O Iluminismo judaico e a Haskalá na filosofia Mendelssohniana

moisesNotável tanto na filosofia do Iluminismo alemão como na do judaísmo, Moisés Mendelssohn (1729-1786) foi o primeiro filósofo judeu moderno. A princípio Mendelssohn não aspirava construir uma teoria filosófica do judaísmo, ou seja, seu principal intento não era justificar racionalmente a fé de seus antepassados como faziam muitos pensadores medievais, todavia seu pensamento acaba por levá-lo a encontrar na atividade racional uma indistinta concordância com a revelação hebraica.

Quando fala de metafísica, como em seu Fédon ou Mogenstunden, Mendelssohn sustenta a imortalidade da alma humana individual e a existência de deus sem se pautar nos dogmas hebraicos, ainda que tais teses convirjam ideologicamente com a doutrina judaica. Tendo como exemplo sua ideia de Deus nas Horas Matinais, como não dizer que o Ser Supremo mendelssohniano difere do Deus pessoal abraâmico? Em sentido mais eminente as faculdades da alma citadas por ele estão sempre predicadas ao Deus que une o supremo saber, intelecto, justiça, bondade e benevolência, e a razão criativa divina equivale à suprema perfeição moral. Nesse ponto Mendelssohn apresenta uma convicção religiosa última, pois uma vida sem Deus seria vazia e desprovida de valor. Para ele razão e revelação estão tão interligadas quanto justificaram os filósofos judeus na Idade Média, ainda que só seja possível aceitar a revelação bíblica depois de demonstrada sua verdade racional.

A fundamental diferença ente Mendelssohn e o Medievo se encontra no seguinte: em geral a filosofia medieval entende a verdade religiosa também como racional, razão e fé, uma e outra, são indistintas e concomitantes, enquanto na filosofia moderna mendelssohniana somente a razão pressupõe a verdade racional e a revelação precisa encontrar senão nela a sua verdadeira base. Desse modo, contrário às crenças medievais de que o propósito da revelação é dar ao público as doutrinas filosóficas essenciais, as verdades racionais são para Mendelssohn intransmissíveis à humanidade por meio de uma divina revelação. A razão é a bem-aventurança que a religião de Deus dá ao ser-humano.

haskaçaPor tal motivo sua filosofia defende ser a razão universal idêntica à fé do judaísmo, fator esse que intentou Mendelssohn a criar a Haskalá, movimento de grande influência no renascimento da língua hebraica. Com início no século XVIII, a Haskalá representa o iluminismo judaico: os judeus não mais precisavam morar em guetos e podiam desempenhar qualquer trabalho. Não seria esse, diz Mendelssohn, o momento de secularizar a língua hebraica? Sua proposta era de que os judeus da Europa tivessem conhecimento da língua alemã e também do hebraico, pois esse último deveria substituir o ídiche (considerado uma língua sem gramática e que remetia os judeus a uma época de perseguições e sofrimentos) [1].

A Haskalá abrangia outros fatores do iluminismo judaico mendelssohniano, a citar: a crença nos direitos naturais, a crítica ao absolutismo e aos privilégios da nobreza e do clero, além da defesa da liberdade política e econômica e da igualdade de todos perante a lei. De acordo com Mendelssohn, “quando a iluminação e a cultura caminham no mesmo passo, elas são juntas o melhor meio de defesa contra a corrupção. Arruinar uma delas é entrar em conflito direto com a outra. Portanto, a educação de uma nação, que, considerando a definição anterior das palavras, se compõe de cultura e iluminação, estará menos sujeita à corrupção” [2]. Além do mais quando fala da sociedade civil e Estado, do homem e cidadão, seu pensamento não se aparta da ontologia.

As luzes do homem enquanto homem podem entrar em conflito com as luzes do cidadão. Algumas verdades úteis ao homem enquanto homem podem, às vezes, nutri-lo enquanto cidadão […] Infeliz o Estado que deva reconhecer que, em seu seio, o destino essencial do homem não está em harmonia com o destino essencial do cidadão.

(Uber die Frage: Was heisst Aufklarung)

Depreendemos por fim ser importante compreender que Mendelssohn não separa a doutrina da vida e a busca da felicidade da verdade racional, pois para ele a razão impulsiona o agir. A certeza imediata da razão natural do homem não é o traço distintivo da metafísica, mas sim da consciência humana moral e religiosa universal; o racionalismo, que especifica o lugar lógico da religião no entendimento teórico, destroça a dependência da religião no tocante à sutiliza escolástica e encara a religião como legado de toda a humanidade [3].


[1] O Renascimento da Língua Hebraica no Ulysses de James Joyce de Pérola Wajnsztejn. Revista Vértices No. 11.

[2] Os méritos da Haskalá – Moacyr Scliar entrevista Arnaldo Niskier. A entrevista com Arnaldo Niskier foi realizada por Moacyr Scliar, por e-mail, no mês de agosto de 2010, com a colaboração dos editores da WebMosaica.

[3] Abhandlung uber die Evidenz de Mendelssohn. Parte 3, II.

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Categoria: Filosofia da Religião, Filosofia Moderna, Filosofia Social e Política, História da Filosofia, Judaísmo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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