A Moral Provisória de Descartes

René Descartes

René Descartes (1559-1650)

Antes de ser filósofo o filosofante é um homem, por conseguinte, continua em contato com seu corpo, com outros homens e com o tempo e a cidade onde vive. Mais que isso, contínua e necessariamente ele deve agir, deliberar, fazer escolhas. Eis que surge um contratempo: no estágio da dúvida, enquanto se pode fazer uma suspensão de juízos, não é possível fazer uma suspensão de ações, como, afinal, atuar na vida até a construção do saber?

René Descartes foi quem manifestamente colocou em palavras esse impasse, elaborando assim uma moral provisória (ou “moral por provisão”, termo mais apropriado, segundo Étienne Gilson) capaz de lhe permitir ocupar-se com a busca da verdade sem remorsos. “Quem dera eu tivesse feito o mesmo sem antes rebelar-me por causas vãs!”, diria um filosofante. Nesse quesito Descartes foi mais sábio: apontou um pressuposto ético, isto é, que a boa moral pressupõe um conhecimento integral das outras ciências, justamente porque a mais elevada e mais perfeita moral é o último grau da sabedoria. Porquanto o homem não está alicerçado nas raízes da metafísica, no tronco da física e em seus ramos, a saber, a mecânica e a medicina, é preciso, porém, modificar seus próprios desejos no lugar da ordem mundo, conforme será explicado na sua terceira provisão, um alojamento temporário durante a construção do edifício do conhecimento.

Aliás, falar em edificação é um excelente termo para introduzir a filosofia cartesiana, pois, conforme escrito no Discurso do Método, para reconstruir a casa (metáfora ao conhecimento) onde se mora não basta derrubá-la ou prover-se de materiais e arquitetos, tampouco adestrar a si mesmo na arquitetura, é preciso antes se prover de outra casa onde possa alojar-se comodamente durante o tempo em que nela se trabalha.

Dessa forma Descartes apresenta a sua moral por provisão em quatro máximas, a saber:

  1. Obedecer às leis e aos costumes de meu país, retendo constantemente a religião em que Deus me concedeu a graça de ser instruído desde a infância, e governando-me, em tudo o mais, segundo as opiniões mais moderadas e as mais distanciadas do excesso, que fossem comumente acolhidas em prática pelos mais sensatos daqueles com os quais teria de viver.
  2. Ser o mais firme e o mais resoluto possível em minhas ações, e em não seguir menos constantemente do que se fossem muito seguras as opiniões mais duvidosas, sempre que eu me tivesse decidido a tanto. Imitando nisso os viajantes que, vendo-se extraviados nalguma floresta, não devem errar volteando, ora para um lado, ora para outro, [pois assim nunca sairiam dela…], mas caminhar sempre o mais reto possível para um mesmo lado, e não mudá-lo por fracas razões, ainda que no começo só o acaso talvez haja determinado a sua escolha.
  3. Procurar antes vencer a mim próprio do que à fortuna, e a de antes modificar os meus desejos do que a ordem do mundo; e, em geral, a de acostumar-me a crer que nada há que esteja inteiramente em nosso poder, exceto os nossos pensamentos.
  4. Enfim, para a conclusão dessa moral, deliberei passar em revista as diversas ocupações que os homens exercem nesta vida, para procurar escolher a melhor; e, sem que pretenda dizer nada sobre as dos outros, pensei que o melhor a fazer seria continuar naquela mesma em que me achava, isto é, empregar toda a minha vida em cultivar minha razão, e adiantar-me, o mais que pudesse, no conhecimento da verdade, segundo o método que me prescrevera.

(Discours de la méthode – Troisième Partie)

Enfim, desenvolvendo sua bilateralidade tanto de homem quanto de filósofo, Descartes se vê satisfeito, honroso e feliz ao seguir a sua vocação moralmente a fim de se libertar “de arrependimentos e remorsos que costumam agitar as consciências dos espíritos (…) vacilantes que se deixam levar inconstantemente a praticar como boas as coisas que depois julgam más” (Idem). Vê-se que, senão o maior, Descartes foi um dos maiores filósofos a ter bom senso, ou melhor, a aplicá-lo bem.

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Categoria: Epistemologia, Ética e Cidadania, Filosofia Moderna, Filosofia Social e Política, História da Filosofia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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