Demócrito e o atomismo clássico

A evolução dos modelos atômicos.

A evolução dos modelos atômicos – Surge, da teoria atômica de Leucipo e Demócrito, o modelo de átomo de [1] Dalton (início do séc. XIX) , [2] Thomson (fim do séc. XIX), [3] Rutherford (início do séc. XX), [4] Bohr (Idem) e [5] Schrodinger, Broglie e Heisenberg (Idem).

Embora hoje o atomismo seja conhecido como uma doutrina física e química, seguramente seu estudo teve um preâmbulo filosófico, ou seja, não foi cientificamente que seus fundadores – Leucipo (±490/460-420 a.C.) e Demócrito de Abdera (±460-360 a.C.) – sustaram os componentes últimos da matéria enquanto corpúsculos indivisíveis, em movimento num vazio infinito. Se quisermos uma demonstração disso, podemos recorrer a Aristóteles, pensador que constata sem recorrer a experimentos científico-experimentais como o atomismo abderiano legitimou racionalmente a existência de algo além do contato, da divisão e do ponto, ou melhor, fundamentou o átomo  um ser compacto, incorruptível, eterno, imutável e pleno.

Aristóteles, Da Geração e Corrupção, I, 2. 316 a 13. DK 68 A 48 b – Demócrito se persuadiu com argumentos próprios da Física. Fiará claro o que dizemos no que segue. (…) [Se o corpo tiver] tal propriedade de divisão total, que seja dividido. Que restará então? Uma grandeza? Não é possível, pois será algo não dividido, e a grandeza era (teoricamente) de todo divisível. Mas, se nada for mais corpo nem grandeza e a divisão persistir, esta ou será a partir de pontos, e sem grandeza será aquilo de que se compõem as coisas, ou então não será absolutamente nada, de modo que do nada nasceria e se constituiriam, e o todo nada mais seria senão aparência. E igualmente, se fosse a partir de pontos, não haveria quantidade. Pois, quando estes se tocassem e fossem uma grandeza e fossem juntos, em nada tornaria maior o todo; pois este, dividido em dois ou mais pontos, não seria menor nem maior que antes, de modo que todos os pontos reunidos não constituiriam nem uma grandeza. E mesmo se de um corpo dividido algo se engendra como serragem, e assim se destaca da grandeza como um corpo, é a mesma questão. Pois, como aquela grandeza é divisível? Se não foi um corpo, mas uma forma separável ou uma afecção o que se destacou e a grandeza são pontos ou tatos assim afetados, é absurdo que uma grandeza provenha de não-grandezas. E, ademais, onde estariam os pontos? E seriam imóveis ou movimentados? E o tato é sempre um entre duas coisas, havendo pois algo além do contato, da divisão e do ponto. Se então alguém puser que um corpo, qualquer que seja, é totalmente divisível, seguem estas consequências. E ainda, se, tendo dividido, eu componho madeira ou qualquer outro corpo, novamente serão o mesmo e um só. E evidentemente é assim mesmo que eu corte a madeira em qualquer ponto. Assim, então, ela é totalmente dividida em potência. Que há então além da divisão? Se o que há é alguma afecção, como o corpo se dissolve nessas afecções, e como delas se forma? Ou como estas se separam? Logo, se é impossível à grandeza constituir-se de tatos ou de pontos, é necessário que haja corpos e grandezas indivisíveis.

Demócrito, portanto, debruçou reflexivamente o exame da arché, e não isoladamente o da physis. Seu atomismo alcançou tão forte influência que, pela incompatibilidade entre as ideias nele expendidas e as suas próprias (Cf. LINS, Ivan. O Epicurismo), Platão (428-359 a.C.) sequer o citou em seus diálogos, embora (sobretudo no Timeu) indicie indiretamente que o conhecia (CARTLEDGE, PAUL. Demócrito e a Política Atomista) e, conta-se, “Em um movimento de ardor fanático, Platão quis comprar e queimar todos os escritos de Demócrito” (Cf. LANGE, F. História do Materialismo, pg. 11), ao passo que Aristóteles (384-322 a.C.) formula contra seu atomismo críticas radicais e, por sua vez, Epicuro dirige fortes objeções contra o Abderiano, mas conserva o essencial da sua teoria dos átomos (Cf. MOREL, PIERRE-MARIE. O Atomismo Antigo, p. 74).

Com efeito, o atomismo clássico tem como fim adversar o monismo de Parmênides (530-460 a.C.) e dos eleatas em geral, e por conseguinte dar conta do movimento e do vazio (kenon), esse último pensado enquanto um intervalo ilimitado necessário ao movimento dos átomos. Se Parmênides diz que apenas o ser pode ser pensado, já que o não-ser não é o ser é imutável e de todo inteiro, pois se tivesse partes algo nele seria separado, não fazendo parte do ser, e sim do não-ser, Demócrito enuncia que o ser dos átomos ou o “algo” (den) existe conjuntamente com o vazio, esse entendido aqui como não ser ou “não algo” (meden) em relação ao seu estado de ser menos e relativamente ao ser.

Aristóteles, Física, VIII, 9. 265 b 24. DK 68 A 58 – Por causa do vazio há movimento, dizem. E eles [os abderianos], com efeito, afirmam que de um certo movimento local movimenta-se a natureza – Cf. Simplício, 1318, 33: Isto é, os corpos naturais, primeiros e insecáveis. Pois aqueles os chamavam de natureza e afirmavam que eles se movimentam localmente pelo peso neles, por causa do vazio que cede lugar e não resiste; pois são agitados em círculo. E eles fornecem este não somente primeiro mas também único movimento aos elementos, e os outros movimentos àqueles corpos procedentes dos elementos. Afirmam, portanto, que os corpos crescem e se consomem e mudam e se formam e perecem por causa da combinação e da separação dos corpos primários.

Por conseguinte, a Abdera do século V antes de nossa era emerge um novo par de contrários, ou melhor, os átomos e o vazio, cujas ilimitadas combinações dão origem a todas as modificações dos corpos compostos. Uma vez que “os átomos são ilimitados em número e se movem incessantemente e em todos os sentidos no vazio, eles possuem um número ilimitado de formas, constituem os corpos compostos por simples agregação e as diferenças das formas atômicas determinam as propriedades dos compostos, os kosmos [igualmente] são em número ilimitados e nascem ou morrem sob o efeito unicamente dos movimentos atômicos” (PRADEAU, p. 75). Esses dizeres têm uma forte implicação cosmogônica, pois deles Demócrito alega que a origem de todas as coisas se regra na Necessidade (anankê) dessa maneira, os átomos se organizam necessariamente por diferentes tipos e sequências deles mesmos, e se não houvesse tal organização e intervalo (vazio) a natureza seria um corpo só e, tal como dizia Parmênides, não haveria movimento. Assim o perecimento, crescimento e mudança dos corpos ocorre por causa da combinação e separação da matéria primária; a geração é uma alteração necessária.

Não obstante, além da cosmologia, Demócrito fala da psyqué humana. Aristóteles diz (Da Alma, I, 2. 404 a 27. DK 68 A 101) que para este ela é corpórea, e sua única particularidade é ser formada por outro tipo de átomo, por conseguinte, “alma e mente representam a mesma realidade. E esta é dos primeiros e indivisíveis corpos, movimentando-se por causa de suas pequenas partículas e de sua forma. Das formas, a mais fácil de mover-se é a esférica, declara, e esta atribui à mente e ao fogo. Cf. Filópono, p. 83, 27: Incorpóreo, disse, é o fogo, não exatamente incorpóreo (pois nenhum deles disse isto), mas, como nos corpos, incorporal por causa da composição de suas delgadas partículas”.

O estudo da psyqué é um dos casos que contraria alguns comentadores modernos a quem proferiam de Demócrito exclusivamente um estudo atomista que acabou por esquecer de sua ética, teoria do conhecimento e da própria alma. Como bom pensador da Antiguidade Clássica que era, visivelmente Demócrito reelabora vários dos valores da cultura grega. “Reelabora-os com um sentido certamente original: numa concepção ‘orgânica do homem’, do seu saber e do seu viver, que não conhece oposições entre corpo e alma, nem entre física e ética, nem – para usar uma díade cara aos pensadores do século V – entre natureza e cultura” (CASERTANO, GIOVANNI. HYPNOS, São Paulo, número 22, 1º semestre 2009, p. 1-13).

Ora, este “materialismo” de Demócrito une-se a uma ética do equilíbrio, da serenidade, da moderação, que faz justamente da alma a principal responsável pela qualidade da vida humana. Com efeito, a alma do homem é caracterizada por λόγος (logos) e νους (nous), que são não apenas os instrumentos do conhecimento, o fim mais alto da vida humana, mas também os instrumentos da justa condução da vida, cuja qualidade depende não do caso, da sorte, mas exclusivamente do empenho que o homem põe. A alma, portanto, é a responsável pela conduta de vida do homem, não num horizonte de moralismo abstracto, mas justamente para a obtenção do que, para Demócrito como para qualquer grego, inclusive Platão, é o fim da vida humana, a felicidade: “à alma pertencem a felicidade e a infelicidade”.

(Idem)

O Choroso Heraclito e o Risonho Demócrito, afresco de Donato Bramante (1444–1514), Pinacoteca di Brera, Milão.

“O Choroso Heráclito e o Risonho Demócrito”, afresco de Donato Bramante (1444–1514), Pinacoteca di Brera, Milão.

De igual natureza, na vida costumeira, Demócrito é conhecido como o filósofo que ri, razão pela qual muitos o estimam e outros tantos o maldizem. Será da admiração um sinal de ignorância, como patenteava Spinoza? Acerca deste tema, o padre Antonio Vieira escreveu o Sermão sobre as lágrimas de Heráclito, e a respeito do subsequente pensador disse: Heráclito de tudo chorava, enquanto Demócrito de tudo ria. Mas o Padre Vieira, sob a pretensão de defender Demócrito, faz de seu riso uma outra forma de chorar (A Palo Seco, Ano 4, n. 4, 2012): “Que Demócrito não risse eu provo: Demócrito ria sempre; logo nunca ria. A consequência parece difícil, e é evidente. O riso, como dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração, e cessando a novidade, cessa também o riso; e como Demócrito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, e o que é ordinário, e se vê sempre, não pode causar admiração nem novidade, segue-se que nunca ria rindo sempre, pois não havia matéria que lhe motivasse o riso” (Cf. Vieira, 1957, p. 49). Seja como for, as justificações acerca do riso de Demócrito são apenas especulações curiosas.

Independentemente de suas razões para rir, o caráter sábio de Demócrito não pode ser dissuadido. A sabedoria, diz ele, tem origem no saber de três coisas: deliberar bem, falar sem erros e fazer o que é preciso, por conseguinte, dela nascem: o calcular bem, o falar bem e o fazer o que é preciso (Etimológico de Órion, p. 153, 5). Desse modo, no Sobre as Formas, o atomista diz ser preciso que o homem aprenda segundo a regra seguinte: “Ele está afastado da realidade”. E novamente: “Também este discurso mostra que em realidade nada sabe sobre nada, mas um afluxo é para cada um a opinião” (Sexto Empírico, Contra os Matemáticos, VII, 137). Assim, por convenção existe o doce e por convenção o amargo, por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor; na realidade, porém, os átomos e o vazio… Nós, apesar disso, realmente nada de preciso aprendemos, cabe-nos somente a mudança, segundo a disposição do corpo e das coisas que nele penetram e chocam, pois na verdade não compreendemos como cada coisa é ou não é (Sobre as Mudanças de Direções, Fundamentos, VIII, 135 e 136).

Não podendo conhecer a totalidade, há portanto duas espécies de conhecimento; um genuíno, outro obscuro. Ao conhecimento obscuro pertencem, no seu conjunto, vista, audição, olfato, paladar e tato. O conhecimento genuíno, porém, está separado daquele. Quando o obscuro não pode ver com maior minúcia, nem ouvir, nem sentir cheiro e sabor, nem perceber pelo tato, é preciso procurar mais finamente, então apresenta-se o genuíno que possui um órgão de conhecimento mais fino (Sobre a Lógica ou Cânon A B C, VII, 138). Se a medicina cura as doenças do corpo, a sabedoria livra a alma das paixões (Clemente de Alexandria, Exortação, Educador, I, 6) de modo que a natureza e a instrução são algo semelhante, pois a instrução transforma o homem, e, transformando-o, cria-lhe a natureza (Idem, Trapeçarias, IV, 151) uma vez que o homem é um microcosmo (Galeno, Do Uso das Partes, III, 10).

Por fim, quem escolhe os bens da alma, escolhe os divinos; e quem escolhe os bens do corpo, escolhe os humanos (Demócrates, 3). Contudo, uma vez que alguns homens, não conhecendo a dissolução da natureza mortal, mas discernindo os sofrimentos que ocorrem na vida, penam durante o período vital em meio de perturbações e temores, assim inventando histórias falsas sobre o tempo após o fim (Estobeu, IV, 52, 40); tenhamos, portanto, prudência em conformidade com as escolhas em detrimento das necessidade próprias da vida.

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Categoria: Ciências dos Números, Epistemologia, Filosofia Antiga, Filosofia da Natureza, Filosofia Pré-Socrática, Física

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Bruno Barreto Cordeiro Silva disse:

    Sua síntese foi perfeita, de fato a visão de Demócrito sobre a união do que não se separa(corpo e alma e entre outras coisas como os pensamentos das ações, como mostras no texto), na nossa cultura geralmente separada, teve que esperar o final do século xx pra voltar a existir no ocidente(de forma muito tímida) na física quântica que está voltando às antigas filosofias e voltando a unir o que não se separa, como o era antigamente,é a reciclagem histórica do conhecimento que aos poucos derrubam os mitos e tabus sociais, mas ainda assim, é de nossa escolha se vamos aceitar o que é sublime e de “real necessidade”,ao invés do “eterno fingimento” tão comum da atual cultura global, que mecaniza a natureza e a dissocia do ser humano, fazendo com que destrua seu habitat de forma tão irracional como se vê..É muito confortador que em meio a tudo isso existem pessoas que estão dispostas a não colocar a “candeia sob o alqueire”

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