Teria Platão conhecido a cosmologia do povo hebreu?

tãotaPlatão (428-347 a.C.) é considerado o primeiro filósofo, ao menos em escritos, a romper com a visão materialista (physis) atribuída à antiga cosmologia dos pré-socráticos. Este questiona-se se

As causas de caráter físico e mecânico representam as ‘verdadeiras causas’ ou, ao contrário, constituem ‘con-causas’, ou seja, causas a serviço de causas ulteriores e mais elevadas. A causa daquilo que é físico e mecânico não será, talvez, algo não físico e não-mecânico. (REALE; ANTISERI, 1990, p. 134)

O filósofo dirige-se então a algo desconhecido pelos antigos naturalistas, algo metafísico, partindo portanto de uma realidade supra-sensível, uma dimensão supra-física do ser. Com isso, a filosofia platônica re-insere a figura divina na organização do universo num caráter de perfeição, bondade e racionalidade, ampliando assim as possibilidades de se pensar a physis. Sobre esta, é claro, Platão a concebe no plano sensível (material e em constante mudança), cópia do plano supra-sensível (imaterial e imutável). Este último é chamado de mundo das ideias, o plano composto de eidos (ideias, formas) de todas as coisas que existem e somente é atingido pelo intelecto.

No célebre diálogo Timeu Platão desenvolve esta teoria para a gênese do universo. O filósofo “se propõe descrever a origem do cosmos como obra de um deus que toma a matéria caótica e a molda a semelhança de um modelo ideal” (VLASTOS, 1987, p. 26). Esse deus, chamado por Platão de demiurgo, é um artificie (quem realiza uma arte) por ter tomado “toda essa matéria, massa visível, desprovida de todo repouso, mudando sem medida e sem ordem e levou-a da desordem à ordem” (Timeu, 30). Assim, “se o cosmos é belo e se o Demiurgo é bom, é claro que ele mira o eterno.” (Timeu, 29), tudo o que o demiurgo fez, buscou fazê-lo com perfeição. As coisas sensíveis, apesar de estares baseadas nas idéias, não são imutáveis, por isso, como tudo está sujeito ao movimento, estas estão fadadas à corrupção em sua forma, e sua imperfeição não é culpa do demiurgo, mas da matéria em si. A única coisa que no movimento não se corrompe é a alma. Esta, eterna, contempla as idéias perfeitas.

Diversas religiões considerariam o demiurgo de Platão um deus, e assim foi com o cristianismo. Na Patrística contemporânea a Agostinho de Hipona, a citar, teve início a identidade entre busca filosófica e aceitação da fé, especialmente no que concerne uma teologia com bases platônicas. A relação do gênese platônico com Deus foi defendida de tal forma que foi levantada a possibilidade de que Platão haurira suas ideias não por seus próprios recursos, mas por ter conhecido o Antigo Testamento. Observa-se, inclusive, em Agostinho tal levantamento.

Alguns, que nos estão unidos pela graça de Cristo, admiram-se quando lêem ou ouvem dizer que Platão teve de Deus concepções que, reconhecem, estão em estreita concordância com a verdade da nossa religião. Por isso alguns têm pensado que, tendo ido Platão ao Egito, poderia ter ouvido Jeremias, ou lido os seus escritos proféticos durante a viagem. Eu mesmo consignei esta opinião em alguns livros. Mas um cálculo mais apurado das datas, tais como se contém na história cronológica, mostra que Platão nasceu cerca de cem anos depois da época em que Jeremias profetizou. Com efeito ele viveu oitenta anos; ora do ano da sua morte até àquele em que Ptolomeu, rei do Egito, pediu à Judéia os livros dos profetas hebreus para os mandar traduzir para seu uso por setenta hebreus que também conheciam o grego, passaram-se cerca de sessenta. Portanto Platão não pôde, no decurso da sua viagem, nem ver Jeremias, morto desde há muito tempo, nem ler as Escrituras ainda não traduzidas para grego, língua em que era exímio. A menos, talvez, que, apaixonado estudioso como era, tenha delas tido conhecimento por intérpretes, como aconteceu com as egípcias – sem se tratar duma tradução escrita (…) mas sem dúvida que conseguiu, com as suas conversações, tomar conhecimento, na medida do possível, do seu conteúdo.

Alguns indícios parecem autorizar esta hipótese. O livro do Gênesis começa assim:

No começo fez Deus o Céu e a Terra. A Terra era invisível e desorganizada. As trevas estendiam-se sobre o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas[1].

Ora no Timeu, onde se trata da formação do mundo, Platão declara que, para esta obra, Deus começou por juntar a terra e o fogo. É manifesto que ele põe o fogo em lugar do céu. Esta concepção tem pois alguma semelhança com o que diz a Escritura:

No começo fez Deus o Céu e a Terra[2].

(…) Quanto à afirmação de Platão de que filósofo é o que ama a Deus, nada há mais claro nas Escrituras. Mas o que mais me inclina a crer que Platão não desconheceu estes livros está nisso: Moisés recebeu por um anjo a mensagem de Deus, perguntou pelo nome de quem lhe ordenava que fosse ter com o Povo Hebreu para libertar do Egito, tendo-lhe sido respondido:

Eu sou quem sou e dirás aos filhos de Israel: O que é manda-me ter convosco[3].

Como se, comparadas Àquele que é realmente, porque é imutável, as criaturas mutáveis não fossem. Platão sustentou isto com tenacidade e recomendou-o com solicitude. Não sei se isto se encontra algures em obras anteriores a Platão, salvo naquela onde se diz:

Eu sou quem sou e dir-lhe-ás: O que é manda-me ter convosco[4].[5]

Essa passagem se encontra na Cidade de Deus que, aliás, aborda o terceiro gênero de Teologia, a teologia natural, e trava uma discussão sobre o pensamento agostiniano referente a concepção positiva dos platônicos, que estariam “muito acima dos outros filósofos e mais próximos da verdadeira fé cristã”.

Teria Platão conhecido a cosmologia do povo hebreu? É algo a se especular…


[1] In principio fecit Deus caelum et terram.

Terra autem erat invisibilis et incomposita,

Et tenebrae erant super abyssum,

Et Spiritus Dei superferebatur super aquam.

Gén. I, 2.

[2] In principio fecit Deus caelum et terram.

Ibidem

[3] Ego sum qui sum, et dices filiis Israel:

Qui est misit me ad vos.

Êxodo, III, 14

[4] Ego sum qui sum, et dices eis:

Qui est misit me ad vos.

Ibidem

[5] A Cidade de Deus, Livro VIII, Cap. XI

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Categoria: Filosofia, Filosofia Antiga, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval, Judaísmo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (5)

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  1. Ismar disse:

    Nietzsche aprova esse artigo!

    • Agostinho mais ainda (Ou há mesmo uma disputa grande, será que Agostinho teria gostado mais, em sua Verdadeira Religião já concebida de certa forma por Platão, ou Nietzsche para estreitar a relação entre Platonismo-Cristianismo?)

    • Ismar disse:

      O passar dos anos só vem confirmando apontamentos do nosso querido bigodudo Alemão, vale ressaltar que é dele a proeza de chutar o pal da barraca que sustentava a filosofia moderna; o mundo contemporâneo e a idade do porvir é uma idade Nietzschiana.

    • Ismar disse:

      Não estou desmerecendo filósofo algum, apenas apontando proezas do filosófo dinamite, de fato, ele não traz um receita de bolo tal como Hegel ou Kant, mas trata de denunciar um fato; a filosofia pré-socrática encontra em Nietzsche um berço, um Pai, um lugar pra se manifestar.

      Concordo plenamente com a premissa ‘cada filósofo com sua importância’, mas convenhamos de que Nietzsche tem algumas vantagens, seja pelo lirismo dele, seja pela morte de Deus, ou pelo bigode que chama tanta atenção, ele ainda é o filosofo que mais vende livros, não que isso o transforme em um filosofo mais importante que os outros, mas como um pensador mais coerente com o nosso tempo, com o que as pessoas realmente querem ouvir, ver, pensar.

      Obs: Recentemente eu estava na livraria cultura local emigrando de area em área de respectivos temas, e QUASE TODAS AS PRATILHEIRAS EXISTIA UM LIVRO DO NIETZSCHE, seja na área de esoterismo, literatura, romance, ficção, revistas em quadrinhos ou mesmo numa banca de revista.

      Mas porque diabos estamos falando de Nietzshce? Falemos de Platão e do Cristianismo que é a proposta inicial do poste, peço desculpas!

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