Modelo de análise básico das tecnologias humanas voltadas à evolução

| 16/11/2015 | 0 Comentários

tecnologia

Introdução

Entendemos aqui tecnologia como qualquer técnica inteiramente contida no ser consciente. O acréscimo da qualidade humana se dá devido ao fato das tecnologias aqui tratadas lidarem principalmente com as propriedades desenvolvidas pelos seres humanos para lidarem com a realidade. Mas como sabemos qual tecnologia é melhor que outra?

Essa pergunta é fundamental em qualquer indústria que se preste a desenvolver algum produto. Testar qual é a melhor tecnologia sobre seus mais variados aspectos é fundamental tanto para o conhecimento acerca do produto desenvolvido quanto das tecnologias por ele envolvidas. Contudo surgem dificuldades quando tentamos fazer isto com tecnologias relacionadas aos seres humanos, como filosofias formalizadas, religiões ou comportamentos (que possuem as técnicas que lhe são próprias). Isso porque cada pessoa tem sua própria concepção sobre como avaliar o que é melhor para si e para o próximo. Dessa forma, qualquer consenso generalizado se torna muitas vezes inviável.

O objetivo desse escrito é encontrar algum modelo de análise para as tecnologias humanas que sejam aceitáveis para qualquer pessoa dotada de certas características, para que então possam ser estabelecidos estudos ou mesmo que cada pessoa possa avaliar a si própria enquanto ser responsável por desenvolver suas próprias tecnologias. Aos que questionarem o porquê eu estou restringindo para quais tipos de humanos essa avaliação de tecnologia será válida, eis o argumento: que capacidade uma pessoa que trabalha com história tem para avaliar os métodos de uma outra que trabalha com astronomia? Pouco ou nenhum. Da mesma forma, que capacidade tem uma pessoa que está completamente fora dos requisitos estabelecidos para esta análise prática de julgar o que aqui está sendo analisado como bom ou ruim? Do mesmo modo, pouca ou nenhuma.

Estou adotando aqui o princípio de que cada ser humano tem maior probabilidade de conhecer mais aquilo com que interage, dado que todo ele nasce sem conhecimento de mundo e o adquire através da interatividade. Portanto, qualquer um que quiser invalidar a restrição estabelecida por mim, terá que primeiro invalidar o princípio no qual a estou apoiando.

Restrição

Aqui denoto a seguinte restrição: terá capacidade de avaliar estas tecnologias aqueles que estão interessados em implementar um estilo de vida capaz de comportar bons comportamentos de sobrevivência e reprodução. Se o individuo nisso não estiver interessado, nada que for dito aqui a partir de agora terá sentido, já que o sentido nasce do interesse do individuo de buscar aquilo que lhe interessa enquanto ser humano.

Portanto críticas vindas deste tipo de pessoa tenderão a ser invalidadas, já que muito provavelmente ela não terá domínio, ou sequer conhecimento, das tecnologias as quais estou tentando implementar. Contudo, a qualquer um que tenha esse mesmo interesse e queira juntar-se a mim no desenvolvimento desse modelo, sinta-se a vontade para contribuir com o mesmo, sugerir alterações ou mesmo outro modelo que consiga fazer análise sobre estes aspectos (é possível comentar em baixo do texto).

Direitos derivados do interesse

O modelo partirá do princípio básico enunciado acima, ou seja, de que todo ser humano aprende interagindo com a realidade junto com o declarado interesse humano de buscar métodos de implementar uma boa evolução (isso acontece, por exemplo, quando juntamos os princípios de sobrevivência e reprodução) e então anunciar o primeiro aspecto do nosso modelo: cada ser humano tem o direito de experimentar e será sua a responsabilidade do que esse processo de experimentação resultará.

O direito a experimentação é algo básico: cada ser humano tem o direito de lutar por aquilo onde acredita estar a felicidade, pois só um sujeito tem a iteração com a realidade que tem, portanto, só ele mesmo é capaz de interagir com as coisas a ponto de descobrir se aquilo em que acredita é, de fato, verdade. Usando princípios da psicologia, sabemos que ou o individuo se frustrará e buscará uma melhor visão de mundo, ou sua inquietação terá fundamento tal que encontrará algo na realidade a lhe satisfazer, como uma nova tecnologia, por exemplo.

Algumas experimentações podem ser problemáticas, pois por vezes entram em conflito com a experimentação de outras pessoas. Como resolver uma situação de conflito? Na natureza, situações de conflito são resolvidas através da força: quem for mais veloz entre o caçador e a presa vence. Este mesmo conceito pode ser aplicado ao nosso modelo, contudo, com uma variante: a força não necessariamente terá de ser apenas física, mas também intelectual, emocional, econômica, ou uma combinação delas. Sendo assim, estabelecemos o direito de negociação.

Negociar como resolver um conflito é algo fundamental para que ambas as partes saiam satisfeitas de uma situação conflituosa. Contudo, o direito de negociação é aplicável somente a quem respeita nosso modelo, e existe um direito básico que uma pessoa que esteja interessada na sobrevivência e reprodução precisa respeitar: o direito à vida. Isto implica que nenhuma destas negociações deve ser tal que ameace o direito à vida de quaisquer partes. Portanto, uma negociação pode durar o tempo que for necessário para ser formalizada e concluída, desde que ela respeite o direito a vida, certamente as pessoas que estão interessadas na vida saíram ganhando.

Não é possível determinar ao certo como tratar as pessoas que não estão interessadas na vida. Aplicar a eles os mesmos três direitos aqui impostos as todos que se interessam pela vida é o mínimo a se esperar de uma boa tecnologia humana, mas como tratar uma pessoa que desrespeita alguns dos direitos básicos aqui estabelecidos? Como por exemplo, ignorar sumariamente o direito a negociação e vencer seus conflitos através da violência? Ou ignorar o direito a vida e recorrer ao assassinato? Ou mesmo tirar o direito de experimentação de alguém e enjaulá-la, tornando-a sua escrava?

São situações complicadas porque descemos o nível de humanização: tornamo-nos mais animais. E animais resolvem as coisas com todos os instrumentos que estão ao seu dispor, e não somente com aqueles instrumentos que respeitem os direitos aqui estabelecidos. Isto implica numa redução da qualidade de vida, pois ao invés das negociações moderadas que trazem satisfação aos envolvidos, traremos a guerra, que parte do princípio de destruir tudo o que de importante é construído pelos participantes, para tirar deles a vontade de lutar pela vida.

Cabe a cada tecnologia humana decidir o quanto de paz ou o quanto de guerra deseja ter dentro de si, que é a decisão que ela terá de tomar ao lidar com as pessoas que não respeitam os três direitos estabelecidos anteriormente. Estruturas de segurança são recomendadas para evitar conflitos, tanto entre pessoas que respeitam a vida quanto as que não respeitam. O direito a posse, por exemplo, é derivado diretamente do direito a negociação. Mais detalhes poderão ser trabalhos num próximo escrito.

Modelo e métodos de avaliação

Nosso modelo avaliará quatro aspectos principais que podem ser notados em quaisquer tecnologias que estejam interessadas dar suporte a sobrevivência e a reprodução, são eles: saúde, prazer, competição e produção. Cada pessoa que declarar implementar alguma determinada filosofia em sua vida, pode ser avaliada, ou avaliar por si mesma, o quanto esta filosofia torna-a capaz de organizar estes quatro aspectos na sua vida. Desta forma, teremos uma razoável noção da eficiência desta tecnologia na vida das pessoas.

É natural o questionamento sobre o que estes quatro atributos são capazes de revelar sobre a implementação de uma determinada tecnologia, e aqui virá resposta: muita coisa. Afinal, para uma pessoa se tornar competitiva, é necessário que ela tenha uma vida equilibrada e tenha confiança naquilo que faz, e para produzir, ela tem que ter dentro dela a capacidade de explorar a realidade afim de encontrar formas de contribuir com a sociedade, algo necessário a quem deseja sobreviver. Saúde mostrará o quanto a pessoa irá sacrificar de seus recursos para obter o que ela deseja, e o prazer mostrará o quanto de recursos ela consome para ficar bem para fazer as outras atividades.

É natural pensar que uma boa tecnologia humana consiga equilibrar bem estes aspectos, pois, afinal, há o interesse entre o equilíbrio de sobreviver e reproduzir. Contudo, cada ser humano é único, está em um lugar único da sociedade e tem características únicas, portanto, nenhum ser humano pode ser considerado representante absoluto de uma tecnologia criada para a generalização dos seres humanos. Portanto, técnicas de estatística devem ser aplicadas para ser construída uma imagem de impacto médio que aquela tecnologia tem na vida das pessoas. Isto é necessário, pois, dado o princípio de iteratividade mostrado no começo deste artigo, é impossível termos total domínio da realidade.

Por exemplo, o cristianismo, seguindo a definição inicial que especifiquei no inicio do texto, é uma tecnologia humana; mas o quão eficiente ela é em implementar estes quatro aspectos? Certamente o suficiente para se manter viva por aproximadamente dois mil anos. Contudo, há também o budismo, que existe a mais tempo que o cristianismo. O quão eficiente ele é em implementar estes quatro aspectos? Pessoalmente eu pouco conheço sobre o budismo e sua capacidade de implementar a evolução, e seria interessante saber como o budismo encontrou formas de fazer tal implementação.

Motivações de análise

A motivação destas análises não é simplesmente ter tabelado cada tecnologia e sua eficiência. É mais: interessa-me entender como cada uma delas conseguem ser implementadas na realidade, e aprender com elas o que de melhor elas podem oferecer para a construção de um modelo melhor para a nossa sociedade. Um modelo que se preocupe com a boa evolução, que acontece quando são implementados os quatro aspectos ditos anteriormente por alguém que se interesse pela sobrevivência e reprodução.

A quem se ofender por ter sua religião, comportamento, filosofia, chamada de tecnologia, meu mais sincero perdão, mas uma vez que vocês usam artefatos tecnológicos para se reproduzir, como escrituras, torna-se possível afirmar que vocês também são um tipo de tecnologia. Contudo, uma das mais importantes, certamente, pois para quem é humano não deveria haver algo mais importante que ser humano. Neste aspecto, inclusive, tecnologias sagradas, que lidam com o eterno, se imaginarmos que existe a possibilidade do ser humano se perpetuar pela eternidade.

Cada análise é uma oportunidade de aprender, mas como analisar sem um modelo pré-estabelecido? É a isto que este artigo se propõe: definir um modelo básico de análise de tecnologias humanas que esteja preocupada com a evolução. Esperar que se crie um ranking de qual modelo é melhor que qual é uma ideia absurda, pois assim como cada ser humano é único, cada região no qual tais modelos são implementados também são únicas. Analisar modelos humanos da maneira aqui sugerida pode ser, inclusive, o ponto de partida para análises mais profundas que ligam conhecimentos de economia, política, geografia, história, dentre tantas outras áreas de conhecimento humano.

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Categoria: Filosofia da Tecnologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de engenharia da computação, sou completamente apaixonado por qualquer tipo de conhecimento, sendo este o principal motivo que me traz com muito orgulho ao Filovida. Desenvolvo a Psicologia Evolutiva, uma abordagem filosófica ainda em estágio embrionário. Costumo usar esta abordagem nos textos que pretendo produzir aqui, para o Filovida. Não estou aqui como acadêmico, mas sim como contemplador da vida, e tudo o aqui for escrito por mim deverá ser usado apenas como uma forma de contribuir com os pensamentos.

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