Colóquio solar

Bastou o acordar para o dia tomar o lugar da noite. Não que o céu indicasse apenas a lua trocando o lugar com o sol, ou as sombras com a luz. Ignorantemente, indelicadamente, a mente humana costuma projetar significados antes de saber as regras do jogo; a cada colóquio, o impedimento de um novo despertar. Jamais por incapacidade de alcançar a aurora do jogo, mas somente porque lemos muito pouco o dicionário da vida. Na verdade, poucos lêem qualquer significante com desvelo. Aos homens de significados formais exalta a poeta: “Se te fosse mais fácil domar a língua do que as feras… Tu te farias gênio, e não demiurgo postiço“. Seja dito de passagem: podes viajar o mundo, podes conhecer mil e duas pessoas, do Brasil, da Terra, podes subir numa aeronave extraterrestre, mas continuarás pensando que o dia é o sol e a noite a lua; quando na verdade, incessantemente, continuamente, no dia somos, na noite podemos.

Esta noite, no entanto, duelei com minha própria natureza. E se, por ventura, tivesse ganho a batalha, como uma vitória por walkover, continuaria com a mesma indecisão. Na verdade, aquilo que me possibilitou ter dúvidas sequer apareceu para me dar o prêmio: se ganhasse, continuaria sem saber se, como e porque ganhei; se depravasse, no mínimo ignoraria. Uma coisa é poder jogar as perguntas vãs no lixo ou fazer a reciclagem, outra completamente diferente é saber que ao atualizá-las continuo na mesma margem. Aqui jogar fora é antepor dentro – pois não há nada afora. Dentro do único espaço que meu olhos conseguem enxergar configura-se uma presença indiferentemente ausente. Se estou existindo por ele, ele também está: e ao que tudo indica somente por ele. Se o amo, contemplo, estudo, projeto, vejo; ele não parece me ver, exceto se penso e me pergunto: – Será que a existência se engendra pela visão? Seja como for, através das aparências graciosamente indiferentes, existo – e agradeço. Mas hoje, incompetentemente hoje, duvidei. Indaguei algo que nunca antes ousei indagar. Essa noite não me entendi, e quando a lua tomou o lugar do dia, “o sol não nasceu no amanhã”. Com efeito porém, que o sol viesse a nascer, isso sempre me pareceu uma crença, e já não me era um contratempo destroçar crenças vãs.

Depois de perceber que me encontrava em tal dramaturgia lunar, minha mente quis eliminar todo e qualquer melodrama; meus pensamentos se espreguiçaram para fora da cama. Antes fossem meus braços ou minha língua espertando, pois acredite: ter uma mente tagarela é o pior dos castigos para quem duvida. Duvidei, duvidei, duvidei; três vezes a mesma afecção para um único antagonismo: estaria eu sozinha na manhã de lua negra? Dessarte minha mente, batendo os pés que sequer possui, decidiu ser rebelde; transfigurou-se enquanto microcosmo, encontrou um lugar onde a solidão ganhou ternura para avultar-se. O espaço era apertado, mas infinito. Confesso: meus pensamentos estavam em ritmo tão acelerado que manufaturavam o crescimento daquela soledade. O isolamento ascendia, investia em copular com a existência; esse isolamento subsistia na razão.

Inicialmente, de fato acreditei que poderia estar sozinha em uma das minhas partes, mas somente naquela que alcançasse a mente e o pensamento. “Nesse microcosmo, que certamente está envolto na unidade, talvez alguém seja só”, pensei. Mas logo essa possibilidade se contrastou com a mesma unidade e por conseguinte totalidade que circunda o ente, pois como uma parte estaria independente e livre do todo?  Naquele momento, pareceu-me que enquanto corporalmente eu vivenciava o espaço em conjunto pela troca de toques e signos, minha mente vislumbrava o solipsismo. Por consequência, qual seria o problema de afirmar seja a comunhão seja a solitude? Persegui os indícios, e mais encontrei impasses que possibilidades, afinal como alguém poderia promulgar uma liberdade total ou mesmo parcial da mente se é impossível que a razão esteja apartada do Intelecto cujo pertencimento sequer dispõe-se em alguém? Não parece igualmente perigoso falar da solidão e do seu contrário? Ou ainda, se sequer houver contrários, já que Contrários primeiramente envolvem princípios desfavoráveis à unidade, não seria igualmente temerário falar de partilha?

Duvidosa manhã era aquela! Ao dizer que era sozinha acabei por esquecer da comunhão da Lei e de tudo aquilo que se manifesta através dela, ao dizer que era acompanhada esqueci do meu pensamento individual aparentemente apartado daquele que vem de outrem… Ainda que falasse das causas distintas e desconhecidas da razão, ainda que nomeasse mil precedentes, parecia-me que o salto do entendimento era inalcançável a minha condição entre amantes, narcisos e demais quês condicionais. Poderia estar falando de tantas coisas, mas parecia-me que sempre faltava tantas causas (ou a Causa, se se preferisse) no proferir das palavras. No entanto, não dizê-las também me levava à falta, ou pior, ao esquecimento da minha condição humana.

Falando numa categoria de Humanidade, subitamente surgiram seus referentes, assim eu já não pensava sozinha. Vapt-vupt, um senhorzinho gritou lá de baixo: “O homem deve ser superado!”. “Ingenuidade dele”, pensei, “afinal, como pode alguém enquanto homem dizer isso?”. Talvez também o contrário, ou melhor, um homenzinho envergonhado que subia numa escada, igualmente ingênuo, lá do alto retrucou: “Basta-me o contemplar”. Oxalá fosse possível! Como o faria em vida? Assim duvidei de todos eles, mas certamente soube que a mais ingênua das mulheres era a Dúvida: “Duvidas e continuarás mendigando infinitas coisas ao Intelecto e ao que lhe é anterior ou mesmo ao fruto de nossa arte”. Quando se falou em arte… um escultor iletrado rumorejou: – Tua mente é um jarro barroso.

Assim, tão-só entre iguais, segurando um pincel, fizemos o sol nascer.

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Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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