Uma análise ontológica sobre o que é ser filósofo

| 20/03/2016 | 0 Comentários
Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo do mundo ocidental.

Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo do mundo ocidental.

Desde que comecei minha graduação em Filosofia na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), aumentaram significativamente as situações em que a definição para a palavra “filósofo” é contornada sem grandes explicações. Existem professores que, apesar de exercerem uma atividade filosófica extremamente intensa, não se denominam filósofos por ser um título “forte demais”, mas que não possuem a mesma postura no momento de nomear algum intelectual como filósofo. Não busco, aqui, uma reflexão social, e sim uma consideração ontológica quanto a essa palavra. Serei, portanto, socrático e estabelecerei um diálogo para fins explicativos.

A: Como definir um assassino?
B: Ora, assassino é aquele que um dia assassinou.
A: Concorda que, uma vez assassino, sempre assassino?
B: Concordo.
A: Então quem está assassinando também pode ser rotulado como assassino?
B: Certamente.
A: Agora outra problemática.
B: Prossiga.
A: Como definir um educador?
B: Ora, educador é aquele que educa.
A: Uma vez educador, sempre educador?
B: Não exatamente.
A: É possível deixar de ser educador?
B: Sim.
A: Como?
B: Deixando de praticar a educação.
A: Ora, e por que o assassino não poderia, por conseguinte, deixar de ser assassino abandonando a atividade de assassinar?

Perceba que existem duas teorias. Uma, que explicita que, uma vez acometendo uma ação, infere-se necessariamente o adjetivo derivado dela (Assassinou? É assassino. Educou? É educador. Escreveu? É escritor). E uma outra, que diz que um indivíduo pode deixar de ser orientador, por exemplo, a partir do momento em que deixa de orientar.

Diante disso, imagino que seja coerente, face a primeira teoria, afirmar que aquele que um dia filosofou é, por definição, filósofo. Em contrapartida, do ponto de vista da segunda, filósofo é aquele que está filosofando, e não quem filosofou – sendo assim, não existiria “ser filósofo”, mas sim “estar filósofo”; e, do mesmo modo, “estar alegre” ao invés de “ser alegre”.

Se, para a primeira, a ação do pretérito reverbera um adjetivo eterno, para a segunda, a ação do presente reverbera adjetivo se – e somente se – estiver ocorrendo no presente. Logo, ao que parece, não seria coerente acatar ambas as teorias simultaneamente como fez o interlocutor “B”.

Para a primeira tese, uma porta que um dia esteve totalmente azul seria, enquanto existisse, totalmente azul. No entanto, ocorre de objetos mudarem ao longo da existência. Em algum momento, as portas podem estar totalmente azuis e, em algum outro momento, azuis e vermelhas. Seriam, pois, as portas que uma vez foram totalmente azuis, e que, em alguma outra vez, foram vermelhas e azuis, portas totalmente azuis, mas azuis e vermelhas?

Lendo novamente (e com calma) o último período, o leitor perceberá que isso não faria sentido, porque é paradoxal admitir que uma entidade é monocromática bicromática, da mesma maneira que é paradoxal admitir a possibilidade da existência de uma esfera cúbica e de um círculo quadrado. Ou é círculo ou é quadrado! Ou é monocromático ou é bicromático! Nunca os dois ao mesmo tempo. Nas palavras de Parmênides, “O ser é, o não-ser não é”. Em Lógica, esse é o “Princípio da Não-Contradição”.

Imagino, todavia, que replicar-me-ia o defensor dessa teoria que, a partir do momento em que uma porta deixa de ser monocromática e passa a possuir mais de uma cor, deixa de ser a porta que era e se transforma em uma nova porta. Logo, a porta que um dia foi azul é azul e, a partir do instante em que deixa de ser azul, é outra porta. É uma defesa justa se – e somente se – o “totalmente azul” estiver integrado na definição da porta ainda não modificada, o que não é necessariamente verdade.

Indo além, pondere sobre o quão aparentemente absurdo também poderia ser admitir a segunda teoria. Segundo ela, Sócrates, Platão e Aristóteles não são filósofos. Isso não quer dizer, é claro, que eles não tenham sido filósofos – ou que não “estiveram filósofos”. Se filosofaram, então eles foram, em algum momento de suas vidas, filósofos (da mesma maneira que provavelmente foram, em algum momento de suas vidas, velhos). Entretanto, essa tese coloca esses pensadores no mesmo nível de categorização de qualquer um que um dia tenha filosofado. Se, portanto, Vinicius de Moraes filosofou ao argumentar que “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Voa tão leve, mas tem a vida breve. Precisa que aja vento sem parar”, depreende-se que ele foi filósofo. Do mesmo modo, se um dia cozinhou, foi cozinheiro. Se um dia andou, é andarilho. Se um dia fez churrasco, é churrasqueiro.

Sintetizando a disparidade entre as teorias anteriores, estabelecem-se dois paradigmas. O primeiro deles diz que filósofo é somente aquele que está filosofando ou que filosofou, enquanto que o segundo diz que filósofo é somente aquele que está filosofando. Detecto problemas tanto no primeiro quanto no segundo. Ambos complicam problemas semânticos e nos levam a muitos lugares e a lugar nenhum. Logo, proporei uma terceira teoria[1] a fim de progredir significativamente com a demarcação para o conceito de filósofo (ou, melhor dizendo, serei um verdadeiro “hegeliano” por antagonizar as teses a fim de gerar uma síntese mais próxima do “espírito absoluto”).

Primeiramente, sugiro nos contentarmos com dois tipos de qualificação: essenciais e circunstanciais. As essenciais são aquelas cuja presença é obrigatória para existência do “ente enquanto ente”. Esfera, por exemplo, obrigatoriamente possui raio. Raio é um caráter que a esfera não pode deixar de possuir, pois ele está dentro da definição para a palavra “esfera” da exata maneira que estão “ser tridimensional”, “possuir diâmetro” e “não possuir cantos”. “Esfera sem raio” é uma frase sem sentido da mesma maneira que é “esfera cúbica” ou “cubo esférico”. Aliás, cubo se diferencia de esfera por um fator essencial: possuir lados – o primeiro objeto possui obrigatoriamente e o segundo, obrigatoriamente, não possui. Diante disso, verifica-se que as qualidades essenciais são o que poderíamos chamar de condições sine qua non.

Já as circunstanciais são aquelas cuja presença não é obrigatória para a existência do “ente enquanto ente”. Esfera, como já foi dito, possui raio. Entretanto, o tamanho desse raio afeta em nada a existência da “esfera enquanto esfera”. Ele pode variar, inclusive, durante a existência dela que ela continuará sendo esfera. Não será, é claro, exatamente a mesma esfera que foi ou que será (será grande ou pequena, em função da variação do raio), mas as qualidades essenciais (os caráteres que a fundamentam) continuarão lá – a presença do raio, do diâmetro (que nada mais é do que o dobro do raio), da tridimensionalidade.

A partir disso, podemos inferir que existe uma diferença entre “ser” e “estar” que se relaciona com os tipos de qualificação expostas. Nesse sentido, “ser” é um verbo que deve ser utilizado para os caráteres essenciais. Tomemos como exemplo a qualidade de “tridimensional” para a esfera. A esfera “é tridimensional”, e não “está tridimensional”. Dizer que ela está tridimensional seria equivalente a admitir que a sua tridimensionalidade não a fundamenta enquanto esfera, o que sabemos que é incorreto. Em contrapartida, “estar” é um verbo que deve ser utilizado para os caráteres circunstanciais. Ou seja, a esfera não “é vermelha”, mas sim “está vermelha”. Afirmar que ela é vermelha seria equivalente a admitir que “vermelha” é um adjetivo obrigatório em esfera, o que sabemos que não é verdade, porquanto sua cor não é o que a fundamenta enquanto esfera.

É claro que, cotidianamente, você pode utilizar os verbos “ser” e “estar” da maneira que julgar mais confortável. Se, contudo, quiser manter um alto rigor ontológico, imagino que seja melhor se apropriar das regras que expus – o que sabemos que não ocorrerá, a menos que você, leitor, seja um sujeito muito chato. Em que lugar quero chegar com essa dialética dolorosa? Ora, estávamos tentando definir o que é filósofo, não? Podemos compreender “filósofo” enquanto adjetivo e enquanto substantivo – a “qualidade” filósofo e o “ente” filósofo respectivamente.

Uma bola de futebol pode “estar esférica” (ou “estar aquilo cuja forma é de esfera”), mas não necessariamente é esférica. Uma bola de futebol pode, inclusive, ter a forma de um icosaedro truncado (um poliedro de 12 faces pentagonais regulares, 20 hexagonais regulares e de 90 lados). Na sentença “bola de futebol é esférica”, a esfera fica em segundo plano, porque “bola de futebol” é o ente central da demarcação. Perceba, consequentemente, que esfera também pode ser uma qualidade circunstancial ao invés de um ente “central” no qual se infeririam qualidades circunstanciais.

Planificação de um icosaedro truncado.

Planificação de um icosaedro truncado.

Ocorre o mesmo para o conceito de “filósofo”. Definir filósofo – ou descrever quais são os seus caráteres essenciais – passa por definir o que é Filosofia. Afinal, filósofo é aquele que exerce Filosofia. Todavia, definir o que é Filosofia é uma daquelas questões filosóficas das quais abster-me-ei de estender no momento. Apesar disso, continuarei a demarcação para filósofo propondo relações de dependência cujas premissas poderão (ou não) serem admitidas por você, caro leitor. Não entendeu? Não importa muito. Na práxis socrática entenderá. Eis-la:

A: Tales de Mileto exerceu filosofia?
B: Não há dúvidas disso.
A: Então ele filosofou?
B: Certamente.
A: Isso infere que, em algum momento de sua vida, Tales de Mileto esteve filósofo ou que foi filósofo?
B: Qual a diferença?
A: Aceitemos a seguinte teoria. “Estar filósofo” é filosofar, mas não caráter essencial do ser, embora circunstancial. Já “ser filósofo” é filosofar e isso ser admitido como caráter essencial do ser. Logo, se Tales de Mileto foi filósofo, isso infere que está dentro da definição de Tales de Mileto o conceito de filósofo e que, por conseguinte, se Tales de Mileto não filosofasse em algum momento de sua vida, não seria Tales de Mileto, mas sim uma outra entidade que deveríamos chamar, a rigor, por outro nome. Se, contudo, Tales de Mileto esteve filósofo, isso infere que filosofar ou deixar de filosofar não altera o que o fundamenta enquanto Tales de Mileto.
B: Ora, ser filósofo ou estar filósofo dependerá de quais são os caráteres essenciais de Tales de Mileto!
A: Retomarei a questão anterior, pois, e adicionarei uma a mais.
B: Prossiga.
A: Quais são os caráteres essenciais de Tales de Mileto?
B: Independentemente da resposta, depreende-se que definir quem é filósofo passa não só pela definição do que é Filosofia, mas também pela questão do que fundamenta a entidade a ser ou não qualificada enquanto filósofo.

Tales de Mileto sem ter filosofado ainda seria Tales de Mileto? Indubitável que, caso encontrássemos o seu corpo, poderíamos afirmar, sem rigor: “Eis Tales de Mileto!”. Entretanto, esse corpo ainda poderia, categoricamente, ser chamado de Tales de Mileto? Estar vivo não seria uma condição sine qua non para o barbudo de Mileto? Tales de Mileto sem vida não seria como a esfera sem raio? Indo além, sabemos que Tales se enveredou na área de Matemática, uma vez que há um teorema com o seu nome – aquele que você utilizou no Ensino Médio para achar um dos lados do triângulo a partir de um congruente a ele. Imaginando que ele nunca descrevesse tal teorema durante a sua vida, ainda poderíamos chama-lo, com o maior rigor possível, de Tales de Mileto?

A questão é mais simples de se resolver do que parece. Basta oferecermos, arbitrariamente, qualificações essenciais para o conceito “Tales de Mileto”. Podemos abranger muito a delimitação inferindo que a qualidade que fundamenta Tales de Mileto é se chamar Tales e ter nascido em Mileto. De outro modo, também podemos restringir a delimitação, propondo que o que fundamenta Tales de Mileto é nascer por volta de 623 a.C. ou 624 a.C., falecer por volta de 546 a.C. ou 548 a.C., ter possuído sexo masculino, sido apontado como um dos “Sete Sábios da Grécia Antiga”, filosofado, elaborado reflexões matemáticas e ter fundado a Escola Jônica. Nesse último caso, se existiram dois homens que possuíram esses mesmos caráteres simultaneamente, ambos podem ser chamados por Tales de Mileto. Se aceita essa demarcação, então diante do prisma rigoroso da teoria terceira, Tales de Mileto é filósofo.

No meio acadêmico, a grande verdade que não quer ser admitida é que denomina-se filósofo aquele pensador que a tradição decidiu que seria e que nos acostumamos a classificar desse modo. Então, o único critério de demarcação parece ser o hábito (ou o “vício linguístico”). Acadêmicos, por conseguinte, só parecem estar realmente preocupados com a definição de filósofo quando se trata de decidir se eles mesmos são filósofos ou não. Quando a questão é decidir se outrem é filósofo, uma entidade chamada “tradição” faz esse trabalho por eles. O silêncio dos acadêmicos para com essa questão ressalta uma verdade milenar descrita em Eclesiastes com palavras do pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém:

“Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.”

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[1] Em Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant utiliza uma perspectiva ontológica parecida com a que proponho. Não trabalhei com a teoria kantiana porque, além desse viés ontológico, ele também usufrui de um viés epistemológico cuja profundidade filosófica interessa em nada para o que eu pretendia naquela parte do artigo, que era chegar a conclusões ontológicas – e não a epistemológicas – quanto a definição de “filósofo”. Se não me falha a memória, Spinoza também faz a mesma distinção em Ética, embora utilize outros termos.

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Categoria: Filosofia, Lógica, Metafísica e Ontologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Graduando em Filosofia na PUC-Rio (2016-). Além de escrever para o FiloVida (2015-), também sou colaborador no Universo Racionalista (2016-). Nesses dois sites, procuro contribuir com artigos e traduções ligadas à Filosofia. Tenho interesse nas áreas de Filosofia da Ciência, Lógica, Epistemologia, Filosofia Analítica, Filosofia da Linguagem, Metafísica, Ontologia e Filosofia Antiga.

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