Que é a matéria, de Bertrand Russell

fisicaBertrand Russell no ABC da Relatividade levanta a questão “Que é matéria?” não na qualidade de metafísico, mas referindo-se à possível veracidade da Física moderna e, mais especialmente, da teoria da relatividade.

Russell mostra haver, desde o início da especulação científica, duas concepções tradicionais de matéria, isto é, a dos atomistas, que a começar por Leucipo e Demócrito concebia a constituição da physis em pequenas partículas indivisíveis e separadas por um intervalo, ou seja, um vazio; e os que pensavam haver matéria por toda parte, sendo impossível o vácuo absoluto.

A partir da teoria da gravitação e concepção sobre a luz newtoniana comumente se passou a considerar que de fato as partes da matéria não entravam em contato umas com as outras, e sim atraiam e repeliam-se mutuamente, movendo-se em órbitas. Com o passar do tempo, a concepção da fonte luminosa de Newton foi desaprovada e se demonstrou que a luz consiste em ondas. Daí em diante o éter foi sugerido como algo que “ondula”, e, conforme se esperava na época, o movimento deste foi concebido como uma possibilidade de resposta para o que são os átomos.

Embora não desacreditasse  nos argumentos em favor do éter, a Física moderna forneceu novas provas da estrutura atômica da matéria comum. Seguindo tal lógica, balanceando os dois pontos de vista, ela passou a conceber tanto a matéria grosseira quanto o éter. Dúvidas sobre a validade dos prótons e elétrons tornaram-se praticamente inexistentes, ainda que esses não fossem como tradicionalmente conceituavam os atomistas.

Russell crê que a relatividade exige o abandono do velho conceito de “matéria”, especialmente por sua relação com os conceitos metafísicos de substância. Os metafísicos concebiam a matéria como algo que sobrevivia o tempo todo e, jamais podendo estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, ela se separaria completamente do espaço e do tempo. Mas no espaço-tempo (e não no espaço vs tempo) há os chamados “acontecimentos”, que não persistem ou se movem, como o pedaço tradicional de matéria; eles simplesmente existem durante o seu pequeno instante, e depois cessam. Um pedaço de matéria é para Russell decomposto em uma série de acontecimentos; sua série completa forma a história completa da partícula, e a partícula é sua própria história – não alguma entidade metafísica da qual os acontecimentos decorrem.

Esses acontecimentos são conexos e contínuos no espaço-tempo, todos relacionados entre si por uma lei. Eles nada são exceto a chegada, em vários lugares, das ondas luminosas emitadas por um ligeiro lampejo. Russell sugere que os ocorridos podem, em razão da existência de um átomo, ser explorados experimentalmente, pelo menos em teoria, a não ser que ocorram de certas formas escondidas. Ainda assim é absolutamente impossível, diz o filósofo, saber o que ocorre dentro do átomo, se é que algo lá ocorre. Dessa forma o átomo só pode ser conhecido por seus “efeitos”, e não por universalidade.

Tags: , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Filosofia Contemporânea, Filosofia da Ciência, Filosofia da Natureza, Física

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas