As quatro Virtudes Cardeais

As virtudes cardinais, Catedral de Bamberg. Iustitia (Justiça), Fortitudo (Fortaleza), Sapientia (Prudência) e Temperantia (Temperança).

Catedral de Bamberg – De Quatuor Virtutibus Cardinalibus. Iustitia, Fortitudo, Sapientia e Temperantia.

Existem no Cristianismo quatro virtudes cardeais (ou cardinais) que polarizam todas as outras virtudes humanas. Este conceito, originado em Platão, foi adaptado por pensadores da Igreja como Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

A virtude platônica passa por diferentes fases, todas elas bem apresentadas por Zoraida M. L. Feitosa na tese A Questão da Unidade e do Ensino das Virtudes em Platão. Segundo a estudiosa, a primeira delas ainda se encontra na juventude de Platão, isto é, em sua fase socrática. Nesse período o filósofo entende por fundamento da virtude a razão, pois somente o conhecimento é capaz de unificar todas as virtudes. Em sua segunda fase, embora o saber ainda tenha o papel de unificar as virtudes, o conhecimento não é suficiente; para ser virtuoso o homem precisa não só conhecer, mas também agir. Por último, há a virtude a partir da perspectiva do diálogo Mênon.

O Platão socrático tem por bem mais valioso o conhecimento da alma, isto é, o “conhece-te a ti mesmo”. Somente esse saber efetiva a virtude fazendo com que o espírito seja forte o suficiente para reprimir os impulsos corpóreos através do autodomínio. O diálogo Protágoras apresenta o pensamento das virtudes platônicas a partir de cinco fundamentos, a citar: saber, justiça, coragem, temperança e piedade. Nos diálogos de transição, porém, as virtudes de excelência são quatro, pois a piedade se torna uma extensão da justiça, como é demonstrado na República. Assim se originam as virtudes cardeais platônicas, discutidas mais profundamente nos diálogos Cármides (temperança), Laques (coragem) e Eutífron (piedade). A justiça e o saber, posteriormente, estão em várias obras –  reconhecidas especialmente na República e no Mênon.

Santo Agostinho, por sua vez, adapta tais virtudes para o Cristianismo. O capítulo 13 do Livre Arbítrio é intitulado como expresso a seguir: Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais. O filósofo de Hipona explica que a prudência é o conhecimento daquelas coisas que precisam ser desejadas e das que devem ser evitadas; a força, a disposição da alma pela qual desprezamos todos os dissabores e a perda das coisas que não estão sob bosso poder; quanto a temperança, ela é a disposição que reprime e retém o nosso apetite longe daquelas coisas que ao serem desejadas são vergonhosas; e finalmente a justiça, virtude pela qual damos a cada um o que é seu (Sto Agostinho, Livre Arbítrio, 27).

Desse modo a Igreja, em seu compêndio de teóricos, entende tais virtudes como as “perfeições habituais e estáveis da inteligência e da vontade humanas, que regulam os nossos actos, ordenam as nossas paixões e guiam a nossa conduta segundo a razão e a fé. Adquiridas e reforçadas por actos moralmente bons e repetidos, são purificadas e elevadas pela graça divina” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, CCIC, n. 378).

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Categoria: Cristianismo, Espiritualidade, Filosofia Antiga, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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