Memento mori

Memento mori, dai-me a virtude de um epílogo sereno
encontra-me uma morte sem vergonhas e sem dores
lembra-me da afluência, do limite, do transitivo
dai-me um fim sem escrúpulos e sem pudores

Memento mori, és a transitoriedade, el morto, o negativo
um corpo apático e módico como o homem-mortal Al Berto

Memento mori, te lembras de que vais morrer
serás thánatos, mortuus est, o malum da sorte
Memento mori, lembra-te da morte!

Tu; eis que tens parte de mim no seio do óbto; o fato, o faro,
o objeto da visão a assentir o imanente e livre fenômeno
eis que tens a mulher e homem desnudo sob seu último alento
e se piedoso, um propínquo fim inexorável, vivo e congênito
e se justo, as lágrimas cairão dos olhos mas sem dores e sem vergonhas,
sem pudores e sem artimanhas tal como a morte que desejo

Memento mori, tu alimentas a fome e a sede de justiça que nosostos temos
Memento mori, clamo que silencies-me pelas entrelinhas das quais grito com fiúza:

“Homem-Al Berto, juvenil sois tu;
desculpaste a cósmica justiça da vida
que se injusta poderíamos não-ser
{Felizes dos homens que não nasceram,
felizes dos homens que da terra nunca pereceram}
Nós, nascentes, entretanto, conhecemos:
não foi a moral que fez o cosmos,
existimos nós a sós entre seres.

Menino-Al Berto, ‘que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte’

Ser-Al Berto, ‘que te seja leve o peso das estrelas’
Al Berto, que me seja livre o fechar dos olhos
Al Berto, que tu saibas: não tenho como viver
mas Al Berto, tu já sabes: sequer posso morrer”
e quiçá muito antes de ti, homem-Al Berto,
outro-homem-grego já conhecia:

“Loucos os que têm pensamento de curto alcance
e esperam que nasçam o que antes não existia
ou que algo possa morrer e ser totalmente destruído”
quiçá verdadeiramente outrora Empédocles encorajaria
cevando sua condição humana pelo fogo
que sua própria morte mataria

Mas ser-aí-Al Berto, tu não te chamaste deus, não conheceste o suicídio
foste poeta moderno, um hodierno fruto de teus versos

Memento mori“, declamaste nomes, encantos profundos
versos em latim repetidas vezes por incontáveis segundos

Memento mori!”, “memento mori!”, “memento mori!”…

Ecoaste da palavra tão morta em significado
tal-qualmente morta em tão vazio significante
Memento mori, tu já morreste aquém da razão
Memento mori, a morte é tua única contradição

Memento mori, memento mori, memento mori,
Aceita a vida e uma póstuma ressurreição

Memento mori, por um momento verás que és carpe diem
Memento mori, do falso ao solstício, do solstício ao silêncio
Memento mori, do silêncio à perfeição

Memento mori, memento mori, memento mori

Memento mori, e o que seria do tédio sem a lembrança do tempo?
Memento mori, e o que seria do amor sem a má providência da sorte?
Memento mori, afinal, o que seria da vida sem a lembrança da morte?

Categoria: Poesias

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Bruno Barreto Cordeiro Silva disse:

    Lindo! Mais uma obra de arte em vários sentidos diferentes. Onde o moderno aparece tão clássico acabo viajando num eu profundo e da Agora, passando de Jerusalém ao pós-modernismo… Um longo e bom silencio sempre que o leio!

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