As Revoltas de Escravos na República Romana

Espártaco, de Denis Foyatier, 1830. Museu do Louvre

Espártaco, de Denis Foyatier, 1830. Museu do Louvre

As conquistas militares fizeram de Roma um estado totalmente dependente da mão de obra escrava e isto suscitou um ciclo em que cada conquista trazia mais escravos para os romanos e estes cativos impulsionavam a opulência de Roma e levando-a a fazer mais guerras. As contradições inerentes ao sistema escravista romano aumentaram grandemente as tensões sociais, os escravos estavam presentes em praticamente todos os postos de trabalho, exceto aqueles que traziam poder como cônsul ou magistrado.

A primeira revolta de escravos acontece segundo Tito Lívio em 198 a.C na região do Lácio, lá viviam cartagineses juntamente com seus escravos. Estes decidiram atacar seus senhores num dia de festa, onde os amos estariam festejando num teatro. Depois de massacrar seus donos os escravos iriam para o porto de Circeium para ali fugirem para sua pátria. A conspiração falhou, pois traidores contaram o plano para as autoridades que prontamente destruíram os insurretos. As características que marcaram esta revolta se reproduziu nas outras e estas são: a conspiração de alguns escravos, um plano de retornar a terra natal e a traição ajudando no fim do movimento libertário. Ainda segundo Tito Lívio uma revolta aconteceu na Etrúria no ano de 196 a.C, onde predominava grandes propriedades rurais. Os revoltosos criaram um verdadeiro exército que necessitou de toda uma legião para esmagar a revolta, o que veio a acontecer foi que os líderes foram crucificados, alguns escravos foram devolvidos aos seus senhores e castigados. Em 185 a.C, pastores da Apúlia se sublevaram deixando o sul da península itálica praticamente isolada, uma expedição punitiva foi enviada resultando na morte de sete mil escravos rebeldes, mas uma parte conseguiu fugir. Desse modo as revoltas de escravos no início do século II a.C são de caráter local, mas a cada revolta a área da insurreição é maior e na metade do século II se assiste a uma violência por parte dos escravos até então não conhecida, pois a exploração chega a um nível em que os escravos não se importam mais em viver como cativos preferindo a morte a continuarem na situação de submissão. A Primeira Guerra Servil aconteceu na Sicília, uma ilha com exploração de escravos durante séculos nas mãos de gregos e cartagineses e posteriormente de romanos. Os escravos eram tão explorados que tinham que praticar assaltos para assegurar a própria subsistência, porém a grande cultura colocava os escravos numa organização que poderia permitir o surgimento de uma consciência de si que poderia desembocar num movimento revolucionário. A deflagração da guerra servil começou com uma conspiração na opulenta propriedade de Damófilo, conhecido juntamente com sua esposa Megalis pela crueldade contra os escravos, que se localizava na parte mais fértil da Sicília perto do porto de Henna. Os conjurados eram em número de 400, mas eram liderados por um sírio chamado Eunus.

Os revoltosos escolheram a época mais concorrida da colheita, pois era o período em que os escravos retornavam para as propriedades senhoriais. Sob as ordens de Eunus os revoltosos invadiram Henna e com os escravos da cidade destruíram Damófilo e outros proprietários rurais, exceto alguns que antes da revolta haviam tratado bem os escravos. O ato de Eunus em Henna incitou revoltas por toda a ilha. Em Agrigento, a revolta foi iniciada por Cleóton que reuniu cinco mil homens. Escravos se sublevaram em Leontina, Messina, Catânia e Tauromênia. Segundo Diodoro o número de escravos era de 200.000 mil homens, enquanto isso a plebe se rejubilava e muitos plebeus se faziam passar por escravos para pilhar, saquear vilas e às vezes incendiá-las. Os revoltosos tomaram a Sicília e durante quatro anos governaram a ilha e fundaram um estado com capital em Henna. A organização deste estado era interessante, pois os rebeldes elegeram Eunus como rei e este por sua vez convocou a Assembleia do Povo. Havia também um tribunal popular situado num teatro que era um tipo de assembleia do povo de caráter judiciário, havia um conselho composto pelas grandes lideranças dos escravos como o ciliciano Cléon e o grego Aqueiós. As pequenas vilas e os instrumentos agrários foram poupados, pois eles tinham como objetivo voltar a serem lavradores livres. Em 132 a.C o cônsul Públio Rupílio desencadeou uma poderosa ofensiva contra o reino de escravos da Sicília. Ele fez um grande cerco a cidade de Henna ocasionando atos de canibalismo por parte dos escravos, depois de uma traição Públio apoderou-se de Tauromênia. Os prisioneiros de guerra foram torturados e depois jogados do alto de rochedos, em seguida marchou para Henna que só caiu graças à outra traição. Cléon foi morto quando tentou uma retirada, Eunus acabou morto na prisão romana e Orósio conta que Rupílio matou mais de vinte mil homens. A falha do movimento foi o caráter defensivo e sua incapacidade de contatar as outras insurreições de escravos na República Romana. Deste modo a Primeira Guerra Servil terminou com a derrota dos escravos rebelados, sendo milhares mortos a fio de espada e tantos outros crucificados.

Em 133 a.C houve uma nova rebelião de escravos, desta vez liderada por Arístônico em Pergámo na Província da Ásia. Vários escritores romanos a mencionaram o que dá uma ideia da dimensão dessa revolta, Diodoro diz que a revolta em Pergámo foi semelhante ao que aconteceu na Sicília. Operários livres, camponeses e pequenos lavradores se uniram aos escravos. Arístônico pretendeu criar uma cidade utópica chamada Heliópolis baseada num romance homônimo de Lambulos. Este descrevia a ilha Heliópolis como uma ilha onde as pessoas viviam em liberdade e numa fraternidade completa, onde todos trabalhavam para o bem comum e a vida era consagrada aos prazeres acessíveis através da arte e ciência. Em 130 a.C Roma acabou com o exército de Arístônico, este fugiu para o interior da região onde foi cercado pelas forças do cônsul Perpena. A insurreição foi esmagada, Arístônico preso, enviado a Roma e por fim estrangulado na prisão.

Em 104 a.C ocorreu a Segunda Guerra Servil provocada pelos atos do governador da Sicília, o Pretor Licínio Nerva, que revoltaram os escravos. Atendendo uma ordem do Senado motivado pelos pedidos dos reis aliados que desejavam a libertação de escravos por dívidas para que estes fossem recrutados por Caio Mário para lutar na guerra contra os címbrios e teutões, Nerva começou um inquérito para libertar as pessoas reduzidas à escravidão por dívidas que se encontravam com os grandes proprietários e nos ergástulos. Depois de libertar 800 cativos muitos outros escravos passaram a nutrir uma esperança de serem libertados, mas o Pretor foi comprado pelos proprietários rurais e decidiu encerrar o inquérito despertando o ódio dos cativos, ainda maior quando Nerva mandou bandidos sicilianos matarem os insurretos que responderam com uma guerra aberta. Esta segunda guerra servil assumiu grandes proporções, sobretudo na parte ocidental da Sicília. O centro da insurreição era Lilibéia, onde os escravos eram chefiados por Ateniom, villico (agricultor) de um dos grandes domínios da região. No mesmo período, perto de Heracléia nas proximidades do Monte Capriom, um sírio chamado Sálvio, este era adivinho e mágico, reuniu quase vinte mil escravos revoltados. Esta revolta foi de caráter rural, tanto é que os escravos urbanos de Morgância defenderam a cidade contra o exército de Sálvio. Os insurretos fugiram para o Monte Triocola onde construíram um palácio real e uma praça destinada a assembleia do povo, Sálvio foi eleito rei sob o nome de Trifônio, porém o verdadeiro chefe era Ateniom. Este ordenou a destruição dos armazéns romanos, a ocupação de todas as vias de comunicação da Sicília e que o exército de escravos poupasse as grandes propriedades para que estas servissem de usufruto dos soldados. Mais uma vez a falta de atitude e o caráter defensivo desta derrota permitiram que o Pretor Licínio Lucano dominasse primeiramente os insurretos do leste da ilha para depois destruir o grosso do exército inimigo em uma batalha e em seguida sitiar Triocola. Em 101 a.C Roma enviou um exército sob as ordens de Mânio Aquílio, depois da morte de Sálvio, ocorrida nesta época, Ateniom tornou-se rei. Mânio o matou durante uma batalha entre os dois exércitos e a morte do seu líder anunciou a derrota dos escravos. Triocola foi arrasada, uma multidão foi crucificada e outros foram levados a capital para se matarem como gladiadores. A Sicília foi posta sob um regime de permanente terror para manter os escravos sempre submissos, no tempo de Cícero os escravos sicilianos que portassem armas eram imediatamente mortos. Durante a revolta de Espártaco ou Terceira Guerra Servil os escravos sicilianos se mantiveram apáticos e não se sublevaram. No tempo da segunda insurreição siciliana aconteceu a revolta de Saumaco que era chefe dos escravos citas do Reino do Bosfóro, esta revolta foi conhecida devido a uma inscrição em Quersoneso em honra de Diofanto, general de Mitridates VI Eupator que era rei do Ponto. Diofanto queria que o rei do Bosfóro, Parisades, reconhece-se vassalo de Mitridates, então Saumaco que era alumnus do rei (escravo favorito de sua casa) aproveitou o descontentamento dos súditos de Parisades para começar a insurreição. Parisades foi morto, Saumaco foi proclamado rei do Bosfóro e Diofanto fugiu. Moedas foram cunhadas retratando Saumaco como Hélios tendo a cabeça cingida por uma coroa de raios, mostrando que o sonho da Heliópolis estava presente no imaginário dos escravos citas. Seis meses depois Diofanto atacou Saumaco e o derrotou, este foi enviado para Mitridates Eupator que assim afirmou sua autoridade por toda a região. Estas insurreições servis atestam que a luta de classes estava cada vez mais forte e também a fragilidade e o isolamento do movimento de escravos.

Depois de uma guerra social e de uma civil entre Caio Mário e Sila, a República Romana estava abalada e frágil quando surgiu a maior revolta já vista de escravos, liderada por um trácio chamado de Espártaco. Roma que estava assentada no trabalho escravo viu uma sublevação liderada por Espártaco que colocou em risco a existência de Roma, muitos historiadores escreveram que esta Terceira Guerra Servil (73 a.C a 71 a.C) foi tão difícil quanto às guerras púnicas. A insurreição começou numa escola de gladiadores (ludus) no ano de 73 a.C em Cápua no sul da Itália. Esta revolta opôs escravos e a classe dominante, mas não se tratou de uma revolução política pelo fato dos revoltosos não constituírem um novo estado, nem tinham a pretensão de abolirem a escravidão e não derrubaram o governo romano, trata-se, portanto de uma revolta popular e a sublevação de um segmento da sociedade que foi explorado ao ponto de ver na rebelião a única forma de liberdade seja para não ter mais senhores ou para a morte e assim dar término a exploração. Os escritores da época divergiram sobre o motivo de Espártaco ter sido escravizado, segundo Floro Espártaco era um soldado que desertou e tornou-se um bandido até ser pego e tornado escravo. Apiano por sua vez oferece uma visão diferente ao falar sobre o início da revolta:

Ao mesmo tempo, na Itália, entre os gladiadores que treinavam para o espetáculo em Cápua, Espártaco, um homem da Trácia que havia servido certa vez como soldado com os romanos e que, por ter sido feito prisioneiro e vendido, encontrava-se entre os gladiadores, persuadiu a uns setenta de seus companheiros a lutar por sua liberdade ao invés de divertir os espectadores. Eles dominaram os guardas e fugiram, armando-se com clavas e adagas de algumas pessoas nas estradas e refugiaram-se no Monte Vesúvio. Ali deu acolhida a muitos escravos fugitivos e a alguns camponeses livres e saqueou os arredores, tendo como lugares-tenentes aos gladiadores Enomau e Crixo. Por repartir o botim em partes iguais, teve logo uma grande quantidade de homens.” (Apiano, As Guerras Civis, XIV, 116).

Plutarco abordou a revolta de Espártaco com uma maior sensibilidade que Apiano e dando maior ênfase no fato de que segundo ele Espártaco foi enviado a Cápua como escravo sem cometer nenhum crime o que aumentou seu ódio por Roma e que os outros escravos foram condenados a lutar como gladiadores não por más ações como acontecia geralmente, mas sim pela perversidade de seu dono:

“A guerra de Espártaco, sua eclosão foi assim. Um certo Lêntulo Vátia, mantinha gladiadores em Cápua, em sua maior parte gauleses ou trácios; a causa de sua detenção não eram suas más ações, e sim, a injustiça de seu comprador, que os forçava a combater na arena. Duzentos deles resolveram fugir, mas foram denunciados. Os primeiros a saber da delação se adiantaram e, em número de setenta e oito, armados com facas de cozinha e espetos roubados de um restaurante, deixaram Cápua.” (Plutarco, Crasso, 8).

A maioria dos historiados concordam que o nome do dono do ludus de Cápua se chamava Lêntulo Batiatus, os escravos que conseguiram escapar se refugiaram no Monte Vesúvio, os fugitivos elegeram Espártaco e os dois gauleses Crixo e Enomau, que também tinham servido na guerra contra Mitridates durante o conflito empreendido por Sila, como chefes do bando. Ainda segundo Plutarco, logo quando eles chegaram ao Vesúvio um exército que estava em Cápua foi mandado para o Monte com o propósito de destruir a revolta:

“De início, os fugitivos repeliram os soldados enviados de Cápua contra eles e, apoderando-se de uma certa quantidade de armas de guerra, substituíram por elas as suas armas de gladiadores, rejeitadas com desprezo como desonrosas e bárbaras. Em seguida o Pretor Clódio foi enviado de Roma contra eles com três mil homens, vindo assediá-los. Eles ocupavam então uma montanha [o Vesúvio] da qual os romanos controlavam a única passagem, um desfiladeiro; o resto não passava de rochedos lisos e a pique. Mas, no cume, crescia com abundância uma vinha selvagem. Os homens de Espártaco cortaram, pois, os sarmentos que pudessem servir-lhe; e, entrelaçando-os, fizeram com eles escadas tão longas e fortes que, presas no alto, iam ao longo do rochedo até o chão. Desceram todos assim em completa segurança, com exceção de um: esse velava sobre as armas, e as jogou para os outros lá embaixo, descendo em seguida por último. Os romanos não sabiam disto. Os gladiadores cercando-os, aterrorizaram-nos pelo caráter súbito do movimento e os puseram em fuga, apossando-se do acampamento. Muitos entre os boiadeiros e pastores do país se juntaram a eles. Eram homens trabalhadores e ágeis. Alguns foram armados; outros foram empregados como exploradores ou como infantaria leve.” (Plutarco, Crasso, 9).

A adesão de homens livres ao exército de Espártaco é compreendida quando se nota a situação deles nesta época, a população livre principalmente da região da Campânia estava devastada por causa das guerras social e civil e pelas confiscações feitas por Sila. O partido popular durante a guerra civil prometia a liberdade aos escravos caso lutassem contra Sila e isto fez os cativos aprenderam as táticas bélicas de Roma o que tornou a revolta de Espártaco bem sucedida por já saberem como se comportava os soldados inimigos, enquanto que os camponeses acabaram se unindo para assim ter uma vida melhor e se vingarem dos seus senhores. A popularidade de Espártaco cresceu devido ao fato de que ele dividia de forma equânime tanto a comida quanto as armas que obtinham, deste modo o movimento de Espártaco assumiu proporções imensas que o permitiu destruir várias milícias enviadas contra ele sob as ordens de pretores como Cláudio e Varínio, pois as autoridades não consideravam Espártaco uma ameaça digna de uma guerra, mas si um bando de escravos que praticavam roubos. Isto pode ser devido que ao matar escravos, os romanos estavam destruindo a própria fonte de riquezas o que era algo que a elite não queria. Esta característica dos escravos de ser fonte de toda a riqueza romana ajudou os escravos a organizarem um exército de quase setenta mil homens segundo Apiano, e a tornarem o movimento um polo de atração para camadas descontentes da sociedade romana. O exército de escravos fazia operações de improviso na retaguarda das forças romanas e utilizavam táticas de guerrilha para surpreender os inimigos, como atacar em pequenos bandos sem despertar a atenção dos romanos. Dois grupos eram majoritários entre os escravos revoltosos que era os trácios leais a Espártaco e este não aceitava excessos nos saques e o dos gauleses e germanos sob as ordens de Crixo e Enomau chegando a se separarem por um tempo.

Em 72 a.C o exército de dois cônsules, Gélio Publícola e Cornélio Lêntulo atacaram Espártaco que acabou vencendo as tropas romanas e passou à ofensiva, algo que aconteceu pela primeira vez em toda a cronologia das guerras servis. Em seguida foi para o norte até os Alpes onde venceu o procônsul da Gália Cisalpina Cássio Longino que tentou lhe barrar a passagem, neste momento Espártaco que até então queria fugir para longe dos romanos decidiu dar meia volta, passou bem próximo de Roma e fixou-se no sul da Itália. Neste caminho de volta Espártaco deixou um rastro de destruição como afirma Apiano:

“Uma delas, [das legiões] derrotou Crixo com 3000 homens próximo ao Monte Gargano, dois terços dos quais sucumbiram junto com ele. Espártaco abriu caminho através dos Apeninos em direção aos Alpes e à região da Gália, mas um dos cônsules antecipou-se e impediu sua fuga, enquanto outro mantinha sua retaguarda sob controle. Ele voltou-se contra eles um após o outro e derrotou-os um por um. Eles bateram em retirada, de modo confuso, em várias direções. Espártaco sacrificou trezentos prisioneiro romanos ao espírito de Crixo, e marchou sobre Roma com 120000 homens da infantaria; tendo queimado todo o material sem utilidade, matou todos os prisioneiros e abateu seus animais de carga, a fim de executar prontamente seu movimento. Muitos desertores ofereceram-se a ele, embora ele não os aceitasse. Os cônsules novamente encontraram-no na região do Piceno. Aqui havia sido travada outra grande batalha e houve, também uma outra grande derrota dos romanos. Espártaco mudou sua intenção de marchar sobre Roma. Ele ainda não se considerava pronto para este tipo de luta, já que sua força total não estava armada adequadamente, pois nenhuma cidade juntou-se a  ele, mas somente os escravos, desertores e a ralé. No entanto, ele ocupou as montanhas ao redor de Túrio e tomou a própria cidade. Ele proibiu que os mercadores trouxessem ouro e prata, e não permitiu que seus próprios homens os adquirissem, mas comprou grande quantidade de ferro e bronze e não interferiu com aqueles que negociassem com tais artigos. Abastecido em abundância com material dessa procedência, seus homens proveram-se de muitas armas e fizeram pilhagens frequentes por um tempo. Quando eles, em seguida, travaram combate com os romanos, novamente foram vitoriosos, e voltaram carregados com espólios.” (Apiano, As Guerras civis, XIV, 117).

Apiano demonstra um Espártaco pragmático que mata prisioneiros por não ter como vigiá-los e que se livra de todas as coisas desnecessárias para aumentar a mobilidade do próprio exército. Os historiadores divergem sobre o que levou Espártaco a dar meia volta ao invés de fugir dos domínios romanos, já que antes ele queria que depois da fuga cada um fosse para seu país de origem enquanto que outro grupo preferia continuar pilhando a península itálica. Alguns dizem que Espártaco perdeu o controle sobre aqueles que desejavam continuar na Itália, outros afirmam que uma inundação provocada pelo rio Pó impediu que os escravos insurretos atravessassem ou que Espártaco receou a resistência das populações rurais da Gália Cisalpina ou de que ele considerou a passagem pelos Alpes algo muito difícil e decidiu voltar. Todavia, a hipótese mais aceita é que Espártaco ficou mais corajoso com os últimos feitos militares e decidiu marchar sobre Roma, plano que foi mudado pela constatação de que seus soldados não estavam suficientemente prontos para destruir a capital da república romana.

Surge então a figura de Marcos Licínio Crasso convocado pelo Senado para destruir Espártaco, o general Crasso para encorajar seus soldados e trazer de volta a disciplina às fileiras romanas decidiu empregar medidas drásticas como o castigo da dizimação (decimatio) que era tido como o mais severo aos soldados romanos, este castigo consistia em que pegar os soldados que se mostravam covardes ao lutar, depois os escolhiam por dezenas (daí o nome dizimação) e tirava-se a sorte, sobre aquele que recaía a sorte era punido com a morte. Isto fez os soldados romanos temeram mais a Crasso do que a Espártaco e lutarem com toda a força e sem recuar, impondo severas derrotas ao exército rebelde. Neste momento Espártaco engendra um plano:

“Achando no estreito barcos de piratas cilícios, ele decidiu tentar um golpe na Sicília, lançando dois mil homens à ilha para ali reacender a guerra servil, extinta havia pouco tempo, só tinha necessidade de algumas fagulhas para voltar a arder. Mas os cilícios, após fazer acordo com ele e receber gratificações, o enganaram, partindo sozinhos.” (Plutarco, Crasso, 10).

A traição dos piratas selou o destino de Espártaco que se viu numa encruzilhada, ele se entregava a Crasso e era morto ou lutava até a morte com as chances de sobreviver e tentar uma fuga posteriormente. Espártaco lançou mãos de castigos aos seus homens ou prisioneiros como forma de mostrar a seus soldados o destino que os aguardava caso perdessem a guerra:

“Ele também crucificou um prisioneiro romano no espaço entre os dois exércitos para mostrar a seus homens o destino que os aguardava, caso não vencessem.” (Apiano, As Guerras Civis, XIV, 119).

Espártaco aproveitou uma tempestade de neve e atacou a retaguarda do exército de Crasso, este receou que os escravos marchassem para Roma já que a rota estava aberta. Nesse momento as tropas de Lúculo e de Pompeu chegam e cercam as tropas de Espártaco, uma batalha encarniçada ocorre entre o exército de escravos rebeldes e a legião comandada por Crasso. A última batalha aconteceu na Lucânia do Norte, os soldados de Espártaco lutam desesperados e num momento da batalha ele é ferido por uma flecha na coxa e segundo Apiano nesse momento o líder trácio caiu de joelhos e se cobriu com seu escudo lutando até a morte. Plutarco diz que ele precipitou-se para o meio dos inimigos procurando Crasso, mas que por fim abandonado pelos seus soldados lutou até a morte. O movimento de escravos foi esmagado e o que sobrou dos homens de Espártaco foi sendo mortos aos poucos nas montanhas da Itália. Crasso ordenou a crucificação de seis mil escravos ao longo da estrada de Cápua a Roma, comumente conhecida como Via Ápia.

Espártaco perdeu a guerra, mas sua causa manteve-se no imaginário da humanidade como um símbolo de todos os explorados que tentaram destruir a opressão, inspirou a Liga Espartaquista fundada por Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin e Karl Liebknecht. Espártaco era tido como o modelo de revolução proletária para Karl Marx, o compositor soviético Aram Khachaturian batizou um de seus balés com o nome de Spartacus e com ele ganhou o prêmio Lênin em 1959, este prêmio era um dos maiores que podia ser dado na URSS. Os escritores contemporâneos da Terceira Guerra Servil passaram a ver a exploração dos escravos como algo que não era rendoso e começaram a teorizar novas formas de trabalho servil como o pecúlio e o colonato. É nisto que reside a importância histórica de Espártaco, ele acelerou a transição do trabalho escravo para formas de relações socioeconômicas mais progressistas e menos cruéis.

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Categoria: Ética e Cidadania, História

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de História (UFPE), tenho um grande interesse em estudar a humanidade e suas diversas facetas. Sou um ser mutável e busco não a perfeição, mas ser melhor a cada dia.

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