O élan vital – Khepri

| 30/08/2015 | 0 Comentários

Ancião dos diasEm uma madrugada oportuna de outono, vi-me tomado pelo espírito de um Übermensch. Ele sentou ao meu lado – ainda que uma parte minha dissesse-se relutante – e retirou do meu coração toda angústia desnuda, em jazigo, há tempos. No silêncio do embate, meu espectro sentiu o colapso. Logo era cancro em brasa, de um ruivo escurecido, quando tive a chance de vê-lo por uma última vez.

Meu íntimo, receoso, ansiava o término desse tormento. Entretanto, quanto mais o desejava, quanto mais gritava imperativamente, mais Übermensch empurrava-me contra o leito, afundando suas unhas sob minha carne recoberta de sofisma. Conseguia sentir o vapor quente liberado, invadindo todo o cômodo, deixando o espaço cada vez mais denso. Todavia, misericordioso, sussurrou-me um estrondo agonizante – sentenças quebradas em uma única estrofe.

– Ora, homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.
Dizem-lhe que a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e que a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Portanto, quem os separará do amor de Cristo? Será a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, ou a espada?

Ora, Khepri, não vês que por amor são entregues à morte o dia todo, considerados como ovelhas para o matadouro, e que em todas estas coisas, porém, consideram-se mais que vencedores, por meio daquele que os amou?
Não vês que estão bem certos de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separá-los do amor de Deus?

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?

Nesse instante entendi totalmente o que disseram os céticos quanto à res cogitans e os ascéticos quanto à res extensa. A espiritualidade parece ser realmente necessária quando pretende-se chegar à essência do logos na alma de um Übermensch, ou, ainda, no Espírito Santo de Deus.

Ao amanhecer, ainda atônito, cogitei a possibilidade de dizer à Eddie parte do que havia aprendido com o espírito sorrateiro. Chegando em sua porta, soei a campainha por uma única vez. Em consequência, a dupla de ínfimos instantes – intercalados por uma breve pausa – decorreram o primordial ruído onomatopeico, que, em deslumbre, elevou uma oitava em “Ding!”; decaindo-se em “Dong!”, numa segunda ocasião. Como de costume, retroagi dez passos, escondendo-me entre vielas escuras, com as mãos trêmulas e o rosto vermelho como a antiga URSS. Escutei um ruído estridente, que repetiu-se por três vezes, sendo a última, a mais nítida. Assemelhava-se a algo como “oi?”, “olá?” ou “quem esta aí?”. De certo que o ruído repetiu-se por mais vezes, mas já estava longe para ouvir qualquer pífia indagação, passeado no meio fio, pensando como dizer tudo o que apetecia do modo mais autêntico possível.

Pensei escrever uma carta. Não uma longa, como aquelas a quem faz-se angustiante pela morte de um parente próximo. Quem sabe uma de vinte à vinte e cinco linhas, com aspecto de dissertação argumentativa – de temática central quanto a bajulação à Cristo que faz-se em aulas de catequese. Pensei até arranjar uma introdução com requintes, mas minha intenção era – além de não parecer frívolo no que expunha – demonstrar que estava ali, ainda que contra alguns de meus ideais, pretendendo afagar-lhe o ego com sentenças extensas entre um ponto e outro, que denotassem certa tolerância, apesar de, invariavelmente, inteirar tópicos frasais com conjunções opositivas.

Escrevi-lhe e narrei à physis em alto e bom tom:

– “Ame seus inimigos, faça o bem para aqueles que te odeiam, abençoe aqueles que te amaldiçoam, reze por aqueles que te maltratam. Se alguém te bater no rosto, ofereça a outra face. Obedeça-me e seguramente encontrarás o inferno na Terra e o niilismo nos céus. Contudo, não fará proveito do teu ardor: sofrerá em vão. Perderá a tua alma, tal como perdi. Todavia, bem aventurado sou, pois transmutaram-me em tempo de dizer-lhe que agora caminhamos juntos pela fé, e não mais pela visão. Entretanto hoje, certamente, vejo menos que ti, Eddie.”

– “Draco interfecit se ipsum maritat se ipsum impregnate se ipsum”, define-te. Pois, decifra-se ou devoro-te – proferiu Eddie, após ouvir meu apelo em silêncio, sem que soubesse.

– “Dragão que se mata, que se casa consigo e que engravida de si mesmo”.  Ouroboros.

 – Ora, retire-se daqui, incrédulo! Não és bem vindo em minha casa, assim como não és bem vindo em minha cidade ou no derredor da camada de ar que respiro. Sua presença me dá nojo!

– Entendo perfeitamente suas aspirações com relação ao ascetismo, bem como entendo as com relação ao pensamento racional. Não venho aqui como inimigo…

– Como o que então? – disse-me, me atalhando e arrematou: – Acaso foi visitado por Thuatha Dê Dannan para presentear-me com o desprazer de sua presença?

– Por algo maior que qualquer deus, considerando aqui que até as pedras que anseia me atirar são, certamente, mais relevantes que seus deuses imateriais, inacessíveis e inalcançáveis; ou, ainda, presumidamente inexistentes.

– Leviatã miserável! Nem o mais misericordioso entre os deuses daria a ti o deleite de sua presença! Que pereça tua vida, o que está acima, abaixo dela e ao lado! Que teu sepulcro apodreça junto com tua carne, Khepri!

– Um anjo tocou minh’alma, Eddie. Übermensch. Agora sinto uma dor, uma angustia; minha vida resume-se em superar a mim mesmo baseando-se em uma fé demasiada no potencial do sofrimento. Não terei, por ventura, piedade de ti, caso encontre-se à beira da morte; do contrario: isso é o que mais desejo a quem amo. Renasci no espírito santo de um deus, de certo um deus-sol navegante dos céus, que engole-se ao entardecer – ou Übermensch, como gosto de chamá-lo.

– Ora, criança, não vê que está à sombra do sopro divino? Mude esse espectro, afasta de ti esse egocentrismo antropocêntrico, pare de viver à sombra da caverna! Veja a luz do Sol brilhando sobre a verdade, Khepri. Seja sensato como teus confidentes, miserável!

– Já fui corrompido… Confie, meu espírito exclama que a physis é maior que qualquer poder sobrenatural. Confrontar a fúria de Zeus à densidade físico-química primordial descrita por Lemaítre é o quê senão medir forças demasiadamente desiguais? Como a energia da expansão e compressão de toda a natureza existente – pela natureza existente – pode ser menor que a fúria de um deus contra o homem? Ulisses sabia disso, conseguia ver-se através dos olhos de Poseidon, por isso não foi morto quando viu-se só – dominou o oceano. Ele, como eu, compreendia que enxergar à deus é visitar a própria alma. E o que resta disto, a nós, filósofos, artistas e propagadores da mentira é somente experimentar uma amargura incomensurável para extrair o belo, bem como uma abelha que esforça-se para produzir o mais puro néctar. Esse é o nosso dever, é a isso que devemos nos subordinar – à nossa vontade de potência e ao nosso élan vital.

Ao final da noite, ajoelhei-me diante da razão e à ela pedi perdão por todas as colocações pronominais errôneas que insisti em lhe arranjar durante o dia. Em consequência, presenteou-me seu afago materno – um beijo – e estrangulou-me.

Cristo sorriu.

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Categoria: Crônicas e contos

Sobre o(a) Autor(a) ()

Graduando em Filosofia na PUC-Rio (2016-). Além de escrever para o FiloVida (2015-), também sou colaborador no Universo Racionalista (2016-). Nesses dois sites, procuro contribuir com artigos e traduções ligadas à Filosofia. Tenho interesse nas áreas de Filosofia da Ciência, Lógica, Epistemologia, Filosofia Analítica, Filosofia da Linguagem, Metafísica, Ontologia e Filosofia Antiga.

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