A filosofia da natureza na Idade Média

Deus no Empíreo a abençoar o cosmo. Abaixo, o céu das estrelas, o de Saturno e o de Júpiter. Detalhe do folio 69r de Le livre du Ciel et du Monde (1377) de Nicole Oresme (c. 1323-1372). Paris, BnF, Manuscrits, Fr. 565.

Deus no Empíreo a abençoar o cosmo. Abaixo, o céu das estrelas, o de Saturno e o de Júpiter. Le livre du Ciel et du Monde (1377) de Nicole Oresme (c. 1323-1372). Paris, BnF, Manuscrits, Fr. 565.

Alguns historiadores partem do pressuposto de que o medievo evidenciou os pressupostos metafísicos e éticos da cristandade suprassumindo assim a investigação grega acerca da physis. Contudo, embora o cerne do pensamento cristão não fosse a physis, uma vez que seu fim era justificar o sobrenatural e a possibilidade do milagre a partir da potência absoluta que é, na realidade, o criador e também o mantedor de todas as coisas no ser segundo uma potentia obedentialis[1], por ser um pensamento novadio, a cristandade precisava de endoxas[2] para compenetrar suas teses e, dessa maneira, as filosofias que lhe antecederam foram base para pleiteá-la.. Assim seguimentos de ambas as filosofias, a grega e a cristã, por necessidade sustentaram teses em comum acerca do funcionamento do mundo, entre elas a doutrina da inteligência divina como lugar das idéias, a interpretação teológica e metafísica das duas primeiras hipóteses do Parmênides[3], o problema da relação entre o primeiro princípio, a inteligência e o ser, a relação entre as supremas realidades inteligíveis, parte da cosmologia e a existência de leis que regem a hierarquia dos seres divinos.

No entanto como ambas as filosofias partilhavam de escopos distintos muitos aspectos do naturalismo clássico realmente não permaneceram no mundo medieval. Em primeiro lugar pode-se falar do ponto de vista da arché: enquanto para os gregos a natureza era incriada e eterna, para os cristãos Deus no princípio criou o céu e a terra[4], ou seja, enquanto a arché cristã era entendida como princípio, começo e origem e situada em algum  lugar do tempo remoto, isto é, a gênese, a arché dos gregos funcionava como um poder estrutural que rege e ordena todas as coisas de tal forma que se mantém em vigor sem estar situada cronologicamente. Além disso, para muitos dos gregos a moral humana é regulada pelas leis da physis enquanto cosmos, e embora esta seja regida por leis, a mesma conduz tanto homens quanto deuses (deorum hominumque domina), enquanto na filosofia cristã a natureza não é eterna tampouco é a totalidade, pois o homem não está na natureza, e sim perante ela conforme uma providência independente do mundo da physis. Ainda assim, mesmo diante da dilaceração entre o pensamento diacrônico à Grécia e o pós-Grécia, é possível falar de uma filosofia da natureza na idade media, exemplo disso está no nome de seu próprio estudo, cunhado somente no primeiro século da era cristã pelo filósofo romano Sêneca (4-65) segundo a expressão philosophia naturalis.

Vendo a passagem do mundo grego ao medieval podemos enfim tratar da primeira fase  deste último, a Patrística. Entre seus maiores pensadores está Santo Agostinho que, para efeito de causalidade, embora de maneira simultânea, compreendeu três momentos da criação: “o primeiro equivale aquele primeiríssimo instante em que Deus criou os céus e a Terra e que não se encontra inserido nos seis dias da criação; o segundo consiste naquele em que se deu a formação dos seres a partir da criação primeira; e, por fim, o terceiro momento onde aconteceu e continua acontecendo o desenvolvimento das espécies criadas a partir de uma força potencial incutida em todos os seres com vida, que Agostinho vai denominar de rationes seminales” (JÚNIOR e COSTA, 2013). Posteriormente podemos citar João Escoto Erígena, que procurou harmonizar a filosofia agostiniana com a neoplatônica (Cf. Costa, 1986) e, através de um idealismo de tendência panteísta, acreditou ser Deus e unicamente Ele a natureza primeira. Segundo crê, embora o mundo seja o próprio Deus, Deus não é o mundo porque Ele criou as coisas conservando-se em posição mais elevada do que elas. Por conseguinte é do Onicriador que todas as coisas dependem e irão retornar, e, por ser divina, a natureza pode ser compreendida em diferentes acepções coexistentes num cosmo harmonioso e teofânico de revelação e manifestação da divindade. O conceito de natureza de Escoto Erígena é universal, inclui Deus e as Criaturas bem como considera a natureza das coisas que são ou não são, ao menos enquanto um nada relativo a tudo aquilo que poderia ser mas não foi e tudo aquilo que poderá ser mas não será. Para o filósofo-teólogo os tipos de natureza ruminam na natureza incriada e criante, ou seja, no próprio Deus e no Verbo, razão de tudo aquilo que é e não é; na natureza criada e não criante, ou melhor, em toda a realidade material que existe no espaço e no tempo; e na natureza não criada que não cria, isto é, a natureza teleológica que inclina o homem a retornar à natureza primeira. Isto posto o filósofo mostra como todas essas formas da natureza formam um circulo divino cujo centro é o próprio Deus. Ele se manifesta de forma incessante e eterna sem jamais sair de si; o nome de natureza é o nome geral tanto para as coisas que são como para as que não são (…) pois nada pode apresentar-se ao nosso pensamento a que não possa aplicar-se este nome[5].

Já na segunda fase da Idade Média a filosofia natural estava cunhada principalmente por princípios aristotélicos cujas idéias estruturastes eram as quatro causas constitutivas das coisas do mundo: material, formal, eficiente e final (JÚNIOR e SOUZA, 2011). As coisas possuíam potencia e ato em referência a um telos natural – embora tivessem sua gênese numa força sobrenatural – e o movimento era o esforço pela qual elas faziam para retornar a sua origem. As coisas eram constituídas pelos quatro elementos básicos: o fogo a terra, a água e o ar e eram dirigidas pelas ideias que as governavam (Cf KOYRÉ, 1944). A partir do século XIII, Tomás de Aquino e Alberto Magno foram os principais difusores desse pensamento segundo a Física de Aristóteles e seu universo finito, inexistência do vazio, éter como a quinta essência, teleologia, geocentrismo e propriedade de mudança das substâncias de potência para ato (fortalecendo a ideia da transformação de coisas inanimadas em animadas). A astronomia de Ptolomeu (baseada em Aristóteles com suas estrelas fixas) e a geometria de Euclides também passam a orientar a cosmologia medieval (Cf. LIBERA, 1993). No que toca os trabalhos escritos acerca dos animais e plantas, as produções de Alberto Magno se destacaram pela meticulosidade e rigor das informações obtidas. O remate da filosofia natural do medievo, portanto, se volta ao entendimento do mundo natural construído por Deus para enfim compreender o plano divino.


[1] Em acepção tomista a potentia obedentialis se refere à uma radical dependência das potências ativas e passivas nos entes criados com relação à potência ativa absoluta, criadora e mantedora da inteligencia divina; aquelas não existiriam sem esta, e mais ainda: metafisicamente, o Ser as mantém (SIDNEY SILVEIRA, Potência e omnipotência)..

[2] Palavra grega que se deriva do termo doxa (crenças e opiniões). A acepção de endoxa neste caso está no sentido aristotélico, ou seja, como as crenças aceitas pelos sábios influentes até então.

[3] A primeira delas está na distinção entre os sensíveis e as formas através da teoria da participação segundo a qual os sensíveis se caracterizam por participar das formas e as formas se caracterizam por recusar qualquer tipo de participação entre si, e a segunda parte nas conseqüências dessa assunção na participação dos sensíveis nas formas (SOUZA, 2010).

[4] Gênesis 1,1.

[5] Eurígena, A natureza comum e as acepções de ser e não-ser.


Referências

AGOSTINHO, SANTO. Comentário ao Gênesis. 1ª Edição, 2ª Reimpressão. PAULUS Editora, 2015. 664 p. (Patrística).

EURIGENA, J. E. A natureza comum e as acepções de ser e não-ser.

GONÇALVES, MÁRCIA. A Filosofia da Natureza. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

JÚNIOR, A. F. N. “O neoplatonismo da patrística, dos bizantinos e as origens da escolástica” e “A chegada do aristóteles árabe-judáico ao ocidente cristão: o apogeo da escolástica“. In: Fragmentos da História das concepções de mundo na construção das ciências da natureza: Das certezas medievais às dúvidas pré-modernas. pp. 285-288.

JÚNIOR, A. F. N. Fragmentos da presença do pensamento idealista na história da construção das ciências da natureza. Ciência & Educação, v. 7, n. 2, p. 265-285, 2001

JÚNIOR, A. F. N. e DE SOUZA, D. C. Um olhar sobre o estudo dos seres vivos na Idade Média: Temas fundamentais da biologia na filosofia da natureza. Theoria – Revista Eletrônica de Filosofia, Volume 03, Número 06, pp.20-38 , 2011.

JÚNIOR, A. P. e COSTA, M. R. N. Fundamentação ontológica da cosmogonia agostiniana. Perspectiva Filosófica, Recife, v. 1, n. 39, p. 71-81, jan/jun 2013.

LENOBLE, ROBERT. História da Idéia de natureza. Edições 90, Lisboa, Portugal, 1969.

SOUZA, ELIANE CHRISTINA. Ser e discurso no Parmênides de Platão. Philosophos, Goiânia, V. 15, N. 1, p. 87-118, Jan./Jun. 2010.

SILVEIRA, SIDNEY. Potência e omnipotência (I). Disponível em: < http://contraimpugnantes.blogspot.com.br/2011/03/potencia-e-omnipotencia-i.html>. Acesso em: 13/12/2015.

SULMAN, N. C. Os tipos de natureza segundo João Escoto Erígena. FiloVida. Disponível em: <http://filovida.org/os-tipos-de-natureza-segundo-joao-escoto-erigena/>. Acesso em: 10/12/2015.

VARANDAS, ANGÉLICA. A Idade Média e o Bestiário. IEM – Instituto de Estudos Medievais, Medievalista on line, Ano 2, número 2, pp. 1-53, 2006.

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Categoria: Cristianismo, Filosofia da Natureza, Filosofia Medieval, História da Filosofia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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