Aprendizagem filosófica aos 19 anos

Aqui, gostaria de compartilhar uma vivência pessoal, nada acadêmico, estritamente conceitual ou bem desenvolvido. Algo cru, cândido. De jovem alma para alma, de vivente para vivente.

Este ano foi algo novo para mim: completei no mês de maio dezenove anos. Num avalanche cultural de proteção, ética e valores sociais foi difícil crescer. Difícil perceber ser esta vida minha dádiva, mas também meu peso; minha existência. Difícil me desprender de certos valores, de perceber que eu estava jogada à sorte. E, pessoalmente, mais difícil ainda foi reconhecer que eu tinha um corpo de mulher – não só no sentido de gênero como também naquilo que tange um vivente não só mental como também físico; por incrível que pareça pessoalmente foi mais problemático reconhecer-me enquanto corpo.

Em meio a tais descobertas, caminhei por muito tempo num crístico platonismo. Ao que tudo indicava a vida era guiada pelas ideias a priori; era enxergar com meus olhos as múltiplas árvores e ver que, sendo algumas delas mais verdes outras menos, umas altas outras baixas, havia algo que mesmo entre a multiplicidade eu continuasse chamando àquilo de árvore, havia um eidos. Mas isso não me foi suficiente, a ciência biológica me alavancou de forma pulsante. Parecia que a vida não podia ser um conjunto de formas preexistentes, mas de algo constituído cronológica e acidentalmente pela evolução: de moléculas orgânicas, o agrupamento; do unicelular ao pluricelular; do vegetativo ao sensitivo ao intelectivo (ou do vegetativo e sensitivo ao intelectivo).

Acontecimentos me levavam então a desconsiderar

  1. uma razão pura no homem,
  2. algo de imutável.

Esse último ponto até chegar na questão divina. Se é verdade que as cosias que se movem perecem, a causa primeira do movimento haveria de se comportar de modo divergente. O logos do mundo parece permanecer, e permanecer inteiramente. O que se move então seria a natureza enquanto matéria, e o movente primário seria a natureza enquanto aquilo que permanece no universo. Certamente a natureza seria então um logos, que produz uma matéria inteligente (dado que esta obedece a leis e há a possibilidade humana de produção científica), gênese seu, que mesmo transbordando inteligência, permanece inalterável.

Por essa via e ânsia pelo verdadeiro, por repostas ou indagações, não só no campo linguístico mas também se possível no que vai além desse, nas relações humanas, na comunicação, no afeto, etc. se torna evidente o fato de buscarmos as coisas tal como elas são, ainda que seja para descobrir que são efetivo movimento. Isso, entretanto, ainda me intriga. É diletante parecer ser a primeira crença, isto é, se há movimento ou tudo é uma projeção mental, jamais uma certeza. E tudo aquilo que segue de posterior desdobrará de fé, ainda que racionalizada. Houve certo gênio cristão, entretanto, que decidiu chamar mundo a tudo isso, o que quer que seja, que nos contém e sustenta, a tudo isso, que aparece aos olhos e é percebido como comportamento terra e céu, ou o que parece terra e céu. Mas de certa forma parece essa ser uma questão de lógica/linguagem (não seria tomar por verídica a lógica humana também uma crença?).

Não sei que caminho seguir a partir daí, exceto o de que quero caminhar. E esse é o movimento (aparente ou não) da vida. D’um ser vivente que perecerá, e luta por chegar ao fim por um meio comedido.

Claramente é difícil saber como pensar aos dezenove anos.

Interrogações afloram.

Eis a jovial vida humana.

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Categoria: Filosofia, Pedagogia e aprendizagem filosófica

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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