De Anaximandro a Charles Darwin

evoCharles Darwin, na descrição histórica de sua principal obra, A Origem das Espécies, explica o longo caminho percorrido pela teoria evolucionista. Alguns naturalistas acreditavam que as espécies eram produções imutáveis criadas de forma separada. Mas outros viam que as espécies sofriam uma modificação e que as formas de vida existentes eram descendentes por gerações preexistentes (para alguns até mesmo no campo das ideias – ver teoria de P. Henry Gosse). Outros, por fim, viam essas modificações como consequência da causalidade.

A ideia da mutação já estava presente nos escritores clássicos desde os pré socráticos. Conta Écio que Anaximandro disse que os primeiros seres vivos nasceram na umidade, envoltos em cascas espinhosas; e que, com o avanço da idade, se mudaram para a parte mais seca e que, depois de a casca ter estalado, levara, por um curto espaço de tempo, um gênero de vida diferente. Demais, segundo Pseudoplutarco, Anaximandro afirmou que no começo o homem nasceu de seres de uma espécie diferente; porquanto os outros seres em breve se sustentam a si próprios, ao passo que só o homem carece de amamentação prolongada. Por esta razão, ele não teria sobrevivido, se tivesse sido esta a sua forma original. Por fim conta Hipólito: “Para Anaximandro, inicialmente, o homem era semelhante a um outro animal – isto é, ao peixe”.

Aristóteles, por sua vez, em seu Physicae Ausculatationes (livro 2, cap. 8, s. 2), observa que a chuva não cai para fazer crescer o trigo do fazendeiro mais do que cai para danifica-lo quando ele debulha os grãos na eira e acrescenta: “Logo, o que impede as diferentes partes corporais de ter essa relação acidental na natureza? Como os dentes, por exemplo, crescem por necessidade, sendo os da frente afiados, adaptados a dividir, e os molares, planos, úteis para mastigar o alimento; como eles não form feitos para esse fim, foi resultado de um acaso. Da mesma forma como em outras partes nas quais parece existir uma adaptação a um fim. Sempre, portanto, que todas as coisas juntas (isto é, todas as partes de um todo aconteciam como se fossem feitas para um fim, eram preservadas, sendo constituídas apropriadamente por uma espontaneidade interna, e todas as coisas que não fossem assim constituídas, pereciam e ainda perecem”. Vemos aqui, consta na Evolução das Espécies em nota de rodapé, o princípio da seleção natural vagamente demonstrado, mas o pouco que Aristóteles compreendia sobre o princípio pode ser visto em suas observações sobre a formação dos dentes.

Com um espírito cientifico, porém, o assunto só foi tratado a partir de Buffon (1707-1788). Lamarck (1744-1829) foi também um dos propulsores do tema em forma mais resoluta; defendeu a partir de 1801 que todas as espécies, até mesmo o homem, descendem de outras espécies. Propôs ainda ser possível que as mudanças orgânicas e inorgânicas sejam resultado de uma lei e não de intervenção milagrosa. 

Lamarck parece ter chegado a essa conclusão sobre a mudança gradual das espécies principalmente pela dificuldade em distinguir espécies e variedades, pela gradação quase perfeita de formas em certos grupos e pela analogia das produções domésticas. A respeito dos meios de modificação, ele atribuiu algo à ação direta das condições físicas da vida, algo ao cruzamento de formas já existentes e muito ao uso e desuso, isto é, aos efeitos do hábito. A esse fator ele parece atribuir todas as belas adaptações da natureza, como o pescoço comprido da girafa para procurar alimento nos galhos das árvores. Mas ele também acreditava em uma lei de desenvolvimento progressivo e, como todas as formas de vida tendem a progredir, para explicar a existência atualmente de produções simples, ele sustenta que essas formas são geradas espontaneamente.

(A Origem das EspéciesDescrição Histórica: do progresso da opinião sobre a origem das espécies, anterior à publicação da quinta edição desta obra).

Em 1795 Geoffoy Saint Hilaire suspeitou que as espécies como as conhecemos são várias degenerações do mesmo tipo. Em 1813 o dr. W. C. Wells reconheceu claramente o princípio da seleção natural, embora o tenha aplicado somente às raças humanas. W. Herbert desde 1822 já apontava que as espécies únicas de cada gênero foram produziram todas as espécies existentes. Em 1831 Patrick Matthew publica uma obra propondo ideia similar a Darwin. Atpe em 1844 a tese Vestígios da Criação de um autor anônimo dizer:

As várias séries de seres animados, do mais simples e velho ao mais superior e recente, são, sob a providência divina, resultado primeiro de um impulso concedido às formas de vida, desenvolvendo-as, em épocas determinadas, pela geração (…) de outro impulso ligado às forças vitais, tecendo, no decorrer das gerações, a modificar estruturas orgânicas de acordo com circunstâncias externas, como alimento, a natureza do hábitat e agentes atmosféricos, sendo estas as “adaptações” do teólogo natural.

Em 1849, Owen, finalmente, diz na Natureza dos Membros: “A ideia arquetípica manifestou-se na carne sob tais modificações diversas, neste planeta, muito antes da existência dessas espécies animais que a exemplificam. A quais leis naturais ou causas secundárias a sucessão e a progressão ordeiras desses fenômenos orgânicos estão submetida, nós ainda não sabemos”.

E em 1852 M. Naudin: “Poder misterioso, indeterminado; fatalidade para uns; para outros, vontade providencial, cuja ação incessante sobre os seres vivos determina, em todas as épocas da existência do mundo, a forma, o volume e a duração de cada um, por causa de seu destino na ordem das coisas da qual faz parte. É esse poder que harmoniza cada membro com o todo, adaptando-o à função que deve desempenhar no organismo da natureza, função que é para ele uma razão de ser” (Revue Horticole, p. 102; publicado parcialmente em Nouvelles Archives du Muséum, tomo I, p. 171).

A Filosofia da Criação foi magistralmente abordada pelo rev. Baden Powell em seu livro Ensaios Sobre a Unidade dos Mundo, 1855. Nada pode ser mais surpreendente do que a maneira na qual ele indica que a introdução de novas espécies é um “fenômeno regular, não casual” ou, como diz sir John Herschel, “o natural em contraste com um processo milagroso”.

(A Origem das EspéciesDescrição Histórica: do progresso da opinião sobre a origem das espécies, anterior à publicação da quinta edição desta obra).

E assim o evolucionismo desenvolveu-se até chegar ao seu mais famoso teórico: Charles Darwin.

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Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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