A reprodução e sua ligação com a mortalidade

repVocê já imaginou alguém associando intimamente a reprodução, seja ela assexuada ou sexuada, com a morte? Assim fez George Bataille ao conceber a essência dos seres gerados como uma mudança inquietante. Ninguém explicaria melhor essa relação que Bataille ele mesmo, por isso reproduzirei abaixo suas palavras.

Na reprodução assexuada, o ser simples que é a célula divide-se em um ponto de seu crescimento. Formam-se dois núcleos, e de um único ser resultam dois. Mas não podemos dizer que um primeiro ser deu origem a um segundo. Os dois seres novos são igualmente produtos do primeiro. O primeiro ser desapareceu. Essencialmente, ele morreu, visto que não sobrevive em nenhum dos dois seres que produziu. Ele não se decompõe à maneira dos animais sexuados que morrem, mas deixa de ser. Ele deixa de ser na medida em que era descontínuo. Somente, em um ponto da reprodução, houve descontinuidade. Há um ponto em que o um primitivo transforma-se em dois. Desde que há dois, há de novo descontinuidade de cada um dos seres. Mas a passagem implica entre os dois um instante de continuidade. O primeiro morre, mas aparece em sua morte um instante fundamental de continuidade de dois seres.

A mesma continuidade não pode aparecer na morte dos seres sexuados, cuja reprodução é, em princípio, independente da agonia e do desaparecimento. Mas a reprodução sexual, que em sua base põe em ação a divisão das células funcionais, da mesma maneira que na reprodução assexuada, faz intervir uma nova espécie de passagem da descontinuidade à continuidade. O espermatozoide e o óvulo estão no estado elementar dos seres descontínuos, mas se unem e, em conseqüência disso, uma continuidade se estabelece entre eles para formar um novo ser, a partir da morte, do desaparecimento dos seres separados. O novo ser é, ele mesmo, descontínuo, mas traz em si a passagem à continuidade, a fusão, mortal para cada um deles, dos dois seres distintos.

(G. Bataille, 1957)

Na atividade sexual os seres que se reproduzem bem como os seres reproduzidos são distintos uns dos outros de modo que entre um ser e outro há um abismo, uma descontinuidade. Este abismo é profundo, e Bataille não vê como suprimi-lo; “Somente podemos, em comum, sentir a sua vertigem. Ele nos pode fascinar. Este abismo, num sentido, é a morte, e a morte é vertiginosa, fascinante”.

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Categoria: Biofilia, Biofilosofia, Filosofia Contemporânea

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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