Carta n. 4

Recife, 03 de novembro de 2015

Caro amigo,

Imagino o quanto sabes de minha prisão em busca do mundo invisível negando ao meu ser a frontal participação da realidade das tantas coisas que aqui vemos e vivenciamos. Ao acordar nesta manhã pensei na discussão que tivemos acerca de minha participação política no país ou, utilizando-me de tuas palavras, da ausência dela. Há tanto voto em branco, deixo de discutir acerca de fatos isolados e manifestações populares. Deixe-me, porém, que justifique meus posicionamentos.

Não imagino como um homem possa encontrar a boa medida política sem sequer ter respondido suas indagações existenciais particulares bem como sem ter-se desenvolvido espiritualmente com retidão. Encontro-me com pouca idade para ser apta a participar ativamente das decisões sobre os bens coletivos, e, pelas consequências disso, por ora faço-me ausente de tais pontos. Escuto, pois, os Mestres: antes é preciso ser humano para participar das atividades humanas – caso contrário viveremos o pandemônio dos salvadores insalvos.

Apesar disso entendo o que me disseste sábado, ou seja, que não posso almejar ser como seriam as entidades superiores se estas fossem passíveis de existência – dado que não acreditas nelas (ou no único Ser supremo). Nesse ponto estou em concordância contigo; não só tenho uma mente que pensa, mas também um corpo que age. Por isso entendo o significado das carregadas lições da conversa de nossos avós: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21). Meu amigo, seria uma incoerência tamanha de minha parte se não buscasse o que busco através de minha condição humana.

Se errei outrora, seja por pensamentos equivocados seja por ações falhas, perdoai meus erros. Por anos tive dificuldade em compreender aquilo que é do mundo dos homens, e em certa medida neguei minha natureza de ser humano – embora saiba muito bem que paradoxalmente tal feito estava em conformidade com ela; em primeiro lugar porque um homem nunca pode fugir de ser homem, em segundo porque tais atos vinham de uma mente e um corpo inclinados à [busca da] felicidade.

Aquele que busca encontrará, creio eu; por isso busca, e assim sinto que tu segues do mesmo modo. Conversávamos sobre isso com as palavras de Sócrates, te lembras? Enfim entendi o que ele costumava falar: para conquistar a felicidade é preciso de justiça, e isso implica em fazer aquilo que se acredita. Inspirada em seu pensamento, hoje sei o que é preferir a morte a corromper seu compromisso com a verdade – e, no meu caso, preferir a morte de ideais desfraldados a empestear meu futuro com pensamentos da primeira juventude. Assim como Sócrates, não concordo com a moral passageira da sociedade; mais vale um justo choque entre o nós e o eu, um diálogo consigo mesmo acerca das coisas justas, que uma moral mutável e por vezes injustificada. Nada sabemos além da sabedoria humana, mas a voz interior, o que Sócrates chamava de “daímon” e eu inspirada na cristandade chamo de “Graça”, nos guiará. Só assim poderemos agir corretamente – ao lado de um pouco de sabedoria, temperança, força e justiça.

Nesse quesito eu não poderia discordar do Mestre Padre St Agostinho: como uma lei que não é justa poderia ser Lei? Certamente, em esfera civil, poder fazer algo não significa dever fazê-lo; aquilo que é permitido pela lei humana bem pode ser condenado pela Lei divina ou se se prefere – no teu caso de não acreditar na divindade – pelas leis interiores, da alma ou da mente. Uma lei pode permitir fazer determinada ação, mas não obrigar a fazê-la; deixa-nos somente a possibilidade de o fazer. Mas é claro, a Lei de nada vale se não houver o coração, pois ninguém se corrige somente pelo dever. Fiquemos não com o como, mas com o por quê.

Isso é tudo o que busco para mim: a correção, o desenvolvimento, a Humanidade. E sei que tu também a buscas, ainda que de maneira diferente. Por isso dirijo-me a ti com tais letras, para que elas possam somar-te e justificar meus pensamentos.

Grata por todas as conversas e trocas que já tivemos

Sua amiga

Natália.

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Categoria: Cartas

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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