A divindade não-antropomórfica de Xenófanes

antropXenófanes, nascido por volta de 570 a.C., teria vivido mais de 90 anos, sendo dessarte contemporâneo a Anaximandro e herdeiro dos ares dos filósofos naturalistas da época; escreveu em versos ainda hoje lidos, embora subsistam apenas alguns de seus fragmentos. Em geral, os doxógrafos dizem que este pré-socrático teria passado parte da vida em Eleia, onde fez uma nova teologia (teoria do Uno) criticando o antropomorfismo de Homero e Hesíodo e fundou a escola filosófica eléatica.

  • Semelhanças entre Xenófanes e Parménides

Aristóteles supõe – possivelmente a partir de comentário de Platão (Sofista 242 D; DK 21 a 29) <<o grupo dos Eleatas, que começa com Xenófanes e até antes, explica nos seus mitos que aquilo a que chamamos todas as coisas é na verdade uma só>> – ter Xenófanes sido mestre de Parménides. Entretanto, a relação entre ambos os pré-socráticos, apesar de se expressar por uma divindade una e imóvel, a esfera imóvel de Parménides foi alcançada por uma via totalmente diferente da de Xenófanes.

Xenófanes, especialmente no fragmento DK 21 B 34e Parmênides, de DK28 B1 até B6, têm muito em comum: o objeto de reflexão de ambos é o próprio conhecimento e seus caminhos, desvios e limitações. Uma primeira observação a ser feita é que esse exame leva os tratados de tais pré-socráticos a serem considerados uma preliminar discussão metodológica acerca do estatuto da verdade (alí̱theia) e das opiniões; trata-se então de uma nascente filosofia, meditação que não busca apenas expressar uma verdade, mas refletir sobre a própria condição da mesma. Essa seria a principal diferença entre estes e os pensadores tradicionais (como Hesíodo e Homero) ou mesmo dos oráculos. 

  • Teologia e Verdade em Xenófanes

As criticas de Xenófanes são bastante claras: os deuses são imorais e não há nenhuma boa razão para pensar que eles sejam antropomórficos, como acreditavam os poetas e povos tradicionais, ou mesmo etnomórficos. Observa-se no pré-socrático a brilhante constatação de que raças diferentes atribuem aos deuses as suas próprias características particulares, e assim, se pudessem, os animais também fariam o mesmo. O que há, portanto, é uma única divindade não-antropomórfica. 

Mas se tivessem mãos os bois, <os cavalos> e os leões,
quando pintassem com as mãos e compusessem obras como os homens,
cavalos como cavalos, bois semelhantes aos bois
pintariam a forma dos deuses e fariam corpos tais como fosse o próprio aspecto <de cada um>.
Os etíopes <dizem que seus deuses> são negros de nariz chato
os trácios de olhos verdes e ruivos.
(B15 e B16)
Um único deus, entre deuses e homens o maior,
em nada semelhante aos mortais nem no corpo nem no pensamento.
Inteiro vê, inteiro pensa, inteiro também escuta.
Mas sem esforço tudo vibra com o coração do pensamento.
Sempre no mesmo permanece, não se move,
nem lhe convém sair ali e acolá.
Xenófanes, engrandecendo então os deuses e o todo, virá a expor os limites do conhecimento humano, apresentando uma postura essencial do caráter filosófico muito similar à figura de Sócrates. Eis a reflexão sobre o saber e seus limites: 
E ao certo nenhum homem sabe coisa alguma
nem há de saber algo sobre os deuses nem sobre o todo de que falo;
pois se, na melhor das hipóteses, ocorresse-lhe dizer algo perfeito,
ele mesmo, no entanto, não saberia; opinião é o que se cria sobretudo.
(B34)
  • Fragmentos semi-completos
B 1
Agora sim, o chão está limpo e as mãos de todos
e os cálices. Um cinge de coroas trançadas,
outro verte mirra perfumada no vaso;um ergue uma taça cheio de alegria
outro diz que o vinho preparado nunca vai faltar
suave mel nas jarras, de aroma floral.
Em meio, exala odor sagrado de incenso
a água está fresca, suave e pura;
ao lado, há pães dourados sobre a mesa farta
carregada de queijo e espesso mel;
com todas as flores, ao centro, há uma altar recoberto,
Música domina a casa inteira e Festa.
É preciso primeiro que homens alegres cantem ao deus
com benditas histórias e palavras puras;
feitas libações e preces pelo poder de agir
com justiça – pois isto é de praxe –
não beber além de quanto aguentar
para voltar à casa sem guia, a não ser pela idade.
O homem de louvor, bebendo, revela nobrezas,
como a memória e o empenho na virtude,
não se põe a contar lutas de Titãs, de Gigantes
nem de Centauros, ficções dos antigos,
ou revoltas violentas, em que nada é útil;
bom é comprometer-se com os deuses sempre.
B2
Se levasse a vitória pela velocidade dos pés
ou no pentatlo, lá no templo de Zeus
à margem do rio Pisa em Olímpia, ou na luta
ou ainda suportando a dor do pugilato,
ou na ferina disputa chamada pancrácio,
deslumbraria os cidadãos com tanta glória
e alcançaria nos jogos a tribuna de honra
e receberia sustento do erário
da cidade, e um prêmio que lhe fosse valioso;
e até mesmo no hipismo, tudo isso lhe caberia
sem valer como eu: pois melhor que o vigor
de homens e cavalos é nossa sabedoria.
Quanta insensatez! E não é justo
preferir o vigor à boa sabedoria.
Pois nem se houvesse um bom pugilista entre o povo
nem um bom no pentatlo, tampouco na luta
nem mesmo na velocidade dos pés, mais valorosa
do que a força dos homens na peleja dos jogos,
não alcançaria a cidade um governo melhor.
Curta alegria gozaria a cidade
se um atleta competindo, ganhasse às margens do Pisa:
pois isso não enche os silos da cidade.
B3
Tendo aprendido as sutilezas inúteis dos Lídios
quando viviam sem a odiosa tirania,
iam à praça vestindo túnicas púrpuras,
não menos que mil ao todo,
cheios de si, garbosos em seus cabelos bem cuidados,
impregnados com perfumes de óleos refinados.
(…)
B8
Sessenta e sete anos já se passaram
Debatendo-me com meu pensamento pela terra grega;
do nascimento até então conto mais vinte e cinco
se ainda sei eu falar disso com acerto.
(…)
B 11
Homero como Hesíodo atribuíram aos deuses tudo
quanto entre os homens é infâmia e vergonha
roubar, raptar e enganar mutuamente.
B 14
Mas os mortais crêem que os deuses são gerados,
e que têm roupas como as suas, e têm voz e têm corpo.
B 15
Mas se tivessem mãos os bois, <os cavalos> e os leões,
quando pintassem com as mãos e compuzessem obras como os homens,
cavalos como cavalos, bois semelhantes aos bois
pintariam a forma dos deuses e fariam corpos
tais como fosse o próprio aspecto <de cada um>
B 16
Os etíopes <dizem que seus deuses> são negros de nariz chato
os trácios de olhos verdes e ruivos.
(…)
B 18
Os deuses de início não mostram tudo aos mortais,
mas os que investigam, com o tempo, descobrem o melhor.
B 23
Um único deus, entre deuses e homens o maior,
em nada semelhante aos mortais nem no corpo nem no pensamento.
B 24
Inteiro vê, inteiro pensa, inteiro também escuta.
B 25
Mas sem esforço tudo vibra com o coração do pensamento.
B 26
Sempre no mesmo permanece, não se move,
nem lhe convém sair ali e acolá
B 27
pois da terra tudo se gera e na terra tudo se encerra.
B 28
este limite da Terra para cima é visto a nossos pés beirando o ar,
para baixo atinge o ilimitado.
B 29
Terra e água é tudo quanto surge e desabrocha.
(…)
B 33
Pois todos nascemos de terra e de água.
B 34
E ao certo nenhum homem sabe coisa alguma
nem há de saber algo sobre os deuses nem sobre o todo de que falo;
pois se, na melhor das hipóteses, ocorresse-lhe dizer algo perfeito,
ele mesmo, no entanto, não saberia; opinião é o que se cria sobre tudo.
B 35
Que tais coisas sejam consideradas semelhantes às reais…
B 36
 Tudo quanto se manifesta aos mortais é para ser contemplado..

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Categoria: Filosofia, Filosofia Pré-Socrática

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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