Duas perspectivas para lidar com a morte

| 06/03/2016 | 0 Comentários

“τοτε λεγει αυτοις περιλυπος εστιν η ψυχη μου εως θανατου” (Disse-lhes, então: Minha alma está triste até a morte.”) Jesus [ Mt 26.38]

Todavia, chegou a hora de partir: eu para a morte, e vós, ao  contrário, para a vida.” Sócrates [Platão, Apologia de Sócrates]

"O que eu sou tu também serás , o que tu és eu também já fui".

“O que eu sou tu também serás, o que tu és eu também já fui”.

Temer a morte é da natureza de todos os viventes (não incluo aqui o reino vegetal). Foi sabendo disso que Schopenhauer disse: “De fato, o temor da morte é independente de todo conhecimento, pois o animal o possui, ainda que não conheça a morte. Tudo o que nasce já traz consigo. Esse temor da morte a priori é justamente o reverso da vontade de vida, no fundo comum de nosso ser. Em cada animal, junto com o cuidado inato com a conservação está também o medo inato da aniquilação absoluta: é este, portanto, e não o simples desejo de evitar a dor, o que se manifesta na preocupação inquieta do animal, o que procura garantir a si próprio, e mais ainda à sua prole, contra todo inimigo capaz de lhe fazer mal. Por que o animal foge, treme e procura se esconder? Porque ele é pura vontade de vida, mas, como tal, destinado à morte, quer ganhar tempo. Nada nos arrasta tão irresistivelmente à mais viva simpatia do que a visão de um outro homem em perigo de morte; não há espetáculo mais medonho do que uma execução. O apego ilimitado à vida, que se mostra aqui, não pode provir do conhecimento e da reflexão; bem ao contrário, à luz de um exame ponderado tal apego parece insensato, pois o valor objetivo da vida é bem incerto, e é pelo menos duvidoso se a ela, a vida, não seria preferível o não-ser que deve prevalecer.” [1]

A Morte de Sócrates, óleo sobre tela de Jacques-Louis David.

A Morte de Sócrates, óleo sobre tela de Jacques-Louis David.

Todos temem a morte ou será que um ou outro foge a regra natural? Sabemos que Sócrates, o grande pensador grego, encarou a morte com uma serenidade anormal. De maneira contrastante, Jesus, o Cristo, enfrenta o momento final com grande temor, angústia e lágrimas. Como explicar esse fenômeno? Em parte podemos explicar simplesmente se focarmos nossa visão no pensamento grego sobre a morte, e de igual modo, analisarmos o pensamento judaico sobre tal. A crença grega socrático/platônica entendia que a alma era imortal “nosso corpo é um invólucro exterior que, enquanto vivemos, impede a alma de mover-se livremente e viver conforme sua natureza eterna. Impõe-lhe uma lei que não é válida para ela: a alma está encerrada no corpo como numa camisa de força, em uma prisão. A morte é a grande libertadora.”[2]  (grifo meu) Na morte de Sócrates o horror está completamente ausente e a morte é vista como uma grande amiga da alma. Sobre a imortalidade da alma Schopenhauer acrescenta: “Também a esperança de uma imortalidade da alma vem sempre ligada à de um mundo melhor, prova de que o mundo presente não vale muita coisa.”[3] Sem discorrer muito sobre o assunto (não é pois nossa intenção aqui) fica em evidência que a crença na imortalidade da alma era comum à época socrática. Agora nos perguntamos: e Jesus? Como o Filho de Deus encarou esse momento decisivo? O teólogo protestante Oscar Cullman nos diz que Os evangelhos sinópticos concordam entre si, grosso modo, no relato do Getsêmani. Jesus começa a “sentir tremor e angústia” escreve Marcos (14.34). “Minha alma está triste até a morte”, disse aos discípulos. Jesus tem medo. Roga ao Pai pedindo que lhe seja passado o cálice (Mc14.36). Segundo Cullman “Jesus sabe que a morte em si mesma, como inimiga de Deus, significa o extremo distanciamento, solidão radical.”[4] A morte, pela ótica judaica (afinal Jesus era um judeu) é negativamente considerada; é distanciamento de Deus 1. Solidão “Deus meu, Deus meu por que me abandonaste?” (vide Salmos 22.1 e compare com Mateus 27.46).

O ser está aí para a morte. A morte, assim concebe Heidegger, é a última situação-limite do homem. o Dasein é um “ser para-o-fim” (Sein-zum-ende), fundamentalmente um “ser-para-a-morte” (Sein-zum-tode).[5]  Sendo a morte inevitável como devemos encará-la? Com um medo mórbido do aniquilamento total? Com tranquilidade serena? que  no fim último nossa alma se resignará?

Living Up to Death, Paul Ricoeur.

Living Up to Death, Paul Ricoeur.

Paul Ricouer (1913-2005), pouco antes de morrer escreveu alguns fragmentos publicados com o título de VIVO ATÉ A MORTE, seguido de fragmentos (Vivant jusqu’ à la mort suiv de fragments). Eu classificaria o livro como um luto das representações. No prefácio de Oliver Abel assim está escrito: É aqui que o luto das representações se revela um momento fundamental no trabalho do luto e da finitude aceitada de ter nascido e ser mortal, nessa dialética da recusa e do consentimento que ele explorou tão magnificamente outrora. [6] Em sua reflexão Ricouer escreve: “A ideia de que terei de morrer um dia, não sei quando, nem como, veicula uma certeza assaz flutuante para agir sobre o desejo (…) desejo de ser, esforço para existir. Sei tudo o que foi dito e escrito sobre a angústia do não mais ser mais um dia.”[7] Me parece que neste livro Ricouer mantém um fundo cristão. Ainda nos rascunhos iniciais ele se pergunta: “Ainda sou cristão?“; cita Isaias 40.7-8. Embora o texto bíblico não esteja escrito podemos verificar por nós mesmos o que diz as Escrituras.

Seca a erva e murcha a flor,
quando o vento de Iahwé sopra sobre elas;
(com efeito, o povo é a erva)
seca a erva, murcha a flor,
mas a palavra do nosso Deus subsiste para sempre.

(Bíblia de Jerusalém)

Fica evidente que Ricoeur faz alusão à brevidade da vida. A brevidade da sua vida. E, agora, ele lucidamente encara seu fim transcendendo a si mesmo através da escrita. Escrever é permanecer. Segundo Oliver Abel “O autor (no caso Ricoeur) é, conforme escrevia em seu fragmento sobre Watteau, como que obrigado a se encerrar tristemente no âmbito limitado do tempo mortal, enquanto seus escritos, seus pensamentos podem se excetuar desse âmbito e se reinserir no tempo trans-histórico da recepção da obra por outros viventes que têm seu tempo próprio'” [8]

Em seu livro APRESENTAÇÃO DA FILOSOFIA André Comte-Sponville, no capítulo sobre a morte, diz:

A morte constitui, para o pensamento, um objeto necessário e impossível. Necessário, já que toda a nossa vida traz sua marca (…) Mas impossível, já que não há nada, na morte, a pensar. O que é ela? Não sabemos. Não podemos saber.

À pergunta “o que é a morte?”, os filósofos não param de responder. Toda uma parte da metafísica se joga aí. Mas suas respostas, para simplificar ao extremo, se dividem em dois campos: uns que dizem que a morte não é nada; outros que afirmam que é outra vida, ou a mesma vida continuada, purificada, libertada… São duas maneiras de negá-la: como nada, já que o nada não é nada, ou como vida, já que a morte nesse caso, seria uma vida. Pensar a morte é dissolvê-la: o objeto, necessariamente, escapa. [9]

A morte como nada vem das ideias epicuristas, ao passo que a morte como continuidade da vida, remonta a Platão e, posteriormente, ao cristianismo. A mim, parece que Ricoeur oscila entre uma resposta e outra, porém, ao final de sua reflexão, fica com a grande incógnita. “Todas as respostas dadas pelas culturas acerca da sobrevivência dos mortos se inserem nessa questão não questionada: passagem a outro estado de ser, espera de ressurreição, reencarnação ou, para espíritos mais filosóficos, mudança de estatuto temporal, elevação de uma eternidade imortal. Mas essas respostas são respostas a uma questão formuladas pelos sobreviventes acerca da sorte dos mortos já mortos.”[10] Em outras palavras: a morte só pode ser pensada enquanto vivo, ou só os mortos sabem o que é a morte. Portanto, nós, os vivos, nada sabemos ou podemos saber.

"Filosofar é aprender a morrer".

“Filosofar é aprender a morrer”.

Meu louvor a Paul Ricoeur é que, mesmo no fim da vida, e sentindo essa brevidade iminente, ainda assim, com serenidade, foi capaz de refletir sobre seu próprio fim, mesmo angustiado até a morte Ricoeur tinha em mente que só a partir da vida essa reflexão seria possível. Discursar sobre a morte é magnificar a vida. Filosofar é aprender a morrer.

Quero chamar a atenção do leitor para um outro intelectual, de menor envergadura que Ricoeur, mas nem por isso menos importante. Christopher Hitchens (1949-2011) foi um dos intelectuais mais influentes e controversos das últimas décadas. Defensor intransigente do ateísmo, escreveu e atacou sistematicamente o cristianismo. Seu livro mais conhecido, sem dúvidas é o DEUS NÃO É GRANDE, como a religião envenena tudo. Neste seu penúltimo livro, “Hitchens não poupa argumentos para mostrar o quanto a crença generalizada é nociva para a sociedade. Enumera com precisão os problemas causados pela influência religiosa, os efeitos deletérios da alienação e os absurdos contidos nos dogmas sagrados. Sua ira não é disfarçada; Hitchens desfere um golpe atrás do outro, com uma precisão argumentativa formidável, fruto de anos de experiência como ensaísta e correspondente internacional, além de um vasto conhecimento literário e filosófico. Ninguém é poupado: do cristianismo ao islamismo passando pelo judaísmo, o autor mostra que mesmo as religiões orientais, tão aclamadas como pacíficas e serenas, também são causadoras de sofrimento e morte.”[11] Hitchens é considerado herdeiro intelectual de George Orwell e de Thomas Paine, personalidades que admirava. Eu tive a oportunidade de ler o último livro de Hitchens, ÚLTIMAS PALAVRAS. Neste livro, ele descreve de forma lúcida sua luta contra a doença e como se manteve fiel às suas convicções.

Death has this much to be said for it:
You don’t have  to get out of bed for it.
Wherever you happen to be
They bring it to you – free. 2  

Kingsley Amis

“Mais de uma vez em minha vida acordei com a sensação de estar morto. Mas nada me preparou para o começo da manhã de junho em que recobrei a consciência sentindo-me como que acorrentado a meu próprio cadáver”.[12] Com essas palavras Christopher Hitchens inicia seu escrito para morte. Como que uma despedida da vida. Sim, o senhor Hitchens estava com câncer. Só lhe restavam poucos meses de vida. Como encarar a morte assim tão de perto e tão certeira? Com a serenidade socrática ou com a angústia gritante de Jesus? Hitchens escolhe a primeira opção. É bem verdade que ao contrário de Sócrates ele não esperava uma continuidade vital transcendente. Ele pende para o epicurismo/estoicismo 3. Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, isto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações.[13]. Em seu cepticismo Hitchens não espera  encontrar vida do outro lado. Seu lema é “há vida antes da morte”. Esse é o lema de todo ateu.

Como dissemos anteriormente Hitchens se mantém fiel à sua ideologia. A todo momento ironiza e não perde uma oportunidade de alfinetar a religião, especialmente o cristianismo. Em um trecho ele escreve:

Nessas circunstâncias, a inutilidade da prece é quase menos importante. Além dessa futilidade menor, a religião que trata seu rebanho como um brinquedinho crédulo oferece um dos espetáculos mais cruéis que podem ser imaginados: Um ser humano com medo e dúvida que é explicitamente explorado a acreditar no impossível. (pág 32)

Ainda:

O homem que reza é aquele que acha  que Deus dispôs as coisas todas erradas, mas que também acredita que pode instruir Deus sobre como corrigir tudo. (pág 30)

Quando expôs publicamente que estava doente, Hitchens leu o seguinte comentário de um fiel religioso:

Quem mais acha que Christopher Hitchens ter câncer de garganta terminal [sic] foi a vingança de Deus por ele usar sua voz para blasfemá-lo? Ateus gostam de ignorar fatos. Gostam de agir como se tudo fosse um “coincidência”. Verdade? É apenas “coincidência” [que] de todas as partes de seu corpo Christopher Hitchens tenha conseguido um câncer na única parte de seu corpo que usou para blasfemar? Tá, continuem acreditando nisso, ateus. Ele vai se contorcer de agonia e dor e se reduzir a nada, e depois de ter uma horrível morte agonizante, e então vem a parte realmente divertida, quando ele é mandado para sempre para o fogo do inferno, para ser torturado e queimado. (pág 23,24)

Sobre esse comentário “cristão”, Hitchens levanta ao menos quatro objeções: (1) qual mero primata está tão desgraçadamente certo que pode conhecer a mente de Deus? (2) esse autor anônimo quer que seus pontos de vista sejam lidos pelos meus filhos inocentes que também estão passando por um mau momento, obra desse mesmo deus? (3) por que não lançar um raio sobre mim, ou algo similarmente assombroso? A divindade vingativa tem um arsenal tristemente pobre se a única coisa que consegue pensar é exatamente o câncer que minha idade e “estilo de vida” sugeriam que eu pudesse ter. (4) afinal de contas por que câncer? Minha garganta até o momento não cancerosa, apresso-me a garantir a meu correspondente cristão acima, não é de modo algum o único órgão por meio do qual blasfemei. E mesmo que minha voz desapareça antes de mim, continuarei a escrever polêmicas contra ilusões religiosas, pelo menos até dizer alô à minha velha amiga, a escuridão.

O livro está incompleto. Hitchens faleceu antes. É um livro póstumo. Para quem ler o livro perceberá que estas Últimas Palavras são livres de sentimentalismos e autopiedade. Sobre ele Richard Dawkins escreveu:

Christopher Hitchens foi o maior orador de nossa época, meu companheiro de batalha, sempre valente no combate a  todos os tiranos, inclusive Deus.

E Martin Amis diz:

Ele foi um dos retóricos mais aterrorizantes que o mundo já viu.

Arthur Schopenhauer acredita que o apego à vida é irracional e cego. Em suas palavras:

O conhecimento, ao contrário, bem longe de ser a origem daquele apego à vida, atua em sentido oposto, na medida em que desvela a ausência de valor desta  e, assim, combate o medo da morte. Quando o conhecimento vence, e por conseguinte o ser humano vai corajoso e sereno de encontro à morte; então esse humano é honrado como grandioso e nobre e festejamos o triunfo do conhecimento sobre a cega Vontade de vida, que, no entanto, é o núcleo do nosso próprio ser.[14] In gladiatoris pugnis timidos et supplices, et, ut vivere liceat, obsecrantes etiam odisse solemus; fortes et animosus, et se acriter ipsos morti offerentes servare cupimus. Cic. Pro Milone, c. 34.4

Para Schopenhauer o desprezo à vida é algo nobre. Ele elenca quatro considerações que o confirmam. (1) a Vontade de vida é a essência mais íntima do ser humano; (2) ela é em si desprovida de conhecimento, cega; (3) o conhecimento é um princípio originariamente estranho, acrescido à Vontade; (4) o conhecimento luta contra a Vontade, e o nosso juízo aprova a vitória do  conhecimento sobre a vontade.

É certo que Hitchens está entre aqueles que se valeram do conhecimento em detrimento à ignorância, do apego cego à vida. Ora, se a morte é inevitável, quando ela vier por que lutar e espernear? “Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar esperas só por mim/ E no teu beijo provar o gosto estranho/ Que eu quero e não desejo/ Mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar./ Eu te detesto e amo morte, morte, morte/ Que talvez seja o segredo desta vida/ Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.” Cantava Raul Seixas.

O Homem diante da morte, Philippe Ariès.

O Homem diante da morte, Philippe Ariès.

Philippe Ariès no livro O Homem diante da morte (Ed. Unesp) diz (referindo-se ao período medieval) que a característica da morte é que ela dava tempo de ser percebida. “Mesmo quando acompanhado de prodígios, considera-se um fenômeno absolutamente natural que a morte se fizesse anunciar.”[15] Cabe pois ao homem individual interpretar sua vinda. José Saramago, ironizando com a Morte, cria o seguinte diálogo no livro As Intermitências da Morte (Ed Cia das letras):

“Porque cada um de vós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertence-lhe, E os animais, e os vegetais, Suponho que com eles se passará o mesmo, Cada qual com sua morte, Assim é, Então as mortes são muitas, tantas como os seres vivos que existiram, existem e existirão (…)” (pág 73)

As “Mortes” podem ser muitas, mas, cada um a experimenta individualmente. “Embora todo homem, por seus próprios meios, tente adiar o encontro com estes problemas e estas perguntas enquanto não for forçado a enfrentá-los, só será capaz de mudar as coisas quando começar a refletir sobre a própria morte, o que não pode ser feito no nível de massa, o que não pode ser feito por computadores, o que deve ser feito por todo ser humano individualmente.”[16]

O túmulo de Carl Sagan no Cemitério Lakeview em Ithaca, Nova York.

O túmulo de Carl Sagan no Cemitério Lakeview em Ithaca, Nova York.

Outro ser humano extraordinário foi Carl Sagan (1934-1996). Tal qual um gladiatoris, Sagan encarou sua própria morte com coragem destemida. Assim como Hitchens, utilizou as âncoras do conhecimento em detrimento da angústia irracional. Em seu livro Bilhões e Bilhões (Cia das Letras), dedica um capítulo inteiro sobre como descobriu a enfermidade que o ceifaria e como encarou esse momento tão difícil.

Já encarei a morte seis vezes. E seis vezes a morte desviou seu olhar e me deixou passar. É claro que ela vai acabar  me levando, como faz com todos nós. É só uma questão de quando. E como. [17]

Em algum momento, Sagan é tão irônico quanto Hitchens. “Na verdade quase morrer é uma experiência tão positiva e construtora do caráter que a recomendaria a todos…” Em outro momento, Sagan parece tão epicurista/estoico quanto aquele. “Mas, se a morte nada mais é do que um interminável sono sem sonhos, essa é uma esperança perdida. Talvez essa perspectiva tenha me dado uma pequena motivação extra para continuar vivo.” Tais pensamentos podiam até lhe dá motivação, mas continuar vivo, não. Sagan sofria de uma doença rara da qual “nunca ouvira falar antes”, mielodisplasia. Enfermidade de origem desconhecida. Suas chances eram zero. Restava-lhe pouquíssimo tempo de vida. Meses talvez. Que faria Carl Sagan diante da sentença de morte? Serenidade socrática ou apego irracional à vida quanto Cristo? Sagan, assim como a maioria dos humanos, gostaria de permanecer.

Gostaria de acreditar que, ao morrer, vou viver novamente, que a parte de mim que pensa, sente e recorda vai continuar. Mas, por mais que deseje acreditar nisso, e apesar das antigas tradições culturais difundidas em todo mundo que afirmam haver vida após a morte, não sei de nada que me sugira que essa afirmação não passa de wihful thinking .(pàg 232)

Com todo horror que a morte possa ter é preferível encará-la de frente, sem wihful thinking [pensamento ilusório] mas com o conhecimento. Conhecimento da finitude e da nossa impotência ante a natureza. Encarar a morte sem subterfúgios é uma virtude de poucos.

O mundo é tão refinado, com tanto amor e profundidade moral, que não há razão para nos enganarmos com histórias bonitas, para as quais não há muitas evidências. A meu ver, em nossa vulnerabilidade é muito melhor encarar a morte de frente e agradecer todos os dias pela oportunidade breve, mas magnífica que a vida nos concede. (pág 233)

No epílogo do Bilhões e bilhões a esposa de Sagan, Ann Druyan, assim encerra:

Estou cercada por pacotes do correio, cartas de pessoas de todo o planeta que lamentam a perda de Carl. Muitos lhe dão o crédito por tê-los despertado. Alguns dizem que o exemplo de Carl os inspirou a trabalhar pela ciência e pela razão contra as forças da superstição e do fundamentalismo. Esses pensamentos me consolam e me resgatam de minha dor. Permitem que eu sinta, sem recorrer ao sobrenatural, que Carl vive. (pág 247)

Por fim, destaco agora mais um intelectual que diante da morte certa não se resignou. Não partiu para a autopiedade e lamúria. estou falando do neurologista e escritor britânico Oliver Sacks (1933-2015). pouco antes de morrer, inspirado por David Hume, Sacks escreve uma carta comovente sobre o fim que lhe aguardava.

Hume, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha própria vida“. Oliver Sacks pegou o título emprestado para um ensaio no New York Times em que contou de um câncer diagnosticado em 2005 que teve metástase em seu fígado. Assim como os demais doentes terminais, Sacks contava com pouco tempo de vida. Nas suas palavras “Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.” Segue abaixo um trecho da carta de Oliver Sacks que pode ser encontrada no site wwwpragmatismopolitico.com.br/2015/02/a-carta-de-adeus-de-oliver-sacks.html. consulta em 27/02/2016.

Nos últimos dias, pude ver minha vida de outro ângulo, como uma paisagem, e com um forte senso de conexão entre as partes. Isso não significa que me entreguei. Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e eu quero e espero, no tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, me despedir das pessoas que amo, escrever mais, viajar se eu tiver forças, e alcançar novos conhecimentos. Mas também haverá tempo para um pouco de diversão (e até algumas tolices).

Tenho um novo senso de perspectiva. Não há tempo para o que é trivial. Tenho que focar em mim, no meu trabalho e nos meus amigos”, diz o escritor que promete ficar distante do noticiário, da política e dos problemas ambientais em seus últimos meses de vida. “Isto não é indiferença, mas desapego – ainda me importo com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a igualdade, mas estas coisas não são mais para mim, elas pertencem ao futuro. E eu fico feliz de ver jovens talentosos – como o que diagnosticou minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Eu amei e fui amado; doei-me e muito me foi dado; eu li, viajei, pensei e escrevi. Eu me relacionei com o mundo, o relacionamento especial entre escritores e leitores. Acima de tudo, eu fui um ser humano ciente, um animal pensante, neste belo planeta, e só isso já foi um enorme privilégio e aventura.

Sacks diz “Isto não é indiferença, mas desapego…” Eu não sei bem o que ele tem em mente. Mas essa atitude nos remonta ao que disse Schopenhauer anteriormente citado: O apego ilimitado à vida, que se mostra aqui, não pode provir do conhecimento e da reflexão. Assim como vimos em Hitchens e em Sagan aqui também, em Sacks, vemos um fundo tênue de estoicismo. Discursando sobre a doutrina estoica da salvação, Luc Ferry diz:

Ela [a salvação estoica] nos promete a eternidade, de fato, mas sob uma forma anônima, a de um fragmento inconsciente do cosmos [“O fato fascinante sobre estar mortalmente doente é que você passa bastante tempo se preparando para morrer com um bocadinho de estoicismo…” como dirá Hitchens; ou “se a morte nada mais é do que um interminável sono sem sonhos…” como dirá Sagan 5]: a morte, para ela, é apenas uma passagem, mas a transição se dá justamente entre um estado pessoal e consciente, o do tu e do eu como pessoas vivas e pensantes, a um estado de fusão com o cosmos no decorrer do qual perdemos tudo o que constitui nossa individualidade consciente. [18]

Ainda falando sobre o estoicismo Ferry diz, citando Epicteto:

…Lembra-te que amas um mortal, um ser que não é absolutamente tu mesmo. Ele te foi concedido para o momento, mas não para sempre, nem sem que te possa ser tomado… que mal existe em murmurar  entre dentes, enquanto se abraça o filho: “Amanhã ele morrerá”?

Oliver Sacks prossegue em sua carta de adeus:

(…) tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. (…) Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Ela deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino, o destino genético e neural, de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte. [Grifo meu]

Apresentei até aqui duas posições que o homem toma (ou não) diante da morte. Um modelo Socrático/platônico em que a morte é vista como a amiga da alma. Aquela que a liberta. A morte, nessa perspectiva, seria ganho. No Apologia de Sócrates temos as seguintes palavras atribuídas a Sócrates:

Ora, se a morte é não ter  mais qualquer sensação, mas é como um  sono que se tem quando ao dormir não se vê mais nada nem em sonho, então a morte seria um ganho maravilhoso.[19]

The Capuchin Crypt.

The Capuchin Crypt.

E, um modelo cristão, em que a morte é vista como inimiga. Em I Co 15.26 escreve o apóstolo Paulo: εσχατος εχθρος καταργειται ο θανατος (O último inimigo a ser destruído é a morte. – NVI) A morte na concepção cristã não é simplesmente algo natural, querido por Deus, como concebia o pensamento grego, mas é algo anormal e contrário à natureza, oposto à intenção divina. No texto paulino de I Co 15.26 aparece um abismo entre o pensamento grego e a fé judaica e cristã. Usando outras expressões, o autor do Apocalipse considera igualmente a morte como o último inimigo, quando descreve como, no fim, ela é lançada no lago de fogo; και ο θανατος και ο αδης εβληθησαν εις την λιμνην του πυρος ουτος εστιν ο δευτερος θανατος (20.14)

Assim temos pois o contraste entre o pensamento grego/socrático: serenidade ante a morte e crença na imortalidade da alma; e a doutrina cristã, vendo a morte como a separação da Vida, isto é, de Deus, logo, a crença cristã é da ressurreição. (vide I Co cáp 15).

Tomei como empréstimo apenas a serenidade de Sócrates ante o fim e o comparei com a serenidade dos intelectuais acima citados, ou seja: Ricoeur, Hitchens, Sagan e Sacks. Entendo que a posição de ambos se aproxima mais do pensamento grego especialmente dos estoicos. Eu levaria muito tempo explanando os motivos que me levaram a tais conclusões, mas, por agora, já me estendi demais e não era esse o objetivo inicial. No demais acredito  que a problemática da morte levará muito tempo para ser respondida satisfatoriamente (se é que será um dia respondida). Por enquanto ficamos apenas com as dúvidas.


Notas

[1] [3] SCHOPENHAUER, Arthur. Da Morte. São Paulo, Martin Claret 5ª reimpressão 2008.

[2] [4] CULLMAN, Oscar. Origens do evangelho, das – à formação da teologia cristã. São Paulo. Fonte editorial, 2000.

[5] PENHA, João da. O que é existencialismo. São Paulo. Ed Brasiliense (Coleção primeiros passos) 4ª edição 1982.

[6] [7] [8] [10]RICOEUR, Paul. Vivo até a morte. São Paulo. Martins Fontes, 2012.

[9] COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da filosofia. São Paulo. Martins Fontes, 2011.

[11] www.papodeprimata.com.br consultado em 27/02/2016

[12] HITCHENS, Christopher. Últimas Palavras. São Paulo. Ed Globo 2012.

[13] EPICURO. Carta sobre a felicidade (A Meneceu) São paulo. Ed Unesp 2002.

[14] SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como vontade e como representação (Tomo II). São Paulo. Ed Unesp, 2015

[15] ARIÈS, Philippe. O Homem diante da morte. São Paulo, Ed Unesp 2013.

[16] KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo. Ed Martins Fontes,  2012.

[17] SAGAN, Carl. Bilhões e bilhões, reflexões sobre vida e morte na virada do milênio. São Paulo. Cia das Letras, 1998.

[18] FERRY, Luc. Aprender a viver, filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro. Ed Objetiva 2006.

[19] REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da filosofia (vol I) São Paulo. Ed Paulus (6ª reimpressão) 2014.

  1. Para um comentário mais aprofundado sobre a morte de Sócrates em contraste com a morte de Cristo, aconselho que o leitor verifique o livro de Oscar Cullman DAS ORIGENS DO EVANGELHO, à formação da teologia cristã, sobretudo o capítulo “Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos?”
  2. (Isso se pode dizer da morte:

Você não precisa sair da cama por ela;

Onde quer que esteja

Eles a levam a você – de graça.)

  1. Hitchens não se declara epicurista. Eu que estou falando. Porém minha suspeita vêm das seguintes palavras “O fato fascinante sobre estar mortalmente doente é que você passa bastante tempo se preparando para morrer com um bocadinho de estoicismo… (pág 25) O estoicismo em parte é muito parecido com o epicurismo sobretudo no materialismo.
  2. Na luta dos gladiadores abominamos os tímidos e suplicantes que imploram pela sua vida; já dos valentes e animosos, que a si mesmos se oferecem tempestuosos à morte, procuramos conservar a vida.
  3. Os comentário entre colchetes não estão no texto original do Luc Ferry. São acréscimos meus do qual me responsabilizo por minha particular interpretação.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Cristianismo, Existência, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Religião

Sobre o(a) Autor(a) ()

Faço licenciatura em Filosofia pelo UNIFAI. Anteriormente cursei teologia e históra. Escrevo periodicamente em meu Blog Retratos da Alma (erivan82.blogspot.com.br).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas