A singela fé do ignorar a razão de Deus

Ainda me lembro da última vez em que fiz uma confissão na capela Católica. Ano de 2010 ou 2011, por volta dos meus quatorze ou quinze anos. Entrei na Igreja de cabeça baixa, a timidez escondia minha convicção. Eu tinha vergonha por não conseguir praticar o catolicismo enquanto costume já que nunca me fora sagaz entender espiritualidade como técnica (o mesmo pensava a respeito da meditação budista ou qualquer outra prática religiosa). “Quero sentir Deus, e não praticá-Lo. Ele me ouviria naquele lugar?”, meditava.

Onde eu estava? Numa capela branca e simples cujo fim diziam-me ser zelar por Jesus, sentir paz e amor. Lá estava a imagem de Cristo no fundo, distante, pendurada numa cruz de madeira enorme; eu, sentada num banco maciço. Olhando àquele símbolo não me pareceu possível fazer o sinal da cruz em reverência, faltava-me preparo ou conforto. Hoje acredito que provavelmente nunca hei de estar preparada para entender o para além do universo Humano pela linguagem/doutrina/técnica humana. Apesar de já ter sido no passado o Silêncio um ideal ou uma meta e um caminho até mesmo para as tradições cristã e judaica, eu precisava de uma quietação completa: silêncio de linguagem verbal e não verbal, silêncio dos símbolos que ecoam de forma ruidosa na mente com associações psíquicas, silêncio até mesmo da Cruz. Entretanto, eu estava saindo da adolescência, procurava o silêncio mas permanecia inconsciente,não sabia ser ele, o silêncio, aquilo que eu procurava. Não o encontrava, pois sua veracidade não na inconsciência, mas na hiper consciência.

Procurando então sabia lá eu o quê naquele lugar, dirige-me até o Frei. Lembro de minhas palavras até hoje: Padre, eu o chamava por este nome, não sei se gostaria de me confessar. Mas prezaria conversar com o senhor. Não sei como o faço. Que é confessar-me? Que é falar com Deus? Padre, não sei se consigo ser cristã sem entender que é tudo isso. Gostaria de ser, gostaria de sentir o único Deus, mas para isso acho que teria de conhecê-Lo, e a educação que tive não me basta. Deus é costume?. Recordo-me agora de seu olhar sincero, fraterno e acolhedor ao ouvir minhas palavras, seus olhos pacíficos revelaram-me a graça. Querida, disse-me ele, às vezes a gente busca estudar Deus, compreender Deus com mais que a fé inocente desenvolvida por nós na infância. Isso é preciso para algumas pessoas. Mas às vezes penso que nós, que estudamos, não temos a mesma fé da singela aceitação sem demais estudos e buscas nos livros.

Desde sempre lembro de suas palavras, algo inesquecível. Antes daquele dia, em outra época, chorei quando o mesmo frei havia perguntado-me que era Deus. Falei palavras bonitas, acreditando fielmente em sua pura Bondade, Harmonia, Acolhimento e beleza. Deus é chama viva que mora no coração de cada um de nós. Naquele tempo eu era como o padre havia falado: fé sincera transbordando na criança interior, entendimento. Desde o primeiro dia quando perguntei Que é Deus? Onde está Deus?, eu não mais sabia, ele me era distante e incompreendido. Nicolau de Cusa sobre isto fala De como saber é ignorar. Todos os que investigam julgam o incerto, comparando-o, em termos proporcionais, com pressupostos certos. Toda a investigação é, pois, comparativa e recorre à proporção. Medida e medido, por mais iguais que sejam, permanecem sempre diferentes. O intelecto finito não pode, pois, atingir com precisão a verdade das coisas através da semelhança. Enquanto eu não perguntava, pois, sobre Deus, no silêncio de minha própria afecção, eu sabia de sua existência. Mas quando o Verbo fez-se palavra, Ele não mais era inteligência. Certamente era disso que o Frei falava… Mas não me bastava o simples sentir, sem razão, ele não me era verdadeiro.

Passei por um tempo repousando num ateísmo doentio, mais parecido com religião. Deus não poderia existir. Por quê? Porque eu não o sentia, tampouco envolvia-me em lógicas matemáticas acerca de sua existência, somente fraquejava-me por entre uma revolta adolescente de incompreensão d’um Deus antropomórfico. Até os ânimos revoltos passarem, permaneci durante algum tempo presa àquele pensamento. Com mais idade, mais tarde, Deus fez-se Logos, motor imóvel, Verbo, N coisas. Aventurei-me procurando uma resposta ou mesmo uma pergunta, uma razão ou uma fé, uma compreensão ou um sonho. Mais que conforto, queria a Verdade, mais que Verdade, queria o sentimento de harmonia entre o pensamento e o mundo.

De toda a minha busca, por entre toda a minha compreensão e raciocínio lógico acerca da existência de Deus, sinto falta de quando a verdade precisa fazia-se presente na criança interior que silenciava a dúvida do Que é isso? Naquele momento eu sabia, eu sentia, Deus era, Deus se fazia. Hoje, penso, mas ainda não Silencio.

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Categoria: Cristianismo, Espiritualidade

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (2)

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  1. Elan Marinho disse:

    Isso me fez lembrar um texto que fiz faz um tempo. Nele, escrevi:

    “Emociono-me sempre que olho para o céu, para o oceano ou para o espaço. Sinto-me parte de algo descomunal. De alguma coisa incontável. Infinita. Delicio-me apaixonado pelo infinito. Sentir-se gigantesco é constatar que há algo gigantesco. Esse algo, alguns batizaram ‘Deus’. Eu nomeio: produto psicológico de um processo neurológico. Porque não há Deus ali. Tão somente há o homem com sua mente sedenta por poder. Ela quer o Universo. Quer sê-lo. E tem a sensação de que o é. A ilusão de ser imensamente esplêndido. Deus é quimera.

    A religião – o ascetismo – me dá uma ‘paz’ que não cabe dentro de mim. É um sentimento do qual abstenho-me pelo preço que, necessariamente, deve-se pagar para possuí-lo. A desonestidade. É necessário mentir – mentir muito (!) – para si mesmo para acreditar no sobrenatural. Prefiro, por conseguinte, acreditar em tudo aquilo que posso chamar de meu, em tudo que é palpável, em tudo que é mundano, em tudo que é carnal, em tudo que subitamente levar-me-ia ao pecado. Isso é o que me dá a verdadeira paz. Apesar de, na maior parte do tempo, tormento. Nunca, no entanto, o tormento de estar sendo desonesto consigo mesmo. Posso padecer de consciência limpa. Um pecador moralmente aceitável. Um pecador que não admite pecadilhos filosóficos.”

    Também tenho a sensação de que o nosso senso de idolatria (e, nisso, inclui-se a idolatria a Deus) tem um tempero primitivo. Deve ser o mesmo sentimento que outros primatas tem em relação a seus respectivos machos alpha. Pois, quer queiramos ou não, ainda somos primatas.

    • Alguns falam que a diferença entre nós e os Santos é que nós não desenvolvemos nossa Humanidade; estaríamos assim de fato entre o bicho e o Homem ou, se preferir, entre o bicho e o Anjo. Para Agostinho por ex, há vários graus da alma e a maioria de nós estagnamos no terceiro (vegetativo, sensitivo e intelectivo).

      Seria estranho ver nossa condição pouco desenvolvida e praticamente estagnar o homem tendo essa como sua única possibilidade de ser.

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