Um manifesto intelectual

O movimento do pensamento não é de cima para baixo, do filósofo para o povo; mas o contrário: é da diferença que nasce a realidade.

Por outras palavras, os filósofos acabam por ser os últimos a saber, os que ficam, do alto dos seus palácios, a ver a vida acontecer. Eles não são, portanto, personagem principal em nenhuma das histórias da vida. Neles não corre o sangue daquele que bate de frente com a realidade. Heróis? Só um, e sempre o mesmo – a pessoa-comum.

Vejam o exemplo do Platão. Não é possível imaginá-lo numa das novelas do quotidiano. O Platão não erra; e também não vive.

“Mas ensinou-nos a pensar!”, contestar-me-ão alguns. No entanto, lembro que “O Bom-Senso é a coisa mais bem distribuída do mundo […], é por natureza igual em todos […]”, conclusão moderna que a história veio a confirmar. Bom-senso? O de ter de saber pensar! Sim, porque pensar é uma necessidade! Como viver sem um constante discriminar, sem resolver as infindas equações do dia-a-dia? Na discussão com os amigos, no embate com os [percebidos] inimigos, no drama das opiniões contrárias, eis que surge o impasse. Como resolver? Como decidir?

Assim é no nosso tempo; e assim foi também no grego tempo das vossas fantasias. Os marinheiros também (!) conversavam; viajavam; viam mundos radicalmente diferentes; e encalhavam noutros tão mais originais!

Assim, ontem como hoje, o mesmo deslumbre, esse espanto fantástico perante aquilo que é óbvio para a pessoa-comum – o momento-chave do saber.

Se a norma não enforma, se a lei não contempla, há que dar um jeito. Há que encontrar uma solução: no momento.

Assim, nesse quase-nada, no tropeção acidental do ter de ser porque de ser tem, a humanidade se descobre a pensar. Do vazio da decisão surge o legislador, monarca-instantâneo obrigado a agir: ali, ali mesmo, na necessidade absurda de precisar de continuar vivo para vivo continuar a viver (1859).

Portanto, é tempo então de depor os troféus empalhados desses cobardes de biblioteca que nos vão impondo como heróis; mentira contada por outros iguais. A História nunca lhes pertenceu! Apropriaram-se dos fatos, contaram um conto e inscreveram seus nomes numa enciclopédia. Tem a sua graça; mas é mentira.

Eis-nos, portanto, animais pensantes, o bicho-nicho da filosofia. Nosso reino construimo-lo nós – de baixo para cima. Esta vai ser A Nossa História.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia Social e Política

Sobre o(a) Autor(a) ()

Se publico tiro um retrato. Eis o meu registro público com que me publico, assim me tornando público. Dou assim parte parte de mim, a minha parte pública, a parte com que o público pode conversar, concordar ou discordar, refutar ou simplesmente ignorar. O público, na maior parte, nunca verá de mim mais que esta parte. Publicado o confirmo. É público este retrato — que tão mal me retrata.

Comentários (2)

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  1. Henrique,

    Estimei o modo como tuas palavras fluíram neste escrito, quase como fluem os ritmos poéticos. Mas muito além da estética do escrito, há algo que aqui me encantou muitíssimo; a tua temática já há algum tempo me tocava; eu me perguntava vezes e mais vezes: – as ideias filosóficas, por vezes coincidentes com a opinião do vulgo, tiveram sua influência no povo ou a ele influenciaram?

    Teu escrito, Henrique, dá uma luz a essa resposta, mas não consigo por ora me posicionar em concordância ou em discordância, parece-me cedo para palpitar. Talvez os filósofos sejam mesmo “os últimos a saber” [mas repito, talvez]. Contudo certamente quando eles sabem, ou se sabem, enxergam o que vêem de outra forma, isto é, profundamente, hermeticamente, penetrando na raiz do problema (ou do não-problema). Não sei se aqui tu concordarás comigo…

    Mas vamos lá!… não estou discordando de ti quando falas “o herói é a pessoa comum”, isso me soa muito coerente num sentido; é difícil ver um filósofo enquanto um apologista do fenômeno, do trabalho, da vida – a filosofia teria surgido do ócio? Por que, por exemplo, o “grande” Descartes por longo tempo teria se trancado num quarto senão por isso? Mas e os apologistas, não foram filósofos? Teriam sido maus apologistas, acabando a “vida” em loucura? Ou melhor, teriam sido apologistas?

    Talvez, é claro, se tivéssemos o bom-senso entre as pessoas, não precisaríamos do pensamento tão elaborado (será que só existem problemas morais?), mas, por outro lado, esse cenário ético do saber pode já ter mudado. Será que hoje o pensamento já não caminha em novos enredos? E daí você pode perguntar: – são caminhos necessários? Mas quando se fala em necessidade, eu já nem sei… Porém me “entreteria” numa questão outra, que volta ao ponto anterior: O bom senso!, por que comumente não o temos?

    Deixo aqui essa pergunta, e, é claro, entre ela estão os meus parabéns por teu manifesto.

    • De comum para comum, a urros que só primatas entendem, presto a reverência que a tua majestade-instantânea merece.

      Estamos sempre entre-portas; habitamos mundos concêntricos, excêntricos e paradoxais. É o que somos, é o que temos. Da obviedade do cotidiano nos resulta que possível não é escapar ao fado do corpo e ao peso da existência. O bom-senso ali referido é esse do imediato contato com a vida, o inenarrável momento de nos sentirmos no comando dessa estranha nave que tomamos como ‘a gente’.

      Nesse sentido, o ‘bom-senso’ é realmente a coisa mais bem distribuída do mundo’, pois tudo o que sabemos ou somos a ela remete. Nesse sentido também, ao ser de todos, não é de ninguém. Está armado o palco e levantado o cenário: resta a apresentação.

      Se é ‘bom’ ou não, isso descobres tu; o mesmo faço eu. Esta não é apenas história nossa, já que nós mesmos somos natureza. Se ainda está, bom seja; se continua, bom melhor será. Calha a todos decidir um caminho, já que com todos o mundo choca. Gente, como a gente, na vida. O filósofo não é exceção.

      Se compreendes a luta, a resposta está dada. E, assim, inutilmente relatando o que já sabias, de baixo para cima, desfaço o encanto.

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