O discurso é um phármakon

discuNo Elogio de Helena Górgias principia defendendo que o ordenamento de uma cidade está no valor de seus habitantes, do mesmo modo como a de um corpo está em sua beleza, a de uma alma em sua sabedoria, a de uma ação em sua virtude e a de um discurso em sua verdade; as qualidades contrárias a essas implicam imperfeição. Por essa razão, diz ele, é necessário honrar com louvores o que seja digno de louvor e cobrir de censuras o que seja objeto de censura. Pois tão errôneo e inexato é censurar o que deve ser enaltecido, como enaltecer o que deve ser censurado.

É vero em seu elogio que àquele mau feitor a cometer um mau ato merece ser castigado <<com a lei, com a palavra e com a ação; com a lei, mediante a perda de seus direitos civis; com a palavra, mediante uma acusação; com a ação, mediante uma sanção penal>>. Mas, o que foi violentado por certa privação, como não deveria ser objeto de compaixão e não de difamação? Um comete o delito, o outro padece. Portanto, o justo é compadecer-se deste e reprovar aquele.

Às vezes certos homens são enganados com seu espírito, diz Górgias, pela palavra. <<A palavra é um poderoso soberano, que, com um pequeníssimo e muito invisível corpo, realiza empreendimentos absolutamente divinos. Com efeito, pode eliminar o temor, suprimir a tristeza, infundir alegria, aumentar a compaixão>>. A exemplo este cita a poesia, a palavra com metro. <<Esta infunde nos ouvintes um estremecimento repleto de temor, uma compaixão repleta de lágrimas e uma saudade próxima da dor, de forma que a alma experimenta, mediante a palavra, uma paixão própria, motivada pela felicidade e a adversidade de assuntos e de pessoas estranhas>>. Por outro lado há as sugestões inspiradas mediante a palavra. Estas produzem prazer e afastam a dor. <<Em terceiro lugar, nas discussões de matérias filosóficas, também se mostra a habilidade da mente, uma vez que torna mutável a confiança em uma opinião>>.

O discurso é, pois, um phármakon (fármaco). Sobre este, diz Górgias: existe a mesma proporção entre o poder da palavra com respeito à disposição da alma que entre o poder dos medicamentos com relação ao estado do corpo. Assim como certos medicamentos expulsam do corpo certos humores e outros, outros distintos humores e uns eliminam a doença e outros, a vida, assim também algumas palavras produzem tristeza, outras, prazer, outras, temor, outras infundem nos ouvintes coragem, outras, mediante uma maligna persuasão, envenenam e enganam a alma.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Pré-Socrática

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Sid disse:

    Eu li “O discurso é um Pokemon”.

    Mea culpa…

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