As inquietações humanas representadas na arte de Bosch

A arte sempre foi um meio para a conscientização das idéias e dos interesses mais nobres do espírito. Foi nas obras artísticas que os povos depuseram as concepções mais altas, onde as exprimiram e as conscientizaram, disse Hegel.

A filosofia hegeliana mostra a arte como uma forma de linguagem humana que nos propicia a decifrar os segredos dos povos antecedentes, incluindo a sabedoria e a religião destes [1]. Presentemente pretendemos apresentar Hieronymus Bosch (1450—1516), artista holandês reconhecido por retratar um embate entre a satisfação da vida terrena e a busca pelo bem estar eterno, além da representação dos medos, angústias e desejos do final da Idade Média [2]. De suas obras, costuma-se dizer que tinham um caráter crítico produzindo inquietação entre os que tentam decifrá-las, mas ao mesmo tempo despertando-os à reflexão; com um forte caráter narrativo, as pinturas de Bosch remetem a um imaginário povoado por figuras encenadas, apresentam narrativas visuais e suscita ao público a invenção de histórias privadas [3].

Bosch de forma alguma é um representante da pujança humanista e da vontade de dominação material e espiritual do mundo, características do Renascimento. Representa, ao contrário, o limite de uma percepção da realidade em vias de extinção, uma das expressões mais altas e alucinantes do mundo medieval. Ou seja, embora vivesse na aurora do Renascimento, Bosch é um artista do Medieval ou do Gótico recente (BOSCH, 1977, p. 7).

Os Sete Pecados Mortais, 1480, Museo del Prado, Madrid.

Os Sete Pecados Mortais, 1480, Museo del Prado, Madrid.

Por exemplo, se investigarmos sua obra Os Sete Pecados Mortais veremos a expressão de uma temática muito comum ao Medievo, isto é, a recompensa que seria a vida eterna no Reino dos Céus para aqueles que conseguissem ter uma vida terrena condizente com os preceitos de Deus, e como obstáculos estariam os pecados a serem vencidos pelos homens [4]. Segundo Meire A. L. Nunes e Terezinha Oliveira as obras de Bosch “vem a atender essa necessidade de conscientização, para que os atos do homem não sejam excedentes ao ponto de transgredirem o bem social” e elas nos levam “a uma outra questão característica desse período de transição entre a Idade Media e o Renascimento: o homem passa ser responsável pelos seus atos. Deus continua a ser o centro, mas o homem, pela sua razão, é senhor de seu destino, esse apontamento pode ser verificado ao observarmos o tampo de mesa de Bosch que é composta por um círculo central, os sete pecados estão distribuídos em volta desse circulo formando outro maior. A disposição dos pecados em círculo não é inédita, o que de fato é interessante, de acordo com Bosing (2006), é o fato de Bosch ter transformado essa disposição no olho de Deus que tudo vê, pois no centro do circulo central está Jesus mostrando suas chagas e a sua volta está escrito Cuidado, cuidado, o Senhor vê“.

São João Batista no Deserto, 1489, Museo Lázaro Galdiano, Madrid.

São João Batista no Deserto, 1489, Museo Lázaro Galdiano, Madrid.

Já na pintura São João Batista no deserto temos como protagonista João Batista quando supostamente foi condenado à morte após denunciar um casamento incestuoso. Segundo intérpretes, a ovelha retratada no canto direito do quadro representa o sacrifício do santo quando decapitado ou mesmo é uma referência à Jesus Cristo, descrito na bíblia como o “cordeiro de Deus”. A pintura forma um par com a obra São João Evangelista em Patmos, percebida na década de 1940 como uma concepção às asas de um retábulo. Desde então, foi sugerido que o retábulo em questão era uma obra de arte conhecida por ter sido feita para a Catedral de São João’s-Hertogenbosch.

Cristo Carregando a Cruz, após 1500, Museu de Belas Artes de Ghent, Bélgica.

Cristo Carregando a Cruz, após 1500, Museu de Belas Artes de Ghent, Bélgica.

A conotação religiosa de suas obras continua em Cristo Carrega a Cruz, onde Bosch mostra Cristo, apesar de estar envolto de expressões humanas e semblantes demoníacos, mantendo no rosto a serenidade enquanto carrega a cruz. Alguns interpretes dizem que sua expressão traduz o momento em que diz: “Perdoai-os Senhor, pois eles não sabem o que fazem”. No canto direito superior do quadro há a representação de um ladrão aparentemente pedindo perdão por seus atos como forma de arrependimento, seus olhos e feições são de angústia e palidez. Ao lado desse homem um possível sacerdote e um cidadão parecem mostrar desprezo pelo mesmo. Bosch, portanto, além do próprio cristo e indivíduos pecaminosos, retrata maus homens em diversos aspectos e situações.

 1482, Akademie der Bildende Künste, Viena, Áustria

Tríptico O Juízo Final, 1482, Akademie der Bildende Künste, Viena, Áustria

Sua preocupação com os horrores humanos continua a ser demonstrada no Tríptico O Juízo Final, mas dessa vez é retratada principalmente para aqueles que não tivessem a alma salva. Quando aberta, a obra tem como centro o Juízo Final e os castigos sofridos pelos pecadores, à esquerda, o Pecado Original, e à direita, o Inferno. Quando fechada, lados exteriores das abas da pintura estão as figuras de Santiago de Compostela e de São Bravo, ambas pintadas em tons de cinza, branco e preto.

Os quatro painéis de Visões do Além.

Os quatro painéis de Visões do Além.

A temática continua nos quatro painéis das Visões do Além, que a esquerda retratam O Paraíso Terrestre e Ascensão ao Empíreo e a direita A Queda dos Condenados e O Inferno. O conjunto das obras excepcionalmente revelam a criatividade de Bosch que, mesmo tratando de um tema anteriormente trabalhado por outros artistas, aparece com originalidade tal que, ainda que se especule como uma de suas fontes de inspiração  o texto O Orçamento do Casamento Espiritual do místico Jan van Ruysbroeck, sua singularidade é incontestável.

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As Tentações de Santo Antão, 1495-1500, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

A inspiração do quadro As tentações de Santo Antônio é mais conhecida: “baseia-se na lenda de Santo Antônio. Depois de dar aos pobres o dinheiro que arrecada com a venda de seus bens, o santo se retira para uma fortaleza egípcia em ruínas no deserto a fim de meditar sobre as palavras do Cristo e levar uma existência piedosa. Logo, porém, os demônios – os pecados da vida pregressa – surgem para tentá-lo com visões lascivas ou apavorantes, pondo à prova a sua fé indômita e, no final, vencedora (COLEÇÃO…, 1973, p. 159).  A obra demonstra o desespero e angústia das tentações do santo, que, se pensarmos com um intuito moralizante, traz ao espectador uma realidade infernal e assustadora influenciando-o a fugir do pecado.

morte

A Morte e o Avarento, 1492 ou depois, National Gallery of Art, Washington DC.

Essa perspectiva de ser “um espelho onde vemos a tolice humana” (BOSING, 1991, p. 56) continua na obra A morte e o Avarento. A blogueira LuDiasBH (http://virusdaarte.net/bosch-a-morte-do-avarento/) a descreve como “um homem moribundo, à beira da morte, que ainda vacila entre a escolha do Paraíso e a do Inferno. Seu quarto é um cubículo alto e estreito, onde se encontram outras personagens: seu anjo da guarda, que o apoia pelo ombro, tentando demover sua atenção para o crucifixo, que se encontra na janela, e do qual jorra um facho de luz; o diabo, que aparece debaixo da cortina, tentando ganhar a sua atenção, oferecendo-lhe um saco com ouro; a Morte, que aparece na porta entreaberta, armada de uma seta, direcionada para o avaro, aguardando o desfecho dos acontecimentos; um demônio vestido de preto, em primeiro plano, com suas asas claras, segurando os trajes ricos do avaro. Mais abaixo estão suas armas de cavaleiro: um capacete e uma espada. O que indica que ele era rico, e agora precisa deixar tudo isso para trás;  também podem ser atributos relativos à experiência da morte, como pensam alguns estudiosos;  é possível ver um diabo, através do tampo aberto da arca, aos pés da cama, abrindo um saco com moedas, no qual um velho deposita moedas de ouro; dois diabos, em forma de ratazanas, estão debaixo da mesa, sendo que um deles traz nas mãos um objeto; um diabo observa a cena atentamente, sobre a estrutura que comporta a cortina, acima do doente”.

navio dos

O Nau dos Loucos, 1490-1500, Museu do Louvre, Paris.

Nau dos Loucos contudo parece apresentar um contexto diferente. A obra traz como figuras centrais duas freiras e um frade divertindo-se com camponeses num estranho barco que por mastro tem uma arvore enquanto um galho serve de leme; à direita está um louco, sentado no cordame. Enquanto para Foucault a árvore se remete à árvore do saber (da imortalidade e do pecado) que “outrora plantada no coração do paraíso terrestre, foi arrancada e constitui agora o mastro do navio dos loucos” (FOUCAULT, 2008, p.21), para Bosing o quadro é uma alusão às festas e rituais de primavera, durante os quais camponeses e clérigos “se juntavam para se divertirem e se dedicarem a devassidões” (BOSING, 2010, p.30). É nessa pintura que “Bosch expõe o homem em sua inteireza, traz à luz a sua natureza secreta, sua loucura estéril. Com seus passageiros imersos no pecado e distantes das leis de Deus, a Nau dos Loucos se dirige ao Juízo final. Tributário de uma visão religiosa e moralizadora, o pintor propõe, com seus quadros, a associação entre loucura, fraquezas e ilusões humanas” [5].

A Extracção da Pedra da Loucura,

A Extracção da Pedra da Loucura, 1494, Museu do Prado.

O tema do delírio segue na Extração da Pedra da Loucura, que tem por influência uma espécie de operação cirúrgica que se realizava no Medievo que segundo testemunhos consistia na extirpação de uma pedra causadora da loucura do homem; loucos, acreditavam tais homens, eram aqueles que tinham uma pedra na cabeça. Observa-se no quadro “um estranho doutor com um funil na cabeça, símbolo da estupidez humana. A pessoa supostamente desequilibrada, é um homem de idade que olha para nós como que clamando por ajuda. De sua cabeça não é extraída uma pedra, mas sim, uma tulipa. Percebe o saco de dinheiro na cadeira? Está atravessado por um punhal, símbolo absoluto da malévola fraude de tal operação. Também estão presentes na obra uma freira e um frade. A primeira traz um livro fechado na cabeça, o qual nos faz intuir essa sutil metáfora tão bem expressada por Bosch, para a ignorância e a superstição que, em lugar de salvar almas, mata pessoas. Mas, atenção, há quem veja nesse livro não uma obra sagrada, mas sim um manual de sortilégios. E o que traz o frade em suas mãos? Nada mais e nada menos que um bom cântaro de vinho. Prestando à atenção, se nota também que o quadro em si está disposto em forma circular, no qual, nos faz lembrar uma espécie de espelho. Reflexo de nossa própria ignorância? Certamente. Como vemos, o talento do pintor holandês não tinha limites” [6]. Ironicamente a escrita que aparece no quadro, traduzindo-a pro português, diz “Mestre, extrai-me a pedra, meu nome é Lubber Das“. Lubber Das é a representação da estupidez a partir do personagem satírico a quem se refere um literato holandês.

O Jardim das Delícias Terrenas, 1504, Museu do Prado, Madrid.

O Jardim das Delícias Terrenas, 1504, Museu do Prado, Madrid.

O Jardim das Delicias Terrenas, por sua vez, expressa o prazer dos sentidos e, segundo Narra Cláudia Maria Ribeiro (Obras de arte que navegam pelo imaginário das águas), são muitas as figuras que nele representam jogos de amor e do prazer carnal, incluindo figuras metafóricas e simbólicas tais como os morangos que são insistentemente evidenciados. Esse quadro agrega elementos da iconografia tradicional dos jardins de amor, como a fonte e as casas de prazer dominando o lago que estão ao fundo em águas onde, exceto no plano do meio, homens e mulheres tomam banho em conjunto. C. M. R. diz: “Para os moralistas medievais, que nunca se mostraram muito cavalheirescos neste aspecto [na atração sexual], era sempre a mulher que seduzia o homem para o pecado e para a concupiscência, seguindo o exemplo de Eva. Este poder maligno da mulher foi muitas vezes representado, mostrando uma mulher no centro de admiradores masculinos. Mas nos quadros de Bosch, os homens em vez de dançarem, montam a cavalo. Os animais costumam simbolizar as apetências animalescas do homem e as representações físicas do pecado foram muitas vezes mostradas em cima dos variados tipos de animais. No fundo, tanto naquela altura, como agora, montar um animal servia ocasionalmente como metáfora para o ato sexual”.

Certamente estamos diante da genialidade de um artista, ou não?


[1] NUNES e OLIVEIRA, Educação e a Arte: Uma reflexão da arte de Bosch de acordo com o pensamento de Hegel. VII Jornada de Estudos Antigos e Medievais VI Ciclo de Estudos Antigos e Medievais do PR e SC.

[2] Os vícios humanos representados na arte de Bosch, 2009. Terezinha Oliveira, Meire Aparecida Lóde Nunes. Disponível em: http://eduem.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/viewArticle/3449.

[3] O Storytelling como Processo Pedagógico de Apropriação Artístico-Cultural: Viagem na Obra de Hieronymus Bosch Mediatizada por uma Superfície Tangível (The Storytelling as a Process of Artistic and Cultural Appropriation: Travel in the Work of Hieronymus Bosch Mediated by a Tangible Surface). RAQUEL PINTO; LIA OLIVEIRA & NELSON ZAGALO. Z. Pinto-Coelho & J. Fidalgo (eds.) (2012) Sobre Comunicação e Cultura: I Jornadas de Doutorandos em Ciências da Comunicação e Estudos Culturais Universidade do Minho: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade ISBN 978-989-8600-05-9.

[4] II Encontro Nacional de Estudos da Imagem, 12, 13 e 14 de maio de 2009, Londrina-PR, O PECADO: UM REGISTRO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NAS IMAGENS DE BOSCH E TESTARD.

[5] III Encontro Nacional de Estudos da Imagem 03 a 06 de maio de 2011 – Londrina – PR. TODOS A BORDO! OS PASSAGEIROS DA “NAVE DOS LOUCOS” DE BOSCH. Kamilla Dantas Matias.

[6] 2014 CURIONAUTAS. O Curioso Enigma da Pedra da Loucura.

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Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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