A dialética como estrutura da realidade em Hegel

| 04/08/2015 | 2 Comentários

Hegel_portrait_by_Schlesinger_1831Hegel sem sobras de dúvidas se apresenta como um dos filósofos mais importante da história da filosofia. Este foi responsável pela produção do mais acabado Sistema Filosófico cuja a contemporaneidade é bastante devedora, todavia é fruto de diversas críticas superficiais advindas daqueles que partindo desde fora, tentam compreendê-lo, evitando assim a extrema paciência que o trabalho do conceito exige. Sua primeira e principal obra data de 1807  é a Fenomenologia do Espírito, mas do que se trata? Na Fenomenologia do Espírito Hegel descreve o processo que faz a consciência do saber mais simples ao saber absoluto ou filosófico, melhor explicada adiante. Muitos se equivocam ao definir a dialética Hegeliana na famosa expressão: Tese-Antítese-Síntese, mas por quê? Deixemos que o próprio Hegel explique através da famosa passagem do §2 da Fenomenologia do Espírito:

O botão desaparece no desabrochar da flor, poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz dela momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. Essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo.

Mediante essa passagem percebemos de imediato a limitação de se definir a dialética hegeliana pela famosa Tríade da Tese-Antítese-Síntese. A melhor forma de compreendermos a Dialética de Hegel é mediante o conceito de Aufheben que significa suprassumir (negar, conservar e elevar) e em outros momentos negação da negação (conservação e elevação). Tal como em Espinosa, a negação para Hegel é determinação, ou seja, tudo aquilo que foi negado é conservado e elava-se para uma figura mais rica e plena, expressando assim a vida da coisa mesma nos jogos de suas contradições. Por isso, como bem definiu o Gadamer em  La dialética de Hegel, a dialética

Se trata de um progressão imanente, que não pretende partir de nenhuma tese imposta, se não melhor seguir o automovimento dos conceitos, e expor, prescindindo por inteiro de toda transição designada desde fora, a consequência imanente do pensamento em continua progressão.

O Principal objetivo de Hegel é elevar a filosofia à forma de ciência em que “a filosofia deixe de chamar-se amor ao saber, e passe ao saber efetivo”. No entanto esta pretensão não é fruto de uma mera arbitrariedade, mas antes da necessidade em que clama o espírito do tempo em captar a fluidez da coisa mesma. Este falar da coisa mesma se trata do expor a essencialidade da coisa em que está se falando ou – nos modos Kantiano – da coisa em si. No entanto não teria Kant afugentando toda a pretensão ilegítima da razão de adentrar neste campo com a consequência de produzir quimeras ao demonstrar que só conhecemos através de uma certa estrutura cognoscitiva a priori já dada que é condição de possibilidade de “conhecimento puros de objetos e não de objetos puros”? Por consequência para Kant a razão é incapaz de conhecer a coisa em si, por ultrapassar totalmente o campo da experiência o que por sua vez ultrapassa totalmente as condições de possibilidade dos objetos da experiência.

Hegel, por outro lado, afirma na Ciência da Lógica ter sido o grande mérito kantiano o apontamento da dialética como patamar elevado, apresentada nas antinomias da razão pura. A necessidade da contradição é inerente ao pensar – o que para Kant era fruto de um jogo falso produzido pela dialética na medida em que estas determinações estavam aplicadas à coisa em si. Para Hegel, no entanto, tal limitação seria um contrassenso: sendo a razão incapaz de conhecer o infinito, esta seria incapaz de conhecer a si mesma. Eis o resultado em que Fichte, Schelling e Hegel não iriam aceitar, a saber, o estabelecimento de uma fronteira rígida entre entendimento e razão.

Hegel mostra que a dialética não tem a consequência (que teve em Kant) de se limitar no negativo e permanecer na exterioridade da contradição, pelo contrário, esta consiste em demostrar o positivo no negativo, os opostos numa unidade viva. Tendo isso em vista, cabe justificar o por que tal dialética não se trata de um método arbitrário produzido por Hegel. Na fenomenologia do Espírito o filósofo tenta justamente demostrar que, longe de ser um instrumento de nossa estrutura do pensamento para aplicar nas coisas, esta é resultado do processo da consciência que sai de sua forma mais simples de conhecimento à certeza sensível, que se vê exterior ao mundo na sua imediatez e se eleva através das contradições em que se vê jogada a diversas figuras, como a percepção que nega o conhecimento sensível e conserva o universal da coisa que foi lançado. Por sua vez esta passa o nível do entendimento que, diante das contradições e do vai-e-vem da percepção, entra a unidade e as propriedades, tenta determinar, distinguir e dividir para dar conta da coisa, ficando assim na sua exterioridade e não na necessidade. Nesse estágio a consciência filosófica (não a que faz a experiência pois esta sempre esquece os resultados de seu desenvolvimento) nos jogos de forças percebe que se não houver um eu na coisa, não há nada para ser visto nem há nada para se ver, e portanto esta experiência que faz a consciência mostra que é “um interior exteriorizado e um exterior interiorizado”, elevando-se assim ao patamar da consciência de si que Hegel afirma já estar presente o conceito do espírito quando a consciência apreender que é um jogo de relações  “eu que é um nós e um nós que é um Eu.”

O conceito do espírito é fundamental para ter a compreensão de que consiste a dialética, pois ela nada mais é do que aquilo brevemente descrito, em que a experiência feita pelo sujeito em relação aos objetos através do desenrolar das diversas figuras é a experiência que faz de si mesmo, o que através da passagem para a Razão o espírito propriamente descrito culmina no saber absoluto, que é o espírito se sabendo espírito, ou quando a certeza se adequa a verdade negando, conservando e elevando a um patamar todos os momentos aos quais denominou de aufhebung (suprassunção). Vê-se que a lógica dialética é o rompimento da fissura entre pensar e pensado, sujeito objeto, ser e essência; ela consiste, pois, neste desdobramento de uma lógica do Ser que desdobra na cadeia de seus momentos a riqueza diversificada dos opostos numa unidade em seu devir, e por isso diz Hegel no parágrafo 3 da FenomenologiaA coisa mesma não se esgota no seu fim, mas em sua atualização; nem o resultado é o todo efetivo, mas sim o resultado junto com o seu vir-a-ser”. Portanto, longe de ser meramente um método, a dialética é pensamento, porque é inerente a coisa mesma enquanto manifestação do absoluto que é sujeito e a linguagem ao interiorizar o mundo o exterioriza.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Moderna

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Comentários (2)

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  1. Tiago de Paula Damasceno disse:

    Olá Paulo Fernando, excelente artigo! Parabéns!!! Estudo Hegel também, mas pesquiso a Filosofia da Natureza dele. Li o livro, que foi a tese de doutorado, do seu professor orientador o Dr. Alfredo de Oliveira Moraes. Esse livro me foi base para meu Projeto de Pesquisa em Filosofia da Natureza. Excelente!!! Abraço!

  2. administrador disse:

    Olá Tiago, obrigado! Na verdade minha intenção não foi ter feito um artigo, pois percebi que muitos pontos que eu poderia abordar nesse texto, por motivos da extensão que poderia ficar o texto, não tratei, mas fico feliz que mesmo assim você tenha gostado, isso me dá motivo pra continuar nessa penosa jornada nos estudos Hegelianos. Ah o professor Alfredo Moraes tem sido pra mim um pai intelectual, pois ele é de uma clareza sem igual, inclusive esse é o livro que estamos estudando no grupo de estudo com ele, boa sorte na sua jornada é que futuramente possamos nos encontrar nos congressos da vida, abraço.

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