Conhecimento experimental

arteConstituída de carne e tecidos, sinto-me em perfeito funcionamento corporal conforme fui geneticamente capacitada em nascimento. Conjuntamente, entre sangue e estrutura cerebral, pergunto-me de onde vêm as afecções sentidas neste tronco sobre o qual vividamente movo. Embora sem desenvoltura técnica, identifico todos os meus membros harmonicamente movimentando-se em ondas vibrantes, posso experienciar a energia por eles emanada.
 
Marleau-Ponty certa vez disse que o corpo é uma obra de arte e sua linguagem é poética. De forma sensível aceito sua tese, pois posso experimenta-la. A motricidade de minha compleição física se manifesta pedagogicamente; surge então um arranjo para o conhecimento, o estético se manifesta contemplando traços significativos. A Fenomenologia da Percepção se revela no mundo vivido por uma consciência circunscrita no corpo e no juízo. Este último, compreendido não como uma representação mentalista, mas enquanto um discernimento substancialmente ligado ao movimento, desdobra-se numa fenomenologia existencial. Através d’O Visível e o Invisível posso compreender no homem uma consciência perceptiva não absoluta: sempre haverá o impensado, o invisível, o oculto. Por isso Marleau enfatiza o sentido do corpo e do sensível como uma realidade essencial do humano: o corpo não é coisa, nem ideia; o corpo é movimento, sensibilidade e expressão criadora.
 
Antes de viver e cuidar deste corpo, ou melhor, do meu corpo, eu procurava desligar-me do mesmo por supervalorizar a razão. Curiosamente foi Agostinho de Hipona quem me fez reconhecer a beldade do sensível. Claro, não que o cerne do pensamento agostiniano louve um materialismo caliginoso, longe disso. Mas o filósofo de Hipona compreende como o conhecimento provém dos sentidos, e estes proporcionam meios que são trazidos à memória e formados pelo indivíduo. Na obra Contra os Acadêmicos Agostinho diz que “o falso pode parecer aos sentidos como verdadeiro, mas não negais o fato de parecer“, ou seja, talvez os sentidos realmente não tenham a função de chegar à verdade, mas certamente revelam a aparência daquilo que é. Assim, também com o auxilio da sensação, as imagens podem ser compreendidas pelo intelecto. Diferentemente de alguns platônicos (como Plotino), Agostinho não vê no corpo o mal e o disforme, também pois, assim como o Logos, a matéria foi criação do divino, que é sumo Bem.
 
Embora eu não possa experienciar e por conseguinte julgar se este Bem existe, sei que o meu corpo existe. Foi meditando sobre tais questões, portanto, que fui capaz de perceber como o movimento corporal implica numa ação direcionada ao meu próprio pensamento. Quando estou a brincar de bambolê ou pulo corda, por exemplo, primeiro meu movimento se encontra em estado de potência e, somente quando vira ato, sinto-o de forma perfeita. Uma vez que outrora a perfeição foi definida por Aristóteles, além de outras duas formas, como o real ou atual quando cumpriu sua função e não há nada a tirar ou a acrescentar, percebo ser o movimento corporal a ação inteligente do corpo, a conexão do eu com a efetividade, uma das formas da perfeição.
 
Certa vez, olhando-me ao espelho, destrinchei a estrutura do meu tronco e percebi a aventura sensível, intelectual e lúdica que há na sensação. Além do mais, ainda com Aristóteles, aprendi o quanto amo o conhecimento, e “sinal disso é o amor pelas sensações por si mesmas, independentemente de sua utilidade”. Daí, pela consciência do corpo, passei a adquirir uma rica experiência de aprender pelo meu próprio ser. Isto porque minha mente provavelmente vem da capacidade de memorar do cérebro e, através das constantes experiências de movimento, meu conjunto sensível e intelectivo realizam uma desenvoltura pessoal.
 
Percebo então cada gesto, cada mistério lúdico entre a brincadeira e a beleza. Compreendo a dramaturgia do vir-a-ser do corpo entendendo-o como um pensamento vivo, conectando-se, interagindo e evoluindo junto da razão, da cultura e do ambiente a minha volta. Estou andando com meus próprios pés, pensando com minha própria mente, mas tocando este solo. Por esse corpo vejo o sensível, mas também compreendo o inteligível por trás das imagens e em comunhão com a razão. Meus sentidos estão ligados com minha forma de ser no mundo. Minhas dramaturgias corporais, por fim, são aquelas correlativas à logica cognitiva d’um corpo que se movimenta, que vem-a-ser, que é inteligente, e integralmente perfeito.

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Categoria: Artes e Letras, Filosofia, Filosofia da Arte, Pedagogia e aprendizagem filosófica, Poéticas do Corpo

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. administrador disse:

    É perfeito mesmo, como o texto o é também..E de fato, corpo é uma extensão também..É uma forma pensamento..Você expressa perfeitamente essa idéia

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