Santo Anselmo: Argumento ontológico para a existência de Deus

Efetivamente nós cremos que Vós sois um ser maior do que qualquer outro que possamos conceber […] e portanto não pode existir somente no entendimento. Com efeito, suponha que ele exista somente no entendimento; mas então ele pode ser concebido como existindo também na realidade, [caso contrário ele não seria o que delimita sua definição]. […]. Portanto não há dúvida que existe um ser que é maior que qualquer outro que possa ser concebido e que existe tanto no nosso entendimento como na realidade.[1]

Vitral do século XIX retratando Santo Anselmo.

Vitral do século XIX
retratando Santo Anselmo.

Santo Anselmo (1033–1109) foi o primeiro filósofo a propor um argumento ontológico para a existência de Deus. Nos capítulos II e III de sua obra Proslogium, escrita em 1077 e 1078[2], ele argumenta que Deus existe tão certamente a ponto de não poder ser concebido como não existente. Isso porque etimologicamente ele é o ser que é maior que qualquer outro que possamos conceber, e se pudesse ser concebido como não existente, ele não seria o ser maior que qualquer outro que possamos conceber. Assim é inegável que há verdadeiramente um ser que é maior que qualquer outro que possamos conceber e que esse não pode ser concebido como não existente (e ele é necessariamente Deus).

Com a intenção de clarificar o argumento de Anselmo, Scott H. Moore o estrutura da seguinte forma:

(1) Pode-se pensar num ser maior do que qualquer outro;

(2) Sabemos que a existência na realidade é maior do que a existência somente na nossa mente;

(3) Se o ser de (1) existir somente na nossa mente, não será o maior que se pode pensar;

(4) Portanto o ser pensado maior que qualquer outro (1) deve existir na realidade;

(5) Se ele não existir na realidade, não seria o maior ser que se pode conceber;

(6) Portanto o maior ser que se pode conceber deve existir, e nós o chamamos “Deus”.

Em outras palavras, seguindo uma estrutura mais formal a partir da lógica moderna, podemos compreender Anselmo por Leach [4, pp. 27s] da seguinte forma:

¬ = “negação”; ∃ = “existe”; → = “implica”; ∴ = “donde que”; GR(x, y) significa “podemos pensar que x é maior que y”; E(x) significa “x existe na realidade”; g significa “Deus”.

Então temos o argumento formalizado:

¬ ∃ x, GR(x, g)

(Ou seja, não existe x tal que x possa ser pensado maior que Deus);

¬ E(g) → ∃ x, GR(x, g)

(Ou seja, se Deus não existe na realidade, então podemos pensar em um x maior que Deus).

Mas esta afirmação contradiz a primeira (1).

Donde a conclusão:

∴ E(g).

A partir disso podemos ter uma sucinta noção da importância de Santo Anselmo para a filosofia escolástica. São inegáveis suas influências posteriores em pensadores como São Boaventura (1221-1274), Tomás de Aquino (1225-1274), João Duns Escoto (1266-1308) e Guilherme de Ockham (1285-1347). Anselmo nos leva a presumir que, se se deseja negar a existência de Deus, é melhor permanecer em silêncio – pois dentro das propriedades mais gerais do ser de Deus é impossível negá-lo sem cair numa contradição.

[1] Santo Anselmo, Proslogium, Alloquium de Dei existentia.

[2] Segundo alguns historiadores da filosofia tal prova da existência de Deus foi elaborada primeiramente por Avicenna de Persia, mas há um extenso debate acerca de se sua justificativa é de fato equivalente a um argumento ontológico.

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Categoria: Cristianismo, Espiritualidade, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval, Lógica

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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