Laboratório de Filosofia Antiga: Plotino, Enéada III.8 [30]

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UFPE, Laboratório de Filosofia Antiga, 11/11/2015 – Plotino, Enéada III.8 [30] e o Silêncio: Sobre a natureza, a contemplação e o Uno.

Comprometi-me a apresentar no Laboratório de Filosofia Antiga o pensamento de Plotino, razão pela qual meus pensamentos voltaram a se debruçar diante de tão curioso filósofo. Por dias pensei repetidas vezes no que poderia ser dito acerca de um sapiente neoplatônico tal como foi Plotino. A respeito de quê poderei discursar?, pensei. Falar de Plotino não é tarefa fácil, quem o conhece sabe o porquê; sabe que sua filosofia não se pauta em meras palavras e por conseguinte que entendê-lo não é o mesmo que inteirar-se acerca de informações qualitativas sobre o Um, o nous, o espírito, a alma e o corpo. Mas relembrar-me disso me mostrou a luz para um início expositivo, quer dizer, não meramente a uma abertura conceitual, e sim a um preâmbulo das próprias dificuldades de falar acerca de uma filosofia que não se “fala” com palavras, isto é, uma filosofia diferente dos linguísticos jogos filosóficos da tradição, pois este filosofar se apresenta como um modo de ser e de estar, um modo de se relacionar com o mundo.

Dessa forma quase nada aqui é novo, muito admiradores de seu pensamento já explanaram o que aqui exponho. Talvez a real heterogeneidade entre os modos de apresentar uma exortação à Plotino seja em relação à afecção que se vai apercebendo em cada alma que o conhece, toda ela adentrando em seu logos da maneira que lhe é possível. Se quisermos tomar como exemplo uma pesquisadora de nossos tempos, Gabriela Bal prontamente aparece a relatar como foi conduzida a Plotino, ou seja, pelo Silêncio cujo caminho, sem nenhuma conotação ascética formal, mostra como “os conceitos se inscrevem na circularidade de um pensar que se renova, impossibilitando sua fixação num sistema rígido de pensamento, porque eles apontam na direção da sua própria superação à medida que os compreendemos” e por isso “ler Plotino é penetrar num pensamento que aparentemente ultrapassa toda possibilidade de compreensão; é se deixar guiar por um caminho novo, com a certeza de ter um guia seguro a indicar a direção e as possibilidades, sem pressa”.

Não obstante quem melhor pode conduzir-nos a Plotino – mais que os homens e mulheres de nosso tempo – é aquele que presentemente o teve como Mestre, eis aqui as palavras de Porfírio:

Plotino era (…) possuidor de uma alma pura, e sempre anelante pelo divino, a quem amava de toda sua alma, e que fazia tudo para libertar-se, “para escapar da vaga amarra desta vida que se nutre de sangue”. Assim, especialmente a esse varão daimônico, que amiúde se elevava ao deus primeiro e transcendente através de seus pensamentos e seguindo os caminhos ensinados por Platão no Banquete, (…) [tinha por fim e meta] alcançar e unir-se ao deus que está acima de tudo. Atingiu quatro vezes, enquanto eu convivia com ele, a essa meta por uma atividade inefável. (…) E se diz que, de uma insone contemplação interior e exterior, ”contemplaste com teus olhos múltiplas belezas que nenhum, dentre todos os homens” que se dedicam à filosofia “poderia facilmente vislumbrar”. Pois a contemplação dos homens pode tornar-se mais do que humana; mas, em relação ao conhecimento divino ela poderia ser graciosa, não porém a ponto de ser capaz de captar o profundo, como captam os deuses.

Ao escrever (…) [Plotino era] mais abundante em ideias do que em palavras, expressando-se quase sempre inspirada e apaixonadamente. Em seus escritos estão misturadas de modo imperceptível tanto as doutrinas estoicas quanto as peripatéticas; e também estão condensados os temas da Metafisica de Aristóteles [e do pensamento persa e hindu]. Não lhe passou desapercebido nenhum teorema, como se diz, geométrico, nem aritmético.

(Porfírio, Sobre a vida de Plotino e a organização de seus livros, 23 e 14)

Tendo descrito sua hombridade, Porfírio indica que Plotino parecia envergonhar-se de estar em um corpo, e assim, muito além das doutrinas posteriores à Platão (ou ao que em sua época se interpretava de Platão), o filósofo era platônico ao ponto de, junto do imperador Galieno e sua esposa Salonina, pensar em restaurar uma cidade de filósofos que se dizia ter existido na Campânia e concedê-la a futuros habitantes que haveriam de seguir as leis de Platão dando-a o nome de Platonópolis.

Bem se poderia continuar expondo pontos contingentes da vida e pensamento de Plotino, mas feliz ou infelizmente esta apresentação requer algo mais laborioso, razão pela qual decidi debruçar-me especificamente sobre a Enéada III.8 [30], segundo os comentários e tradução de José Carlos Baracat Júnior. Essa decisão não foi eventual ou de caráter pessoal, e sim fruto de sua importância no entendimento de Plotino. Essa Enéada apresenta um caráter mais didático, com poucas citações e apelo à tradição. Além disso é de grande relevância nas demais Enéadas do autor o tema do tratado em questão, ou seja, a natureza, a contemplação e o Uno.

De início, antes de seguir sério, Plotino nos chama para brincar com suas próprias ideias. “Brincar” porque quem sabe, como dizia Platão nas Leis, 721 B 1-2 e 803 C (indicadas por Armstrong, 1966-1988, nota ad locum, e Baracat Jr.), devemos ser sérios com o que é sério, e não com o que não o for; e talvez a única seriedade que tenhamos seja em relação ao divino, e os homens e mulheres devam senão atravessar sua vida conformando-se com as mais belas brincadeiras. Assim as grandezas e misérias humanas são como uma representação teatral para o divino; o homem exterior, como uma sombra para o homem interior, a única persona realmente existente e substancial.

Se seguirmos com a brincadeira de suas palavras veremos no decorrer da obra a presença de elementos da Ética a Nicômaco; enquanto para Aristóteles “toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda escolha, visam a um bem qualquer; e por isso foi dito, não sem razão, que o bem é aquilo que todas as coisas tendem” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, 1094 A), ou seja, ao passo que na filosofia aristotélica o princípio teleológico de todas as coisas é o bem, o telos de Plotino é a contemplação. Por exemplo, mesmo nessa brincadeira, ou nesse estudo, nós contemplamos, e todos que brincam contemplam ou, antes, brincam porque isso desejam. Não há uma ação (práxis) que não mire a contemplação. Por conseguinte vale ressaltar que em Plotino há dois tipos de práxis: a compulsória, sendo essa compelida pelas circunstâncias acidentais externas (logo tem uma liberdade diminuta), e a voluntária, embora não seja ainda uma ação absolutamente livre porque pode ser guiada por paixões e desejos, esta é aquela que depende inteiramente de nosso poder.

Mesmo nas árvores e nas plantas em geral a contemplação se mantém como telos, embora não seja práxis mas unicamente poiesis: sem precisar de instrumento algum, adventício ou inato, a natureza produz contemplando e é determinada por sua contemplação. De que modo? Inserindo logos na matéria – Não é o fogo que precisa se aproximar da matéria para que ela se torne fogo, mas um logos”, logo não é do átomo material que surge a natureza, e sim do logos que é imóvel e inalterável, é princípio formativo intelectual responsável pela constituição essencial de todas as coisas.

Diz Plotino:

E se alguém perguntasse à natureza por que produz, se ela consentisse em dar ouvidos a quem pergunta e responder, diria: “Não devias perguntar, mas compreender também tu em silêncio, como eu, que me calo e não costumo falar. Compreender o quê? Que o que é gerado é o que vejo em silêncio, um objeto de contemplação que surge naturalmente, e que me cabe, eu que nasci de uma contemplação desse mesmo tipo, possuir uma natureza amante da visão. O meu contemplar produz um objeto de contemplação, como os geômetras desenham contemplando; todavia eu não desenho, mas contemplo, e as linhas dos corpos ganham existência como se elas tombassem. Experimento o mesmo que minha mãe e aqueles que me geraram: eles também nasceram da contemplação, e meu nascimento não decorre de praticarem eles ação alguma, mas, por serem eles logoi maiores e contemplarem a si mesmos, eu nasci.

Assim a natureza é uma alma, produto de uma outra alma que lhe é anterior e de vida mais poderosa; logo a natureza pode ser entendida como uma ponte entre o inteligível e o sensível, uma fronteira entre o que realmente existe e a sua imitação, cada um dos seres contemplando-a da forma que lhes é possível conhecer o intelecto. Intelecto esse que não é o intelecto de alguém, mas é universal e, sendo universal, é intelecto de todas as coisas, e, como é dual (intelecto e inteligível ao mesmo tempo), antes do intelecto deve existir uma unidade anterior.

Aqui finalmente chegamos àquilo que a multiplicidade é posterior: o Um, que “não pode ser objeto de discurso, nem de escrito, mas se falamos e escrevemos é para conduzir a Ele, para encorajar a visão, com o auxílio do discurso, como se indicássemos o caminho a alguém que quer ver alguma coisa”, por isso Plotino diz que “mesmo quando dizemos que ele é ‘causa’ não é a ele que atribuímos um predicado, mas a nós mesmos, pois somos nós que temos qualquer coisa que vem dele, enquanto que ‘ele’ ‘é’ em si mesmo>> (9 [VI 9], 3, 49-55).

É por ter isso em vista que Michel Fattal (Logos et image chez Plotin, p. 14) diz que a função dêictica e designativa do logos conduz à abolição da linguagem e convida a fazer a experiência do silêncio; do silêncio à contemplação efetiva, da contemplação ao intelecto, do intelecto ao Um.

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Categoria: Espiritualidade, Filosofia Antiga, Filosofia da Linguagem, Filosofia da Natureza, História da Filosofia, Metafísica e Ontologia, Misticismo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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