Psicanálise e Antropologia Cristã Ortodoxa

homemO desejo não aspira apenas à sobrevivência biológica, mas a uma vida sem limites, uma vida imortal. O significante da resposta ao desejo sempre emerge no espaço do Outro, e este emergir estabelece o sujeito lógico. No entanto, o Outro permanece sempre o transcendente objetivo de um relacionamento pleno, da vida imortal. É por isso que Lacan – sem intenções metafísicas e com apenas o realismo da experiência clínica – sempre escreve o Outro transcendente com «O» maiúsculo. O sujeito nasce no espaço do Outro, não há sujeito humano, exceto como uma resposta ao desejo de uma relação plena com o Outro transcendente que convida o sujeito à existência.

A referencialidade lógica é uma de desejo, mas o desejo nunca se esgota com o significado de significantes transitórios e fragmentados. A concretização do desejo na procura não esgota a referencialidade desejada do sujeito. Há sempre uma parte restante do desejo, uma tendência de procurar qualquer relacionamento, mais uma vez, como desejo.

Esta parte restante é designada pela lógica – em outras palavras, a referencialidade do desejo: é um substrato de desejo que preserva o modo do logos, o modo ou a estrutura da fala. É o inconsciente. Por «inconsciente», queremos dizer o que permanece como desejo (no modo do logos, no modo da fala) quando a referencialidade do desejo foi concretizada na procura através do significante.

O inconsciente é construido a partir das consequências dos significantes, isto é, a partir das consequências do fato de que o significante expressa o desejo que foi concretizado como requerimento, sem esgotar a referencialidade do desejo. O desejo permanece o substrato universal de todos os significados procurados, um substrato que é em si mesmo referencial (refere-se a realização transcendente, que é o objeto do desejo).

O modo pelo qual o inconsciente emerge (através do método psicanalítico) expressa a natureza referencial da constituição do sujeito em todos os níveis. Assumimos algum núcleo da subjetividade, mesmo que inconsciente, que, no entanto, é expressada e referida apenas através do modo do logos.

O «núcleo» hipostático da subjetividade não pode ser classificado através de uma concepção intelectual, porque é, simultaneamente, objetivado e possuído pelo sujeito, não identificado com ele. Qual , então, é a alternativa para a concepção intelectual quando se trata da autodeterminação do sujeito? Lacan responde: «O ser do sujeito, aquilo que está situado sob a concepção intelectual».

No entanto, se a noção objetifica o ser, deixando de fora «aquilo que está sob a concepção intelectual», a escolha do ser enquanto auto-definição do núcleo da subjetividade é perdida na definibilidade da não-concepção. «Seja qual for a escolha, a consequência é nem uma coisa nem a outra. Ao escolhermos o ser, o sujeito desaparece, foge de nós, e caindo de novo na não-concepção. Nós escolhemos a concepção e a concepção sobrevive mutilada por essa parte da não-concepção que é, claramente, aquilo que estabelece o inconsciente em virtude da realização do sujeito».

Nem a concepção nem o ser. Existe uma terceira opção em relação à auto-definição do sujeito? A Igreja responde: «Meu princípio e minha hipóstase tem sido o seu comando criativo». O núcleo, ou a hipóstase do sujeito, é a convocação de não-ser para o ser. E a hipóstase é pessoal, quando Deus chama os seres do não-ser, seres capazes de relacionamento lógico/comunhão com Ele. A vontade de Deus em comungar Sua existência Incriada com a existência pessoal criativa é uma vontade ativa, é uma obra, e a obra de Deus é Seu verbo: «No caso de Deus, a obra é logos».

O ser humano é uma existência pessoal, porque o chamado criativo de Deus pressupõe a pessoa como uma resposta hipostática para este chamado. Em outras palavras, como potencialidade existencial para um relacionamento com Deus, como liberdade para afirmar ou rejeitar a comunhão existencial com Ele. A convocação «cria» as hipóstases, atribuindo identidade real para as potenciais existenciais como consequência do chamado: hipostasia não somente o criativo, mas também a dinâmica atraente da convocação, a potencialidade da relação.

A convocação de Deus pressupõe a resposta humana não simplesmente como uma expressão da vontade, mas como um modo de ser, como um evento existencial. Assim, a referencialidade do relacionamento, o modo do logos, não é um dos «atributos» ou «capacidades» do sujeito, mas a potencialidade condicional do estabelecimento e construção do sujeito.

Portanto, a terminologia psicanalítica permite-nos reafirmar a definição eclesiástica da pessoa humana: o ser humano é uma existência pessoal porque é estabelecido, construído e age como um evento de relacionamento. Não é simplesmente colocado, como todo ser biológico é, na trama de inter-relações e inter-ligações de trocas de energias que compõem a biosfera. Em vez disso, a sua própria existência é uma realização dinâmica de relacionamentos, o ímpeto de desejo por um relacionamento existencial pleno.

A pessoa humana nasce no espaço de Deus. O ímpeto de desejo por um relacionamento pleno com Ele é o Seu chamado que dá vida, que estabelece e constrói a pessoa humana como um evento existencial de referência erótica. A relação entre o ser humano e Deus não é uma decisão intelectual ou uma tentativa ética consciente. É um evento do modo pessoal de existência, um modo de existência que engloba as manifestações conscientes e inconscientes de Sua existência. Por esta razão, a Igreja rejeita a moralidade (que pertence somente a vontade consciente) e insiste na ascese (que aspira o modo total de existência, consciente e inconsciente). Não é a vontade lógica e consciente que informa o evento existencial do relacionamento. É o relacionamento que constrói o logos, e não o logos o relacionamento. O modo do relacionamento molda a consciência e também o inconsciente do sujeito.

Se a pessoa humana é a resposta hipostática ao chamado divino para um relacionamento, se ela deve sua origem existencial a energia de convocação do Incriado, então seu caráter pessoal repousa sobre a liberdade de realizar ou rejeitar a existência enquanto uma relação mútua, enquanto uma comunhão amorosa do ser. Se a pessoa humana só passa a existir graças à energia do chamado de Deus, que é somente amorosa, e se a resposta existencial para o chamado não é uma afirmação, mas uma negação, então, podemos tirar duas conclusões: ou a livre negação do criado nega e anula a energia amorosa do Incriado, ou a energia do chamado Incriado, que é atemporal, torna a negação existencial do criado também atemporal.

A segunda possibilidade refere-se ao absoluto do amor, que respeita a liberdade, mesmo se a liberdade hipostiza a negação da reciprocidade amorosa. Tal negação significa um corte, uma mutilação, uma diminuição de potencialidades existenciais de desejo, potencialidades de ser enquanto relacionamentos plenos e amorosos. Neste caso não deriva de uma «graça» deficiente (dom da energia do chamado vivificante de Deus), mas de uma livre negação do recipiente em hipostatizar a graça como um evento existencial de relação. E, assim, o rompimento do desejo em objetivos egocêntricos narcisistas é somente auto-punição: a tortura de uma existência que ativamente nega a si mesmo, sem, no entanto, ser capaz de anular sua composição hipostática.


Este texto foi originalmente publicado em 29 de jun. de 2016 no sitio We Are Time com o título “Psicanálise e Antropologia Ortodoxa (por Christos Yannaras)”. A versão publicada aqui é um resumo deste escrito.

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Categoria: Biofilia, Cristianismo, Psicologia e Neurociência

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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