Carta n. 6

17 de abril de 2016

Meu ermo bem

De um amigo não posso esperar atitude outra senão aquela que envolve a amizade, isto é, segundo penso, o cuidado, o afeto, a lealdade, o amor criativo, caridoso e filial. A virtude do amigo é ser, em primeiro lugar, a si mesmo, lembrando-se de que é homem, um ser que, se disposto a nutrir um laço com outro, necessita amar a vida e a si mesmo. O pensamento e o afeto, quer dizer, o verdadeiro pensamento e o verdadeiro afeto, segundo suas genuínas naturezas, começam com o cuidado de si. Só depois disso, e atentai, somente após essa construção, a virtude do amigo é ser verdadeiramente amigo.

Quando antes acolhi tua natureza ôntica, o teu caminhar e tão singular modo de falar e abraçar, ao dirigir um amor particular a ti, um manifesto ser humano até então admirável, dentre as tantas aventuras que vivemos e obras que desenvolvemos, desejei manifestar com toda minha força o sentimento de amizade, crendo, bem lá no fundo do meu coração, que estávamos prontos para exprimir carinho eterno. Não creio que me enganei quanto ao sentimento, muito embora por vezes tenha pensado em render-me, quando minha razão denegava teu desrespeito, as feridas que me laçaste em palavras, pensamentos e atitudes, e eu não pedia por nada exceto paz interior. Porém, feliz ou infelizmente, jamais conseguimos abandonar quem nos cativou em eternidade, apenas o podemos na ordem do tempo.

Assim estamos hoje apartados, mas se fôssemos nos empenhar em entender a mente-eterna, os fenômenos pareceriam se repetir vezes e mais vezes, de modo que tudo já teria acontecido ou mesmo estaria acontecendo no presente. Seguindo esses modos, ainda estamos fazendo mochilão a pé rumo à Bahia, compondo nossas poesias, músicas e pinturas, gravando a manifestação sobre o abismo cósmico de Henrique – onde eu sou “tudo o que tu nunca vais ser” – e enfim, fazendo o que costumávamos fazer e ainda faremos, seja em ato seja em mente. Ora, nunca poderíamos estar afastados, factualmente eu nunca poderei largar tua mão, ainda que ela queira me matar como miseravelmente já quis. Por isso, com infelicidade, a deixei para trás durante longos meses. Assim se foi a manifestação de minha estadia, de minha força tentando te puxar à vida, à beatitude, ao meu lado e junto às pessoas que caminham junto a mim segundo o respeito, conforme o direito de ser quem são. Nunca, portanto, esqueça que sou sua amiga, ainda que hoje eu não possa manifestar este sentimento.

Antes pensei que pudesse desenvolver tuas virtudes estando lado a lado, e igualmente que você pudesse me ajudar em bem-aventurar as minhas. Mas isso não foi possível. Assim surgiu o espaço, a distância; a fim de que você pudesse entender a virtude de ser amigo primeiro sendo a si mesmo, cuidando de si, para enfim cuidar e ser cuidado por mim.

Aguardo o seu retorno, aguardo o seu respeito; e mesmo que ele jamais se realize em nosso mundo de pedra e ar, ele certamente já está a acontecer na esfera eterna. Lá estamos, cá apartamos, amanhã, porém, talvez o tempo nos dará uma resposta.

Assim manifesto minha esperança
E meu desejo de te enviar um forte abraço
Sendo sua amiga eterna
Sua tão leal companheira

Natália.

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Categoria: Artes e Letras, Cartas

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (2)

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  1. Ismar disse:

    Interessante, sinto que tua amizade basta para uma pessoa como eu mudar o mundo!

    Imensuravelmente grato!

    Forte abraço!

  2. Lívia disse:

    Achei essa carta brilhante e deixou-me com aquela vontade de mandar para os amigos distantes…

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