O problema dos universais na Escolástica

escolasticaAlguns questionamentos são repetidamente discutidos na história da filosofia ocidental, como é o caso do problema dos universais: será que as coisas que vemos são pensadas mediante suas espécies e seus gêneros? Há relação entre os universais e os fatos (como a correlação entre o homem e este homem)? Em que medida o conhecimento humano se refere à realidade?

Já no mundo clássico podemos falar da dimensão metafísica do ser, ou melhor, o mundo das ideias de Platão, como uma tentativa de responder esse problema. Na hipótese platônica os universais teriam uma necessidade não apenas a nível ontológico como também epistemológico, isto é, eles teriam relevância tanto para explicar a natureza das coisas em si mesmas quanto a natureza das nossas experiências acerca delas.

[O] conhecido argumento [platônico] apontava os universais como formas que existem em si mesmo num domínio espiritual, transcendente. Uma pessoa bela participaria da forma de beleza. Essa forma só pode ser conhecida pelo intelecto, e não pelos sentidos, e por isso é assinalada a importância da dialética – o jogo de perguntas e respostas entre mestre e aluno – como a única maneira de fazer a alma ascender, por degraus, da lama em que se encontra presa pelos sentidos até a contemplação da forma. O particular é apenas uma manifestação da forma, e segundo a epistemologia platônica, para conhecer, é necessário ter acesso aos universais eternos e imutáveis [1].

A diligência aristotélica em categorizar as substâncias também é uma investida em solucionar o problema. Aristóteles critica o dualismo exagerado de seu mestre acreditando ter ele confundido a categoria da substância com a de qualidade.

Colocar o conhecimento em um outro nível, numa matriz perfeita, não resolveria o problema, apenas o adiaria. As questões feitas sobre os particulares se repetiriam nas formas. O segundo ponto seria um erro lógico, já que a forma seria ao mesmo tempo uma substância individual — requerida pela tese da separação – e uma qualidade, necessária para ser um universal. A lembrança será útil para contrapor mais adiante a posição de Abelardo sobre o problema. O estagirita defende a existência apenas dos individuais, como Sócrates ou esta cadeira em que estou sentado. Os universais existem apenas como elementos comuns nos particulares. O universal X é tudo o que é comum ou dividido aos particulares Y. É predicado dos particulares. Os individuais são classificados por gêneros na medida em que tem as mesmas propriedades. Quanto mais diferenças nas qualidades determinadas, mais refinada se tornam as classificações [2].

Na Idade Média, sobretudo na Escolástica, o tema ganhou um destaque sui generis como jamais fora visto antes. É importante salientar que o Medievo parte de um realismo extremo. Até o século XII os universais costumavam ser concebidos como coisas de modo que não houvesse diferença essencial entre os indivíduos, pois como eles tinham uma essência, a única diferença entre um e outro se situava em seus acidentes. Mas essa posição não foi infindável. O Medievo pautou-se também num forte nominalismo, ou seja, entendendo que não há nada na natureza que seja universal, pois a verdadeira existência está no individuo e os universais só existem na mente enquanto algo posterior às coisas (post rem).

Os historiadores da filosofia convergem em conjeturar que o nominalismo se originou nos séculos XI-XII com Roscelino de Compiègne (1050—1125). Para o filósofo os universais não passavam de nomes, “não possuíam qualquer valor semântico ou predicativo, não podendo ser referido a nenhuma coisa em particular, uma vez que todas elas existem singularmente e individualmente. Somente a individualidade é real, não havendo outro meio possível de considerar o indivíduo fora dessa indivisível individualidade. Através disso, Roscelino propõe que os universais são apenas expressões puramente abstratas (flaus vocis) que não possuem qualquer valor de existência e que servem apenas para designar os indivíduos em particular” [3]:

Quanto aos universais, nada mais são do que expressões de uma pura abstração, trata-se de conceitos que servem para designar os indivíduos e, enquanto conceitos designativos, não passam de uma pura emissão fonética. Roscelino reduz o universal à realidade física do termo pronunciado, ou seja, flaus vocis […] (VASCONCELOS, 2004, p. 7).

Roscelino, portanto, entende os universais como meros sopros vocais (flatus vocis) desprovidos de qualquer valor de verdade. Assim o conhecimento é restrito aos sentidos “e este caminho não permite que se chegue a qualquer outra realidade, a não ser, a do indivíduo” [4].

Guilherme de Champeaux (1070-1120) por sua vez volta ao problema dos universais seguindo os moldes clássicos do realismo. Ele dizia ele que a natureza ou essência de algo é única e idêntica em todos os indivíduos e eles seriam meras variações acidentais da natureza ou da essência [5]. Um de seus discípulos porém, Pedro Abelardo (1079-1142), logo “percebeu o problema que a ideia de universais nas coisas (universale in re) poderia criar e colocou o seu mestre em dificuldades ao propor que se a Platão é um homem e Sócrates é um homem, e se só existe uma única natureza humana, então Platão é Sócrates” [6].

Para Abelardo o universal não é como a flatus voeis de Roscelino, mas sim uma palavra (sermo), ou seja, um som com significado; o sentido dos nomes (nominum significatio) adquire seu sentido pelo uso referencial, ou melhor, pela referência mediada por uma ideia geral, por uma imagem composta [7]. Abelardo cria assim uma espécie de teoria psicológica, pois compreende estar a existência dos universais relacionada a uma intencionalidade do pensamento. De acordo com ele os universais podem ser chamados de corpóreos quanto à natureza das coisas, e incorpóreos quanto ao modo de significação, porque embora denominem o que é separado, não o denominam separada e determinadamente [8].

Entre o realismo e o nominalismo, o problema dos universais é discutido até hoje. O exame de compreender os universais é a busca de compreender como pensamos [9].


[1] O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS EM PEDRO ABELARDO. Miguel Duclós. Trabalho Originalmente Apresentado para a FFLCH/USP. Disponível no sitio <<http://www.consciencia.org/pedro_abelardo.shtml>> e acessado em 20 de outubro de 2015.

[2] Idem.

[3] O NOMINALISMO DE ROSCELINO DE COMPIÈGNE: OS UNIVERSAIS COMO “FLATUS VOCIS”. Marcilio Bezerra Cruz, Claubervan Lincow Silva. Cadernos do PET Filosofia, Vol. 5, n.9, Jan-Jul, 2014, p. 48-55. ISSN 2178-5880.

[4] Idem.

[5] NOMINALISMO E REALISMO. Postado há 8th October 2011 por Pragmatismo. Disponível no sitio <<http://pibidfilosofiauesc.blogspot.com.br/2011/10/nominalismo-e-realismo.html>> e acessado em 20 de outubro de 2015.

[6] Idem.

[7] O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS EM PEDRO ABELARDO. Miguel Duclós. Trabalho Originalmente Apresentado para a FFLCH/USP. Disponível no sitio <<http://www.consciencia.org/pedro_abelardo.shtml>> acessado em 20 de outubro de 2015.

[8] LÓGICA PARA PRINCIPIANTES. ABELARDO, P. Lógica para principiantes [online]. Translated by Carlos Arthur Ribeiro do Nascimento. 2nd ed. São Paulo: Editora UNESP, 2005. 96 p. ISBN 978-85-3930-320-5. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>.

[9] AARON, R. I. The Theory of Universals, Oxford, Clareandon Press, 1952, p. VII.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia da Linguagem, Filosofia Medieval, História da Filosofia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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