Montaigne e a crise do arsenal criativo

É notório, no decorrer da produção histórica, que as vertentes pelas quais as instituições de ensino se apropriaram convergiram, paulatinamente, para o acúmulo de informações de forma bitolada, mecânica e sintética. A partir disso, os métodos utilizados para o aprendizado intelectual fizeram dos discentes um corpo cognitivo homogêneo ao interpelar, no processo estudantil, para um padrão típico de memorização.

Ensaios, Montaigne.

Ensaios, Montaigne.

Em uma das três obras de Michel de Montaigne (1533 – 1592), copiladas como Ensaios, o autor se atém à crítica da mimesis (conceito aristotélico que se refere à arte, aqui, como imitação da natureza) escolástica, a qual supervaloriza a erudição em detrimento da sabedoria. Herdeiros de uma cultura grega que identifica nos filósofos a fonte primária de superioridade intelectual, o escrito francês dirige uma reflexão pertinente à época que perpassa explicitamente os dias atuais: a educação serve, de fato, à formação de um pensamento livre e do senso ético ou se restringe à reprodução maçante de ideias e formas pré-estabelecidos?

Na História da Filosofia Clássica, Sócrates (aproximadamente 469 a.C. – 399 a.C.) delimita na maiêutica (técnica que pressupõe o exercício intelectual a partir de uma série de perguntas que objetivam atingir a Verdade, isto é, o conhecimento) a atitude subversiva de combate à nossa própria ignorância. É possível perceber que, ao escutar do oráculo de Delfos que ele seria o homem mais sábio de Atenas, Sócrates se questiona do porquê seria ele o detentor desse título.

Tal como Sócrates, Montaigne, em sua literatura, baseada, sobretudo, no estoicismo, prefere investir na sabedoria que advém de forma natural e é inerente à condição humana. Crítico ferrenho da pedância intelectual e do ensino livresco, o filósofo teme o método mnemônico (aquele o qual apela para memorização de forma simples, como a contagem dos meses de 30 ou 31 dias a partir dos nódulos presentes nos dedos) e explana que as crianças aprendem muito (e muito melhor) quando se debruçam a analisar as próprias reflexões. Autor da citação “melhor uma cabeça benfeita que bem cheia”, sucinta, em sua tese, as escolas à época como verdadeiros “cárceres” e dá ênfase à importância do ensino da Filosofia desde a infância, posto que vê no diálogo e no raciocínio de temáticas filosóficas o despertar de uma consciência crítica frente ao que os livros ministram.

Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla fece do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusãao é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se reconhecem como tal." Edgar Morin

“Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla fece do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se reconhecem como tal”, Edgar Morin.

Embora seja contemporâneo do Renascentismo, a realidade educacional que em nada apetecia o filósofo pode ser facilmente, hoje, no século XXI, reconhecida e reproduzida, ainda, como a melhor e mais benéfica opção no que concerne à aquisição do conhecimento. Os atuais estudos da Pedagogia retornam à reflexão do conhecimento estático, tão criticado na História da Filosofia, e já é possível perceber, em autores como Edgar Morin, a necessidade proeminente de uma reforma no âmbito escolar a fim de aguçar na relação professor-estudante, desde o princípio da vida acadêmica, a troca de informações de forma horizontal, sem a hierarquia categórica presente nas instituições educacionais.

Em última análise, é preciso, sim, que se construa uma gestão educacional participativa, democrática e que instigue o conhecimento a partir da expressão do pensamento de caráter particular – nem que tenhamos de re-educar nossos atuais professores. E um viva especial à metodologia libertária do pensamento!

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Categoria: Filosofia, Pedagogia, Pedagogia e aprendizagem filosófica

Sobre o(a) Autor(a) ()

Aspirante à escritora, é a catarse humana na terceira pessoa do singular. No que tange à vida pessoal, detém poucos atributos notáveis: nascida em 98, é ansiosa, tem compulsão por cafeína, milita como feminista e é fiel seguidora da prerrogativa de que a libido está em toda parte - principalmente nas cabeças de Platão, Maquiavel e Descartes.

Comentários (2)

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  1. O Monir Nasser, em uma palestra em ocasião do lançamento da edição do Trivium pela É REALIZAÇÕES, fala algo beeeem próximo disto, passando por Ivan Illich, no entanto, a conclusão dele é pró aristotélica e pró escolástica, apostando na educação clássica para uma melhor educação geral! Aí ficamos tendo de escolher entre: Uma educação e baixa qualidade mais horizontal, ou uma educação de altíssima qualidade, vertical… todo caso, sou militante da educação clássica, mas queria que esta pudesse ser mais horizontal, o que é dificílimo!!!

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