Adendos ao determinismo moderado

| 30/08/2015 | 0 Comentários
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 Existe, em mim, uma forte repulsa por alguns artigos escritos nos últimos meses quanto à questão da liberdade de escolha, baseando-se em premissas estendidas de um texto publicado pela revista Galileu em abril deste ano (2013) [1]. A revista defende, sobre os pilares de estudos neurocientíficos recentes, que certas ações que tomamos não passam pelo crivo da esfera consciente que, segundo o senso comum, ao menos, daria a nós um crédito de “livre-arbítrio”. O problema, no entanto, é a extensão desse argumento, que propõe que todas as nossas ações são determinadas por esse agente inconsciente; que, assim, não temos o livre-arbítrio, ou que o temos e não temos ao mesmo tempo, uma vez que esse agente – o “cérebro” – integraria o nosso corpo.

O meu maior protesto, portanto, quanto a essas continuidades, está contido no fato de os autores acabarem por deixar questões conceituais de lado – além de outras que considero fundamentais para a defesa dessas proposições – levando, assim, suas linhas argumentativas à simploriedade. Isto é, em dados momentos, esquecem-se do significado de “livre”; em outros, do que pode significar uma determinação não-consciente. Deste modo, senti a necessidade de imprimir, aqui minhas réplicas e adendos a essa questão, de modo que a discussão saia desse campo genérico e seja significativamente aprofundada.

Meus argumentos basear-se-ão, majoritariamente, nos três seguintes pressupostos: primeiro que, a priori, o livre-arbítrio – a escolha que independe de fatores externos ao indivíduo – é impossível em um mundo absolutamente físico. Segundo, caso exista uma alma – mente ou consciência incorpórea que atua sob o mundo corpóreo  –, ela certamente faz parte dos processos de cognição dos indivíduos, o que daria, digamos, uma parcela de motivação no ato da escolha, mas nunca o total, o livre-arbítrio. E, terceiro, que um deus pode influir nos processos da escolha de maneira “direta”, mas isso vai depender de quem ele é, se ele existe, do tipo de universo em que vivemos e, por conseguinte, de quem nós somos.

O que é a realidade e o que ela não é? Essa pode parecer uma questão distante do tema que aqui estou propondo; contudo, ela é fundamental. Pois na medida em que o indivíduo pode ser entendido como parte integrante da realidade, ele pode, assim, ser determinado por ela, ou mesmo “determiná-la”.

Se se propõe um mundo absolutamente físico, pode-se dizer que o livre-arbítrio, em seu sentido literal, é inexistente, uma vez que se percebe o meio como um movimento constante de corpos; porque “ser”, nesse contexto, é algo totalmente impossível em longo prazo, dado que os objetos estão em um movimento de troca e interação físico-química constante com o meio.

Sob esse aspecto, pode-se dizer que só por entrar em um rio, ao sair dele não serei mais o mesmo, bem como o rio também não o será (ideia defendida por Heráclito ainda no período pré-socrático). Existem fenômenos como o aderir da água em nosso corpo e de perda de células epiteliais que tornam improvável que se saia de um rio da mesma forma que se entrou nele. Assim existirá, claro, uma “essência” aparente, mas não uma objetiva. Isto é, eu ainda classificarei meu corpo (e, quiçá, alma) como “corpo” e o rio como “rio”, por esses objetos apresentarem características superficiais que correspondem ao significado dessas palavras. No entanto, a alma objetiva, diferentemente da alma aparente, é necessariamente imutável em longo prazo, então só poderia se chamar um corpo de parte integrante da alma, se ele fosse igualmente incorruptível.

Ainda assim, há quem argumente que o cérebro é parte integrante do corpo que, por sua vez, é parte integrante do ser e que, por isso, quando o cérebro toma uma decisão, o ser humano toma uma decisão; mesmo que essa decisão seja tomada por uma parte não-consciente do cérebro. Ora, se se supõe um mundo absolutamente físico, essa ideia é um equívoco, como já demonstrei. Mesmo as noções fisicalistas mais “vitalistas” acabam indo de encontro a um grande erro: o deixar de lado o fato de o ser humano estar sujeito a ações de determinações externas ao encarar a “escolha” como um compilado de eventos fundamentalmente neuropsicológicos, ou, ainda, isoladamente internos do corpo.

Assim, ainda poder-se-ia argumentar que o corpo é parte da alma por estar numa relação de troca eletroquímica, por exemplo, direta com o campo mental. Ora, o que diferencia em nível os processos de troca e interação “internas” ou “externas”? Essas definições seriam, por mais irônico que pareça, totalmente arbitrárias! O coração “funciona” somente porque está “integrado” a um corpo, estabelecendo relações de troca com ele. Do mesmo modo, o corpo só “funciona” pois há um meio que propicia isso. Estabelecemos relações de troca de calor, por exemplo, com nossas roupas – o que pode influir na frequência de batimentos cardíacos e, consequentemente, em uma escolha determinada pelo cérebro. Vê-se, assim, que a determinação do ato pode ir além do campo “mente e cérebro”, uma vez que se observa ações em um corpo, em seus mais diversos níveis, que, por si só, não passam por um processo consciente da mente e que podem determinar um ato.

Como já é de se esperar, essas proposições se encaixam perfeitamente em uma visão de mundo mecanicista. Isto é, na interpretação do meio físico como uma grande máquina; de um mundo casualístico, onde todas as interações determinam umas às outras, direta ou indiretamente como as engrenagens de um relógio. Contudo, apesar do fato de que presumir uma realidade mecanicamente determinística sob um pressuposto fisicalista ser algo de sustentação argumentativa considerável, existe um sério problema ao assumir a confiabilidade da crença nesse panorama, uma vez que se considera o paradoxo contido no que decorre às proposições desse tipo de universo. Entretanto, não me aprofundarei muito nesse problema, por já ter escrito um artigo abordando-o de maneira ampla [2].

A única certeza que podemos ter sobre os seres corpóreos é que são um devir contínuo. Estabelecemos, na verdade, definições “concretas” dos objetos, pessoas e lugares por isso facilitar a nossa sobrevivência; pois pressupor os objetos como compostos de essências objetivamente “eternas” é mais confortável do que descrever prolixamente acontecimentos contínuos num ponto “fixo”, num corpo. O que resta, portanto, aos que preferem a continuar a crer em uma essência humana, é uma pressuposição dualista.

res cogitans e res extensa

Até aqui, quando falei de determinação da escolha, referi-me ao processo dado de maneira física. Então, se existir uma mente incorpórea que atua sobre o mundo corpóreo – fazendo, assim, nossas escolhas não serem absolutamente determinadas pelo meio físico –, o determinismo físico-absoluto é impossível. A escolha poderia ser determinada, em parte, pelo mundo incorpóreo; em parte, pelo mundo físico. Ou seja, o livre-arbítrio continua sem existir, a não ser que esse ser incorpóreo se integre a um objeto incorruptível, não sujeito às ações de agentes externos, não sujeito a esse movimento de “fluxo” e “refluxo”. Sinteticamente, presumo que não há escolha independente enquanto não houver ser existente tempo o suficiente para fazê-la.

Todavia, não é, ainda, exatamente aí onde a ideia de um deus entra. Um deus se encaixa, na verdade, perfeitamente sob a visão de mundo mecanicista. Partirei, no entanto, de uma concepção parcialmente aristotélica de movimento para demonstrar como isso se daria e onde deus entraria no processo da escolha.

Se o movimento não é eterno, contínuo, então podemos afirmar que houve um princípio de movimento. Isto é, se retroagíssemos no relógio do tempo, chegaríamos a um ponto finito do passado onde não haveria movimento e que, portanto, o movimento existente presentemente teria que ser determinado por algo além do físico. Este seria deus. Ele agiria como uma espécie de res cogitans para o mundo físico, fazendo com que um movimento ou ação primordial existisse, dando embalo a todas as movimentações “determinísticas” que temos hoje. Esse deus determinaria, portanto, os processos da escolha, por, sob uma visão fisicalista absoluta de mundo, ou mesmo mecanicista, os movimentos necessariamente estarem intrinsecamente associados ao arbítrio; que seria o quê, senão, igualmente, movimento?

Assim, denoto que mesmo que seja provado que existe uma mente incorpórea que atua sobre o mundo corpóreo, ou que o mundo é absolutamente físico, que funciona como uma máquina, ou que um deus existe, permanecer-se-á, certamente, a ideia da independência de escolha para o homem existente somente enquanto ideia.

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Categoria: Filosofia, Filosofia da Mente

Sobre o(a) Autor(a) ()

Graduando em Filosofia na PUC-Rio (2016-). Além de escrever para o FiloVida (2015-), também sou colaborador no Universo Racionalista (2016-). Nesses dois sites, procuro contribuir com artigos e traduções ligadas à Filosofia. Tenho interesse nas áreas de Filosofia da Ciência, Lógica, Epistemologia, Filosofia Analítica, Filosofia da Linguagem, Metafísica, Ontologia e Filosofia Antiga.

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