A alimentação como um condutor ético

Pensando acerca da ética em seu sentido mais profundo, ou seja, atribuindo seu valor não num compêndio de teorias, mas no exercício da virtude, pensei na boa alimentação enquanto um condutor ético. Afinal, assim como disse Edgar Morin em 1999, nossas atividades biológicas mais elementares – incluindo aqui o ato de comer – estão estreitamente ligadas a normas, símbolos, mitos e tudo aquilo que há de mais especificamente cultural em nós. Nossa cultura e nossos hábitos influenciam aquilo que movimenta nossos corpos, nossos órgãos e, portanto, nosso cérebro e pensamento. Por conseguinte, a alimentação além de seu significado nutricional possui significação cultural, social, religiosa e psicológica.

A beleza do prato japonês.

A beleza do prato japonês.

Alguns estudiosos, como é o caso de Roberto da Matta e Claude Fischler, encontram uma tênue diferença entre comida e alimento, a citar: toda substância nutritiva é alimento, mas nem todo o alimento é comida.  “Comida, portanto, é o alimento transformado pela cultura. Isso nos leva a uma relação entre a antropologia e a alimentação onde muitas vezes aquilo que se come em um lugar do mundo não é comido em outro. Exemplo disso é que alguns dos povos orientais cozinham tradicionalmente de modo semelhante às práticas culinárias religiosas do budismo, do taoismo e do hinduísmo, que fazem muitas oferendas comestíveis e, enquanto isso, especificamente os japoneses consideram que o espírito do ser humano também deve ser alimentado pela beleza do prato. Assim a comida é sempre um ato com significados, fundamental ao senso de identidade cultural de sacralidade, técnica, disponibilidade de recursos, organização da produção e distribuição do alimento.

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O fast-food como característica do capitalismo.

O modo como comemos está inclusive ligado ao sistema econômico sob o qual vivemos. Não é sem razão que estudiosos apontam o fast-food (em português, comida rápida) como característica do capitalismo. Esse mercado alimentício oferece abundante comida de baixo custo num pequeno intervalo de tempo, tudo isso com abundancia de gordura e açúcar. O efeito de tal momento histórico interfere também no modo como se consome o alimento, por exemplo, quase não mais comemos junto à família, hábito que acarreta vários fatores negativos como a não-socialização da refeição, reflexo da solidão tão própria à nossa época. Esse individualismo moderno e capitalista vai além da própria família e interfere em todo o mundo: enquanto uns celebram grandes (e por vezes solitários) banquetes, outros quase nada têm o que comer; surge aí o problema da fome, uma das piores angústias do ser humano.

No entanto existem indivíduos realmente solidários aos problemas sociais da alimentação não só no que diz respeito à fome, mas também em outros aspectos éticos e filosóficos do alimento, como é o caso da crescente onda de vegetarianos e veganos surgindo globalmente. Essa opção alimentar, seja ela necessária ou secundária (isso já acarreta uma outra discussão absolutamente razoável e polêmica), reflete um conjunto de pessoas preocupadas com um mundo melhor, não só em questões dos homens, mas também dos animais e do meio ambiente (pois a criação de bovinos, senão o principal, é um dos principais fatores da destruição da Floresta Amazônica). Por conseguinte a dieta vegetariana/vegana em geral é contra a matança e exploração animal acreditando ser ela injustificada para seu consumo. Além disso seus adeptos costumam ter uma alimentação mais variada e visam proteger a vida, os animais, a saúde e o ecossistema.

Vegetais, alimentos comuns entre os vegetarianos, veganos e misticos.

Vegetais, alimentos comuns entre os vegetarianos, veganos e misticos.

Outros indivíduos associam a alimentação alternativa com a mística, acreditando que ambas refletem a saúde física, emocional, mental, social e espiritual do ser humano. Essas tradições por vezes admitem que os vegetais têm a capacidade de revitalizar a energia humana junto de outras fontes energéticas: o sol, o ar, a terra e a água. Assim suas práticas não vêem de bom grado o envenenamento da terra pelos agrotóxicos bem como a poluição do ar e da água, acreditando que a vida está em perigo porque as fontes energéticas estão em perigo. O ser humano, criado para administrar a vida no Planeta, deve preocupar-se com a quantidade e qualidade do alimento. Já existem projetos ao redor de todo o mundo que propõem à produção natural de verduras, frutas e cereais.  Eles vêem a alimentação também como uma desintoxicação e purificação do corpo e da alma. Alguns desses misticos e algumas outras religiões vêem o jejum como uma prática de desintoxicação ainda mais profunda quando preparada pela monodieta. Enquanto o jejum evita todos os tipos de alimentos sólidos, a monodieta consiste em comer apenas um alimento a fim de aliviar e queimar os excesso de toxinas do sistema digestivo. O jejum é geralmente realizado por razões religiosas, como entre alguns judeus, cristãos, islãs, budistas e yogues que deixam de focar na alimentação do corpo voltando-se ao alimento do espírito e disciplina interior.

O fisioculturismo, prática muito disseminada nos dias de hoje, também trabalha uma disciplina alimentar e estilo de vida que reflete dedicação, persistência e foco. O fisioculturista não é somente aquele que faz inúmeros exercícios físicos, ele também segue regras rigidamente. Sua dieta costuma ser separada nas fases off season (em português, fora de temporada) e pre-contest (pré-concurso). Enquanto na primeira é estimulada a ingestão de muito carboidrato e o atleta deve se alimentar de duas em duas horas, na segunda, de forma bem mais regrada, ele passa a ingerir muita proteína e diminuir a quantidade de carboidrato alimentando-se praticamente de clara de ovo, peito de frango, batata doce, legumes e folhas. Hoje em dia há uma tendência forte para o culto do corpo não só entre os fisioculturistas, mas entre vários corredores, esportistas e frequentadores de academia.

Adequação, qualidade, quantidade, harmonia e variedade na pirâmide alimentar.

Adequação, qualidade, quantidade, harmonia e variedade na pirâmide alimentar.

Os nutricionistas defendem que a alimentação constitui uma poderosa forma de cuidar da saúde corporal e mental, pois quando se alimenta mal o corpo sofre e consequentemente fica cansado, irritado, desconcentrado, sonolento e propício a doenças degenerativas como diabetes, demência e Alzheimer. Os psicólogos que trabalham com a perspectiva nutricional tendem a concordar com eles, alegando que a boa alimentação ajuda a proteger contra casos como a depressão e ansiedade. Segundo eles adolescentes que não se alimentam bem costumam apresentar baixo rendimento escolar, diminuição da função cognitiva e da capacidade de concentração e ainda distúrbios de comportamento alimentar. O cérebro deve perceber que o organismo tem energia armazenada para diminuir o metabolismo no sentido de conservar energia. Na prática clínica os ataques de ansiedade sistemáticos costumam acontecer entre pessoas que ao acordar de manhã não se alimentam e somente depois de almoçar sentem um equilíbrio psíquico melhor. Por conseguinte uma boa alimentação traz vantagens a nível psicológico e físico, regula o humor, diminui o stress, a ansiedade, melhora sensivelmente a cognição, a capacidade de concentração, a aprendizagem, a hiperatividade etc.

Se a ética é responsável pela investigação dos princípios que motivam, disciplinam e orientam o comportamento humano, a alimentação, entre suas mais distintas construções de identidades sociais, regionais e espirituais, é um condutor para a disciplina ética em seus mais variados aspectos, isto é, do desenvolvimento da cultura, saúde, racionalidade e emoção.

Categoria: Cotidiano, Espiritualidade, Ética e Cidadania, Existência, Nutrição, Saúde

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (8)

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  1. Gabriel Borges disse:

    Recentemete passei 3 semanas numa alimentação 100% crua, baseada em frutas e vegetais. Comia de dez 10 a 20 bananas por dia. Senti um contato muito mais próximo com o corpo. Percebi que nutrição não é só os alimentos sólidos, mas também os pensamentos que você tem, o sol, o ar que se respira. Estamos o tempo todo sendo nutridos, conscientemente ou não.

    • Gabriel,

      Muito legal essa sua experiência (quase uma monodieta de banana). Eu ainda sou muito ligada a alimentação tradicional, mas estou caminhando aos poucos numa melhoria.

      Por ora cortei o açúcar do meu suco em casa e na rua, e estou tentando deixar de comer muito doce. Aqui em casa pedi para que não mais se comprasse biscoitos, chocolates, leite condensado ou refrigerantes.

      Mas sei que o principal não é não comer por não haver em casa, e sim comer devidamente mesmo na presença da comida “indevida” (porque a ética exige temperança e autocontrole). Porém os passos são paulatinos, ou não?

  2. Bruno Barreto Cordeiro Silva disse:

    Muito importante essa noção do que a alimentação representa para as sociedades.A alimentação é de importância psíquica porque ela está diretamente relacionada ao instinto, o que nos excita ,para o nosso cérebro, também alimenta. Os centros psicobiofísicos no cérebro são condicionados pelos polipeptídios que ativam atividades como sono, apetite sexual e regulação da fome.Redundante depois de explanar isso dizer o que essas nos influenciam e influenciam em si a sociedades. Quando falasses Natalia das diferentes culturas lembrei dos estudos do psicologo Paul Ekman, em seus estudos sobre expressões emocionais e suas relações e implicações sociais no mundo todo, em que ele mostra que em diferentes culturas a expressão apesar de ser a mesma a intensidade muda drasticamente de uma pra outra. Outros estudos que são feitos a décadas na área de Arqueologia(Ciências da Natureza ou da Terra) mostram através de análises ósseas, análises químicas de diversos objetos utilizados para fabricação e armazenamento de alimentos, além de análises de dejetos(o “lixo”) de culturas antigas mostram como o crescimento de uma civilização, seus ritos religiosos, e suas inovações tecnológicas e até sua relação com culturas diferentes dependem diretamente de sua cultura “alimentar”, não somente dela mas é um dos principais fatores para crescimento, manutenção e até surgimento de uma cultura, visto que as necessidades naturais de um ser vivo, o homem como apenas um deles(visto que a Arqueologia também estuda os alimentos consumidos por animais não-humanos como a Paleontologia), delimitam as inovações tecnólogas num determinado tempo..

    • Muito bacana Bruno a sua colocação acerca do crescimento de uma civilização relacionado com a alimentação. Muitos estudos falam do Crescimento Demográfico X Produção Alimentar, acredito que aquelas com maior destaque são a malthusiana, a neomalthusiana e a reformista.

      Agora pensemos: Qual será o desafio alimentar das gerações subsequentes?

  3. Gabriel disse:

    Com certeza, essas pequenas mudanças devem fazer muita diferença. Cortar glicose em excesso, o sódio… E a gente tem um recurso pouco usado que é a confiança no corpo, aprender a escutar o próprio corpo que tem uma inteligência natural muito grande!

    • Há quem diga que o corpo conhece a finalidade que lhe é própria e devemos estar em conformidade com ele, pois senão ele, quem saberá quando se deve beber água, comer, dormir, etc? É como se o corpo intuitivamente conhecesse todas as diretrizes que deve tomar na esfera material.

  4. Bruno Barreto Cordeiro Silva disse:

    Você faz perguntas difíceis Natalia, mas talvez as gerações subsequentes tenham que avançar em mudanças na própria agroindústria, que lucra com modificações de alimentos importantes de nossas piramides nutricionais que são prejudiciais demais a saúde(um exemplo foi um estudo que em 2012 mostrou que o brasileiro,cada um, consome em média 5,2 litros de agrotóxicos por ano através da injesta de alimento orgânico o que fez com que o número de casos de câncer de estômago no país elevasse até o nível em que os EUA enfrenta).E Acho que o corpo conhece sim instintivamente.Nas atuais neurociências já existe teorias que se adequam a uma subdivisão da consciência que é responsável por atividades que não temos “condições” ainda de controlar, esse estagio de consciência esta acima da consciência de tempo presente e algumas poucas pessoas conseguem ter controle sobre ela de forma parcial, mas é preciso muito treino para tal, e mesmo assim algumas atividades não podemos ter controle, como o sono por exemplo:o sistema nervoso autônomo “desliga-nos” quando estamos com sobrecarga no sistema nervoso devido a cansaço físico(estado de letargia), e em menos de um segundo o individuo literalmente “cai de sono”, e estudos feitos na época do nazismo e subsequentes mostram que esse controle é importante pois sem ele o individuo pode morrer em pouco mais de uma semana sem dormir, pois o nosso cérebro sobrecarrega-se com o tempo e para continuar gastando energia ele vai acelerar o metabolismo do restante do corpo para não parar(e o individuo não falecer por morte cerebral), resultado: o corpo definha e envelhece anos em apenas horas de funcionamento, além das taxas elevadas de substancias toxicas no sangue devido ao efeito, ou seja pra manter a mente o corpo morre,porem precisamos do coração pra viver também,e com essa vou dormir..

  5. Bruno Barreto Cordeiro Silva disse:

    As implicações sociais no mundo moderno que a alimentação tem são gigantescas, devido a um mundo “globalizado” economicamente e nada globalizado em relação aos direitos e necessidades básicas humanas, em que eu posso comprar “Coca-Cola” no continente africano, enquanto ao virar a esquina me deparo com um urubu que espera uma criança cair de fome para poder matar sua própria fome,é tem desafio demais até pra nossa e pras próximas gerações..

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