Cidadania hebraica e o monoteísmo ético judaico

Eu aborreço e desprezo as vossas festas; e vossas assembleias solenes não me dão prazer. Se vós me oferecerdes holocaustos e presentes, não os aceitarei; e não porei os olhos nas vítimas gordas que ofertares, em cumprimento de vossos atos. Aparta de mim o ruído dos teus cânticos; eu não ouvirei as melodias de tua lira. Antes corra o juízo como as águas e a justiça como ribeirão perene.

(Amós 5,21-24).

estreMuitas das civilizações antigas atribuíam aos seus deuses uma espécie de força e valentia, como senhores dos exércitos, eles protegiam seus seguidores ajudando-os a derrotar os inimigos no período de guerra. Assim era também o deus dos hebreus – seu povo também sucedia a atuação do deus no exército mas apresentava uma particularidade, isto é, o Deus hebraico ajudava os soldados mas exigia de seus seguidores um comportamento ético. Pouco preocupado em ser objeto da idolatria e sacrifício do povo, Ele mais se atentava aos problemas de exclusão social, pobreza, fome, solidariedade etc, era, pois, um deus preocupado com a cidadania[1].

Todavia o monoteísmo ético não surgiu no período tribal hebraico (1200 a.C. – 1010 a.C.) tampouco nos primeiros reinados de Saul, Davi e Salomão. Somente com a decadência da monarquia, ou seja, após a separação que dividiu os reinos sul de Judá e norte de Israel, tais fundamentos tiveram origem construindo assim a pré-história da cidadania judaica. Especialmente em virtude da discriminação sofrida pelos judeus ao longo da história, os valores ganharam força em práticas e rituais sendo marcados pela ideia de “povo eleito”. Os hebreus se orgulhavam de seus ideais morais, apresentavam baixa incidência de transgressores da lei, embasavam-se na teologia para construir uma ética e essa era usada para uma pretensa superioridade ética do judaísmo com relação a outras religiões e filosofias.

Levando em conta as denotações de Simon Dubnow, os judeus teriam adquirido o mais alto grau de civilização. Para o historiador uma nação pode passar por três estágios: o tribal, o político-territorial e o histórico-cultural. Só os judeus chegaram a essa última etapa, pois sobre-excederam características externas como território, Estado, independência política e, singularmente, mantiveram uma vida social própria e autônoma. Sua ética se manteve vigente e por trinta séculos superou realidades históricas e modos de produção diferentes.


[1] PINSKY, Jaime. Hebreus: os profetas sociais e o Deus da cidadania. In: Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky (organizadores). História da Cidadania. São Paulo (SP): Editora Contexto, 2003. Página 15.

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Categoria: Espiritualidade, Judaísmo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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