A importância do método dialético em Abelardo

É talvez difícil […] fazer afirmações positivas a não ser que os examinemos constantemente. Mas não será inútil duvidar de cada um […]. De fato, da dúvida chega-se à interrogação e a partir desta captamos a verdade, segundo o que a própria Verdade diz: “Procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-á” [MT. 7,7] (ABELARDO, 1994, p. 178) / E preferi o arsenal das argumentações dialéticas a todas as demonstrações da filosofia, troquei por estas as outras e preferi os combates das disputas aos troféus das guerras. (1996, p. 191).

abelardPedro Abelardo (1079-1142) foi um dos primeiros escolásticos a considerar a dialética como algo necessário para se justificar racionalmente a fé uma vez que há “uma distinção entre o método dialético e a mera habilidade discursiva”. Por conseguinte, segundo ele, cultivar a dialética corresponde a cultivar a própria razão que, quando inserida nesse método, torna-se uma razão crítica; há uma distinção entre o intelligere e o comprehendere, e enquanto a Dialética serve ao intelligere, ou seja, é obra da razão e da fé conjuntamente, o comprehendere é fruto exclusivo da graça de Deus [1].

Essa compreensão marca enormemente a escolástica a ponto de alguns se referirem ao século XII como o “século de Abelardo e da dialética” (Libera, 2004, p. 307) em razão de Abelardo, pelo método dialético, procurar defender o espaço da filosofia sem desafiar a teologia. Ele conseguiu discutir sobremaneira o problema dos universais em termos de pura lógica, mostrando por seu próprio modo de filosofar que existem problemas importantes cuja abordagem não precisa da teologia [2], e, quando teológica, versa também apoiada na dialética.

Abelardo partia da palavra. Mas não, como nos mosteiros, deixando-se levar ao devaneio, as associações fortuitas de vocábulos ou de imagens. E sim pelos rigores do raciocínio. (Duby, 1984, p.113).

O filósofo salientava o papel da disputa, uma vez que quem a vence é capaz de mostrar ao adversário as falhas de suas próprias proposições. Pela técnica da redução ao absurdo, Abelardo buscava retirar as contradições lógicas das hipóteses adversas que desse modo se evidenciavam falsas. Sua redução ao absurdo intentava em persuadir e unir a sutileza da dialética com a eficácia da retórica, podendo assim destruir a ilusão sofistica pela própria hipótese dos mesmos, pois “ninguém pode ser refutado senão a partir do que concede, nem convencido senão pelo que admite” (1969b, p . 139). Como a autoridade dos sofistas, acreditava Abelardo, deviam ao fato de que “quase todos os homens são psíquicos e poucos são espirituais”, os sofistas deviam ser atingidos por raciocínios e meios humanos, e por isso a dialética é tão louvável quanto uma “espada bem amolada semelhante aquela de que se serve o tirano para destruir e o príncipe para proteger” (1978, p.50).

A importância filosófica de Abelardo destaca-se também no seguinte ponto: a melhor e mais verdadeira autoridade está acima de um mero assentimento, pois ela deve ser uma autoridade justificada. Tal assentimento marca uma pedagogia própria do contexto medieval, tendo sido posteriormente retomada e aprofundada por São Tomás de Aquino. Os ouvintes eram colocados diante de questões com seus prós e contras, e, “baseando-se no princípio da verdade, mediante uma discussão dialética de argumentos aparentemente contraditórios, ou seja, perante um mesmo problema, confrontavam-se soluções opostas, para posteriormente discuti-las e resolvê-las, refutando opiniões adversas” [3].

Tendo isso em vista nota-se que a importância do método dialético de Abelardo encontra-se não só para o fundamento de sua própria filosofia como também da atividade filosófica de sua época. Sua dialética foi um esforço bem sucedido a distinguir a lógica da metafísica, dando-lhe a autonomia necessária para enriquecer a filosofia do século XIII e suas subsequentes influências.
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[1] Sobre a Filosofia de Pedro Abelardo. Augusta Cristina de Souza Novaes. Disponível em: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/41/artigo158680-1.asp. Acesso: 20 de outubro de 2015.

[2] KONDER, Leandro. O que é dialética. 25ª edição. Editora brasiliense, 1981.

[3] O PENSAMENTO FILOSÓFICO MEDIEVAL DE PEDRO ABELARDO: EDUCAÇÃO E DOCÊNCIA. RODRÍGUEZ, Margarita Victoria. Universidade Católica Dom Bosco. Disponível em: http://hottopos.com/notand18/pensfilabel.pdf. Acesso: 21 de outubro de 2015.

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Categoria: Filosofia da Linguagem, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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