“Os filósofos são pessoas à parte e estranhas”

A escola de Aristóteles, afresco de Gustav Adolph Spangenberg, 1883-1888

Afresco de Gustav Adolph Spangenberg, 1883-1888

Não basta o título deste escrito, é preciso salientar novamente o que Pierre Hadot manifestou com êxito em determinada sexta-feira de 1983: “Os filósofos então são pessoas à parte e estranhas“. E ele disse mais: A filosofia está em toda parte, nos discursos, nos romances, na poesia, na ciência, até mesmo na arte; “todavia, é preciso não se enganar, há um abismo entre essas ideias gerais, esses lugares-comuns, que podem ornar um desenvolvimento literário e o verdadeiro ‘filosofar’”.

Façamos em vista disso distinções entre o recurso filosófico e a própria Filosofia, pois seja dito de passagem: nem tudo que faz um homem filosofar constitui o que a Filosofia é, e não é porque um homem alguma vez filosofou que o mesmo será um filósofo. Efetivamente, por exemplo, artistas utilizam-se de pensamentos espontâneos, fora do senso comum e por conseguinte, dizem alguns homens, “filosóficos”. Do mesmo modo o filósofo costuma fazer uso da arte em razão de que a a própria escrita é um recurso artístico. Ora, o artista se utiliza do pensamento livre, o filósofo se utiliza da arte; mas o artista não é um filósofo, o filósofo não é um artista.

Brinquemos assim com as palavras sem tornarmo-nos brincalhões: exporei meu desgosto pelo álcool, substância esta que corrompe nossas funções hepáticas. Ainda assim, agora, amanhã e mesmo depois de amanhã posso beber vinho ininterruptamente, mas continuarei sem receber o título de alcoolista; noutro caso, assim como fumar uma ou algumas vezes não me fará um fumante, filosofar nem sempre fará de mim uma filósofa. Os céticos, por exemplo, anunciavam sua escolha pela conformação à conduta comum da vida, mas não eram comuns, continuavam filósofos. Eles recriminavam, conta-nos Hadot, os outros pensadores por não seguir a maneira habitual de ver e agir, que consistia no respeito aos costumes e às leis, na prática das técnicas artísticas ou econômicas, na satisfação das necessidade do corpo, na fé nas aparências, indispensável para o agir. E o nosso bom comentador destaca o seguinte: é precisamente essa ruptura do filósofo com as condutas da vida cotidiana que é sentida fortemente pelos não filósofos, como nos autores cômicos e satíricos, onde os filósofos aparecem como personagens bizarros, ou nos antigos juristas que, segundo Ulpiano, não se ocupavam dos filósofos “pois eles mesmos professavam desprezar o dinheiro”; assim, novamente, “os filósofos são então pessoas à parte e estranhas”.

Estranhos, com efeito, esses epicuristas que levam uma vida frugal praticando em seu círculo filosófico uma igualdade total entre homens e mulheres e até entre mulheres casadas e cortesãs; estranhos esses estoicos romanos que administram de maneira desinteressada as províncias do Império que lhes são confiadas e são os únicos a levar a sério as prescrições das leis editadas contra o luxo; estranho esse platônico romano, o senador Rogaciano, discípulo de Plotino, que no dia em que devia assumir as funções de pretor renuncia a suas responsabilidades, abandona todos os seus bens, liberta seus escravos e passa a se alimentar apenas a cada dois dias. Estranhos, portanto, todos esses filósofos cujo comportamento, todavia, sem ser inspirado pela religião, rompe totalmente com os costumes e hábitos dos mortais comuns.

Estranho esse, Spinoza, que vê o homem como modos de dois atributos de Deus; estranho esse, Hobbes, que afirma, efetivamente, que Deus é um corpo; estranho esse, Nietzsche, que os refuta, pois Deus estaria morto. Mais estranho ainda aquele, Descartes, que duvida de tudo e da existência de todos, ou pior, Wittgenstein, que utilizou-se do raciocínio para calar a filosofia. Estranho esses que poderiam advogar, curar as pessoas, construir prédios, decorar casas, cuidar de jardins; mas encontram-se numa academia acreditando que podem fazer ou conhecer a Filosofia. Estranho, portanto, o filósofo ou o filosofante.

Não é nem um sábio, nem um homem como os outros. Ele [até] sabe que o estado normal, o estado natural dos homens deveria ser a sabedoria, pois ela não é nada mais que a visão das coisas tais quais elas são, a visão do cosmos tal qual ele é à luz da razão, e ela nada mais é que o modo de ser e de vida que deveria corresponder a essa visão. Contudo, o filósofo sabe também que essa sabedoria é um estado ideal e quase inacessível. Para um tal homem, a vida cotidiana, tal qual está organizada e é vivida pelos outros homens, deve necessariamente apresentar-se como anormal, como um estado de loucura, de inconsciência e ignorância da realidade. E, todavia, é preciso que ele viva essa vida de todos os dias, na qual se sente estranho e na qual os outros o percebem como um estranho. E é precisamente nessa vida cotidiana que ele deverá buscar tender na direção desse modo de vida, que é totalmente contrário à vida cotidiana. Haverá assim um perpétuo conflito entre a tentativa do filósofo de ver as coisas tais quais elas são do ponto de vista da natureza universal e a visão convencional das coisas sobre a qual repousa a sociedade humana, um conflito entre a vida que seria preciso viver e os costumes e convenções da vida cotidiana. Esse conflito nunca poderá ser resolvido completamente. Os cínicos escolherão a ruptura total, recusando o mundo da convenção social. Outros, ao contrário, como os céticos, aceitarão plenamente a convenção social, assegurando sua paz interior. Outros, como os epicuristas, tentarão recriar entre eles uma vida cotidiana em conformidade com o ideal de sabedoria. Outros, enfim, como os platônicos e os estoicos, forçar-se-ão, à custa das maiores dificuldades, para viver “filosoficamente” a vida cotidiana até a vida pública.

Contudo, seja rompendo com a convenção, aceitando-a ou recriando-a, os filósofos continuarão estranhos, e estranhamente se debruçarão diante do comum.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Antiga, Pedagogia e aprendizagem filosófica

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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