A Arché dos sexos

Desde a origem da vida biológica na Terra estima-se que cerca de 90% das espécies existentes no globo tenham se extinguido devido a tantas mudanças ambientais, e a própria “morte” desses seres têm fornecido formas de sobrevivência a todos os outros que sobreviveram e seus materiais genéticos ajudado em certo grau ao surgimento de novas espécies “pós apocalípticas”, dentre elas nós, seres humanos. O curioso é como um ser considerado “o mais simples ser vivo” dentre todos sobreviveu aos mais diversos processos de deterioração do planeta. Falo das chamadas archeobacterias (ou “bactérias azuis”) que são os extremófilos (seres que vivem em condições ambientais extremas) mais conhecidos entre os biólogos e cientistas de diferentes áreas, incluindo astrônomos e estudiosos cuja pretensão está em entender como a vida pode surgir em um ambiente “extremo” como o espaço. As diferentes espécies desse tipo são encontradas em fósseis tão antigos e anteriores aos grandes processos de extinção que por isso são ainda considerados os seres mais antigos e primeiros a habitarem o “tímido pontinho azul”(por isso o nome “archeo” remetendo a origem e antiguidade), e diferente do que nos diziam na infância (pelo menos na de quem vos fala) são os verdadeiros seres capazes de se adaptarem em qualquer ambiente, de regiões ácidas demais a qualquer outro ser vivo, lagos ferventes e até 200 graus negativos nas geleiras do Polo Norte.

1-Um exemplo é o Parque Nacional de Yellowstone nos EUA; em suas águas ferventes e ácidas reproduzem-se e vivem as "Bactérias azuis" e pela diversidade de cores percebe-se a diversidade de espécies bactérias, mais abaixo vê-se pessoas visitando.

Um exemplo é o Parque Nacional de Yellowstone nos EUA; em suas águas ferventes e ácidas reproduzem-se e vivem as “Bactérias azuis” e pela diversidade de cores percebe-se a diversidade de espécies bactérias, mais abaixo vê-se pessoas visitando.

Toda essa introdução é para mostrar a capacidade desses simples organismos como de extrema importância para a manutenção da vida na Terra, pois são eles os mais abundantes no planeta, presentes nos corpos da maioria dos animais como nos nossos, fornecendo mudanças ambientais em habitats extremos que após as modificações feitas na atmosfera por essas bactérias passam a abrigar outras formas de vida ao derredor. E agora chegamos aonde queríamos mostrar, isto é, como esses mesmos seres “descobriram e inventaram o sexo”?

Pense num ambiente em que temos raios caindo a todo instante, erupções vulcânicas que duravam séculos, terremotos que devastavam continentes em poucos minutos, e choques de meteoros e asteroides constantemente (que deixaram marcas até os dias atuais até em nossa Lua que têm um de seus lados mais furado que queijo suíço no chamado “O grande bombardeio tardio” que entraremos em detalhes em outros tópicos). Bem, imaginemos isso e muito mais, e devido a diversos acidentes desse e de outros o impossível acontece! A vida na Terra tem seu improvável início, e após milhares de anos de tentativa de adaptação elas surgem, as nossas archeobacterias. De acordo com especialistas e recentes estudos elas continham um material genético nem masculino nem feminino, eram assexuados por natura. E ao passar a se reproduzirem não havia necessidade de grandes populações e nem de diferenciação sexual, porém não havia diversidade de características e assim foi por milhares de anos. Outros estudos recentes mostram que algo aconteceu, algo que os atuais estudos de Astrobiologia da NASA (Agência Espacial Americana) revelam estar junto a necessidade do átomo de P(fósforo) se juntar as formas de vida, que a partir daí passaram a respirar oxigênio. Esse algo é a simples modificação de seres assexuados a seres que passam a “preferir” a diferenciação sexual, feminino e masculino passam a fazer parte dos seres devido a uma capacidade adaptativa das archeobacterias , a mesma habilidade que faziam delas seres assexuados as tornou sexuadas. Essa habilidade é senão a chamada mitose, que compreende-se como uma reprodução em que o ser gerado é idêntico ao ser progenitor, ou seja, um clone, só que formado naturalmente.

Percebe-se que essa forma de se reproduzir não deixa margem à grandes mutações, e se elas ocorrerem dessa forma serão em torno de milhares, talvez bilhares de anos para acontecer. E como a natureza é criativa e tem uma “inteligência própria”, ela tende a mudar constantemente, inovando-se e servindo-se de suas próprias leis para fazer as formas de vida atravessarem os tempos e as dificuldades que essas mesmas leis impõem. E é por conta dessa mesma capacidade de mudança, essa inteligência, em mais um de seus “insights criativos” faz com que esses seres chamados de archeobacterias sofram um acidente que mudará a história da evolução da vida pra sempre. Em algum ponto dentre os milhares de anos desses seres ao se reproduzirem, ocorre um pequeno “defeito genético” que faz com que em vez de simplesmente se clonarem, as antigas bactérias acabam se dividindo em dois seres com materiais genéticos compartilhados. Isso quer dizer simplesmente, que um ser ao tentar se dividir em dois “iguais”, acaba se dividindo em dois seres, não só diferentes mas com material genético que só se completa com a união do outro. Nasce aí, a fêmea e o macho. Iguais em essência por serem advindos de uma matriz única, porém diferentes por não serem mais os mesmos ao estarem separados (andrógino de Platão). Entretanto para poderem dar perpetuação e sobrevivência a espécie se faz necessário o gameta completo e não dividido, e assim nasce o sexo. O interessante é que depois do fato, as bactérias que não precisavam adotar formas sexuadas pra perpetuar espécie acabaram por adotar a reprodução assexuada como forma principal de cópula, pois não há criatividade nos iguais e sim na diversidade e de acordo com os próprios biólogos (darwinistas ou não), a biodiversidade é de suma importância pra sobrevivência das espécies, é natural que seres que podem se dividir sem problemas prefiram a opção mais inteligente, a inovação e o sexo é a porta de entrada pros seres vivos fazerem isso.

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Hermafroditismo.

Atualmente, não só as archeobacterias optam por essa forma de reprodução, porém graças a essa mutação, não só elas se diversificam mas toda a vida na Terra se diferencia e vivem através dela. E até os dias atuais os cientistas e demais estudiosos da Biologia se deparam com um comportamento comum nos seres assexuados e hermafroditas: se no ambiente em que um desses seres estiver com outros seres do mesmo tipo, eles se diferenciam entre si, e realizam a forma sexuada de reprodução, em quase 100% dos casos (a não ser que um deles esteja doente), um adota o comportamento sexual feminino e o outro masculino.

É interessante ver que não só temos sorte por termos sobrevivido a processos de extinção, mas nossa própria forma de viver e se relacionar sexualmente tem um fundamento natural, isso se estende desde os seres “mais simples”, sejam ameboides ou esponjas marítimas, aos “mais complexos”, como nós, e a sobrevivência em comunhão não só com uma espécie mas com todas em uma dinâmica “rede viva” é de total e intrínseca codependência, mesmo sendo todos diferentes, pois como já vimos a diversidade é de uma relevância maior até do que nós mesmos, e a necessidade coletiva da mesma faz da vida de um ser uma extensão e partícula indivisível de outros; parece que até mesmo biologicamente estamos essencialmente incompletos.

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Categoria: Biofilia, Biofilosofia, Origem da Vida, Zoologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Atualmente sou "apenas" um curioso, mas já estudei Ciências Biológicas e Arqueologia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Me interesso pelas mais diversas áreas do conhecimento, em todas elas tento despertar o espírito filosófico que possuo. Eternamente enamorado pela vida em todos seus níveis, pretendo defendê-la enquanto puder. É por não acreditar na barganha do conhecimento que aqui pretendo compartilha-lo como posso. Creio na infinitude do Universo, mas só até encontrar seu "muro". Confio que as coisas do coração contém os reais significados da existência. Busco respostas, mesmo que essa busca me leve a encontrar ainda mais perguntas.

Comentários (3)

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  1. Adoro a ideia de incompletude, isso nos dá o enredo para buscar o seu oposto, o movimento em caminho da perfeição, eis o nosso telos; o fechamento do ciclo ainda que, depois que o fecharmos, quando não houver nada a tirar nem nada a acrescentar, um novo ciclo terá o seu começo. Aqui estou a dizer: foi fantástica a alavanca deste escrito, isto é, o seu dizer final, a ideia de que também estamos incompletos no âmbito biológico. Pela primeira vez tive o prazer de pensar sobre isso, excelente exploração temática!

    • Concordo com você plenamente, a imperfeição não é defeito e a busca pelo oposto é incessante a natureza em si, até mesmo no âmbito material é imperfeita e ela é perfeita nisso, porque é o que faz dela ser tão inovadora o tempo todo, a busca. Pretendo escrever mais sobre isso em particular e tem até um físico brasileiro que têm obras maravilhosas que recomendo:Marcelo Gleiser, um de seus melhores trabalhos é justamente a obra “Natureza imperfeita”

  2. Para quem se interessa pelos assuntos abordados e têm paciência pra inglês,ou é curioso e pretende se aprofundar, recomendo o site da Nature: http://www.nature.com/index.html ; e de astro-biologia da NASA: https://astrobiology.nasa.gov/

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