Sobre a religiosidade de Einstein

espA compreensão harmônica do Cosmos pode tornar-se uma hierofania pois, pela visão da totalidade do Universo, o intelecto é capaz de manifestar o sagrado. Entre as diversas interpretações da realidade, encontra-se a aparente divisão entre sacralidade da Natureza e espiritualidade cósmica.

É difícil ao homem religioso fiar-se por uma Natureza exclusivamente biológica. Pelo contrário, para este ela está carregada de um valor sagrado: o Cosmo teria se originado por uma criação divina, razão pela qual o íntimo do Mundo carregaria a sacralidade. Os deuses teriam manifestado as diferentes modalidades do sagrado na própria estrutura do Mundo e dos fenômenos cósmicos. O universo apresentaria-se de tal maneira que, ao contemplá-lo, o homem religioso descobriria os múltiplos modos do sagrado e, por conseguinte, do Ser.

Em contraste, o cientista vê a natureza como um acaso notável que em sinergia com o tempo cria e transforma tudo. Nas palavras de Lawrence Krauss nosso próprio mundo

na história do universo pode ser muito curto, e no futuro distante o que aconteceu aqui pode ser irrelevante, e podemos achar isso deprimente, mas para mim é um acaso notável, e ao invés de ficarmos deprimidos vamos aproveitar nosso lugar ao sol (Discovery Channel, 2002, 0:45:00).

O físico astrônomo Marcelo Gleiser, sobre o Intelligent Design (Planejamento Inteligente), teoria dos criacionistas mais sofisticados que dizem funcionar a natureza de uma forma muito precisa, harmoniosa demais, para que seja fruto de um mero acaso e, portanto, tudo só pode ter surgido de um planejamento inteligente. Para ele, essa visão tem vários problemas. Um deles é que o ser humano é fruto de um longo processo evolutivo que o dotou de um córtex cerebral capaz de perceber semelhanças, simetrias e padrões. Por essa razão, ele é preparado para reconhecer padrões e é recompensado por sua química cerebral – e isso vale também para o reconhecimento da beleza.

Einstein, por sua vez, quando escreve sobre a religiosidade cósmica explica que o Deus da providência presidiria ao destino:

[Deus] socorre, recompensa e castiga. Segundo a imaginação humana, esse Deus-Providência ama e favorece a tribo, a humanidade, a vida, consola na adversidade e no malogro, protege a alma dos mortos. É este o sentido da religião vivida de acordo com o conceito social ou moral de Deus. Nas Sagradas Escrituras do povo judeu manifesta-se claramente a passagem de uma religião-angústia para uma religião-moral. As religiões de todos os povos civilizados, particularmente dos povos orientais, se manifestam basicamente morais. O progresso de um grau ao outro constitui a vida dos povos. Por isto desconfiamos do preconceito que define as religiões primitivas como religiões de angústia e as religiões dos povos civilizados como morais. Todas as simbioses existem mas a religião-moral predomina onde a vida social atinge um nível superior. Estes dois tipos de religião traduzem uma idéia de Deus pela imaginação do homem. Somente indivíduos particularmente ricos, comunidades particularmente sublimes se esforçam por ultrapassar esta experiência religiosa. Todos, no entanto, podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico.

(…)

Para mim, o papel mais importante da arte e da ciência consiste em despertar e manter desperto o sentimento dela naqueles que lhe estão abertos. Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. A interpretação histórica considera adversários irreconciliáveis ciência e religião, por uma razão fácil de ser percebida. Aquele que está convencido de que a lei causal rege todo acontecimento não pode absolutamente encarar a idéia de um ser a intervir no processo cósmico, que lhe permita refletir seriamente sobre a hipótese da causalidade. Não pode encontrar um lugar para um Deus-angústia, nem mesmo para uma religião social ou moral: de modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem age segundo leis rigorosas internas e externas, que lhe proíbem rejeitar a responsabilidade sobre a hipótese-Deus, do mesmo modo que um objeto inanimado é irresponsável por seus movimentos. Por este motivo, a ciência foi acusada de prejudicar a moral. Coisa absolutamente injustificável. E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa. A condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte.

(EINSTEIN, ALBERT. Como vejo o mundo. 11ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S.A.: 1981. 90 páginas.)

O espírito científico, na visão de Einstein, não existe sem a religiosidade cósmica. Para ele, o sábio, bem convencido da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. <<A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve  a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos>>.

Einstein uma vez formulou uma pergunta: “Que nível de escolha Deus teria tido ao construir o universo?” Se a proposta do não limite for correta, ele não teve qualquer liberdade para escolher as condições iniciais. Teria tido, ainda naturalmente, a liberdade de escolher as leis a que o universo obedece. Isto, entretanto, pode realmente não ter sido um grau assim tão elevado de escolha; pode ter sido apenas uma, ou um pequeno número de teorias completas unificadas, tal como a teoria da corda heterótica, que são autoconsistentes e permitem a existência de estruturas tão complexas quanto os seres humanos, que podem investigar as leis do universo e fazer perguntas a cerca da natureza de Deus.

(Stephen William Hawking, 2000, p. 237)

Quando nomeadamente Einstein afirma que «a experiência duma religiosidade cósmica é a mais forte e a mais nobre força impulsionadora por trás da investigação científica» (Cf. A. Mourão, in «Tensão e Distensão entre ciência e fé religiosa», Brotéria, vol. 148 (1999) 391), a Ciência, pois, se aproximaria do intelecto do mundo, da compreensão da origem, da realidade.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Espiritualidade, Física

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × quatro =

Pular para a barra de ferramentas