Mídia, hegemonia e contestação

| 29/08/2015 | 1 Comentário

O fim da utopia socialista não nos trouxe uma uniformidade de pensamento, nem unanimidade a respeito de ideologias dominantes. O silêncio não recaiu nas garras do ressentimento pós-moderno. A aparente hegemonia do discurso dominante é apenas isso: aparência.

Nesse contexto é que temos a insurgência das mídias alternativas, em franca oposição ao padronizado discurso da mídia tradicional burguesa. Assim o ensaísta americano John. D. H. Downing reflete em seu ‘Mídia Radical – Rebeldia nas Comunicações e Movimentos Sociais’, publicado no Brasil no início dos anos 2000.

O autor traz um amplo panorama das diferentes mídias alternativas. De início, fica claro que o seu conceito deve ser expandido. Diferentemente da grande mídia hegemônica, a mídia alternativa traz um discurso contestatório e crítico que não fica restrito aos meios de comunicação tecnológicos tradicionais.

Sua esfera de atuação é ampla, orgânica, e flui fugazmente dos tentáculos da Indústria Cultural. Nessa ideia, entram canções populares, grafites, vestuário, teatro de rua, cartuns satíricos e uma vasta gama de trabalhos e técnicas criativas e combativas.

Quebra e ruptura. Um ambiente à parte dentro da própria Mídia Radical. É assim que se caracterizam as técnicas e métodos chamados pelo autor de “bombas mentais”. Receberam esse nome não por representarem uma recusa ao raciocínio, mas sim por inadvertidamente proporem uma quebra com quaisquer padrões fixos de pensamento.

Intimamente ligados à protestos, reivindicações, sátira, humor e acidez crítica. Esses formatos dão vitalidade à comunicação, inclusive à própria esfera pública alternativa. Situados nas fronteiras da arte e da comunicação, possuem dentro de si o elemento criativo, o imaginário, o inesperado.

As assim denominadas “bombas mentais” – xilogravuras, gravuras satíricas, volantes, fotomontagem, cartazes e murais, acabam por apropriarem-se daquilo que lhes pode ser útil, muitas vezes hibridizando cultura popular e cultura hegemônica.

O outro lado também é recíproco, uma vez que tais técnicas permitem sua fácil apropriação, por tratarem-se de meios baratos, acessíveis, simples, diretos e de grande poder de difusão. São “bombas” justamente pois, apesar de limitados a um pequeno espaço, causam grande impacto.

Esses formatos de mídia radical alternativa possuem um grande histórico de repressão e fuga constante das forças do poder dominante e vigente. Sua disputa –  não apenas simbólica mas também física – é uma briga pelo espaço comunicativo, o que encarna uma luta pela própria esfera pública.

Aqui, mostra-se o declínio da esfera pública burguesa, como delineou Habermas, em seu Mudança estrutural da esfera pública (1984). Nessa sociedade burguesa, a midiatização e outras mediações não impossibilitam a existência de uma opinião pública ou a efetivação de uma esfera pública democrática. Suas armas são mais sutis.

A profusão e mercantilização do conhecimento, que reduz tudo à apenas informação, atua nesse esforço negativo. É o fim da narratividade, como nos previu Benjamin. Ao analisar o fim da arte da narrar, o pensador de Frankfurt verifica que o desenvolvimento das forças produtivas vinha “expulsando gradualmente a narrativa da esfera do discurso” (BENJAMIN,1993, p.201).

Ao pensar assim, a experiência estaria esvaziada de seu sentido pela profusão e rapidez da circulação de notícias. Nada diferente do que faz a chamada grande mídia hegemônica. Talvez por isso Gilles Deleuze tenha afirmado que “não sofremos da falta de comunicação, mas de seu excesso”.

A mídia radical alternativa, no geral, e as técnicas aqui tratadas (xilogravuras, cartazes, murais…) em específico, reivindicam para si as verdades sociais que o discurso hegemônico omite.

Essa é uma busca que requer o espaço público. Esse trabalho requer as ruas, o território comum, essa que é a esfera de interação contra-hegemônica. É ver a política como atividade de criação e experimentação. Aqui lembremos de Foucault, ao atuar na desconstrução da subjetividade e da tradição política ocidental, na procura de novas formas de subjetividade e de ação.

Ao invés do “tornar comum”, a busca seria a de criar espaços comuns de expressão. É a comunicação como um meio iniciador de novas perspectivas e sentidos, já que o discurso hegemônico é também um discurso da suposta verdade.

Como afirma Nietzsche, devemos quebrar o apego à verdade, pois esta tornou-se um instrumento de fé.

O criador da linguagem não foi modesto a ponto de crer que dava às coisas apenas denominações, ele imaginou, isto sim, exprimir com as palavras o supremo saber sobre as coisas” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano §11

A verdade mata o devir, mas ela ainda nos é necessária. Tanto quanto a ilusão nos é cara. Contra a vontade de verdade, a afirmação é da vontade de potência – fluxo constante de afirmação da vida, do imaginário e da efetivação da existência.

Essa é a efetuação e a proposta, consciente ou não, das bombas mentais e dos movimentos sociais periféricos na esfera pública alternativa. Buscam afetar a memória consciente, ao invés da mídia que alimenta o inconsciente a partir de conceituações. A sua influência é no domínio consciente, de impacto e de presença.

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Categoria: Cotidiano

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de jornalismo da Unesp - Bauru. "A filosofia serve pra entristecer"

Comentários (1)

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  1. Ismar Dias disse:

    Percebi que voce fez uma fragmentação de críticas neh, todavia elas foram bem costuradas e relativamente inerentes durante a passagem do texto, durante as citações dos filósofos.

    Mas o mais bacana disso tudo é a sua proposta, que da um teor mais plausível pra democracia rebuscada que temos no nosso sistema federativo, pelo menos pra mim, essa foi uma grande reflexão.

    Alguns podem te chamar de comunista, outros de (pode ter certeza) terrorista. Tudo porque voce está formulando uma crítica ao cotidiano deles. Voce deve saber, seu texto justifica isso. a mercantilização do conhecimento e seus afins estão nutrindo mazelas em nossa terra.

    Resta usarmos das mesmas armas que eles, como diria o Renato Russo no Aborto Elétrico;

    Desde pequeno nos comemos lixo;
    COMERCIAL INDUSTRIAL.
    Mas agora chegou a nossa vez;
    VAMOS CUSPIR DE VOLTA O LIXO EM CIMA DE VOCÊS.”

    Abraços!

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