso.
O lírico hoje hora e hora procura o belo – como há de relatá-lo a tempo?
Seu coração, tão cheio de cansaço, esqueceu como se finge harmonia.
Alma trabalhadora, compreende o caos exórdio;
Consta-lhe que perdeu sua própria poesia.

A caneta, ainda sendo fuga da realidade sensível, é transmutada
O XXI traz um fingir de ausência própria – de simulação para veracidade.
O poeta brinca já tão fortemente que não tem mais pessoalidade,
É pura poesia miserável, não mais sabe onde está pé no chão
Sentimentalismo afadigado mais que simulacro, não é só ficção.

Hoje o lirismo não cabe à Academia Pernambucana de Letras, Festa Literária, Prêmio ABEC.
O ardor poeta se expressa nas telas eletrônicas agindo como fábrica,
Tenta manufaturar magia numa rotina de noites emurchecidas pelo sono truncado.

Grandes poetas do passado exaltaram o sublime,
Os presentes presenteados correntemente pelo disforme atarefado.
O poeta XXI escreve senão para si pro relato de seu tempo,
Pois que mais tem a preocupar-se que isto?
Tempo! À historiografia fala de si mesma ou de distopia.
O poeta está exausto de seu mundo, escreve na hora do almoço
Sem saber se quer encher o bucho ou fazer poesia.

Categoria: Poesias

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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