Assujeitamento manifesto

| 22/06/2016 | 1 Comentário
Este é meu primeiro manifesto público; o primeiro momento em que expresso a curiosidade diante de tantas vontades autosilenciadas, perante algum número absurdo de sujeitos que desconheço, mas que se sujeitam às minhas palavras desditosas, recém boquiabertas. É curioso manifestar-me somente agora, quando desde sempre tenho a vontade, a pulsão, a existência, a possibilidade e a liberdade condicionada de me manifestar. É igualmente curioso, enquanto o faço, o fato de que venho a possuir um aspecto novo, uma sujeição, um assujeitamento, um rosto de sujeito quando antes eu possuía tão-só um ou alguns aspectos humanos.
 
Até então eu era uma mulher angustiada, um ser humano angustiável, e não um sujeito aquém de toda angústia. Até então, enquanto a mulher que sou, ou ao menos a mulher que eu era, passei vinte e tantos anos recusando-me a me assujeitar a todas essas esferas pseudomanifestas que agora, nessas palavras, me abstraem como se eu fosse um sujeito de direito à voz, como se eu fosse uma abstração de todos os meus deveres de manifestação.
 
Meu próprio nome, neste momento, se torna um pseudônimo do meu nome próprio. Mas não, quisera eu que todos pudessem me chamar pelo meu antenome, com suas lágrimas, com suas dores, com sua compaixão. Mas não, eu não preciso do direito a um antenome, a uma certidão de nascimento; pois sou carente do hiperreal direito de nascer.
 
Quisera eu que todos pudessem realmente chamar a mim, existir para mim, ser para mim. Quisera eu que todos compreendessem porque a minha rubrica não me representa, não me deixa ser o corpo que sou, mas apenas um corpo assujeitado à condição do sujeito que eu jamais serei.
 
Ainda assim, preciso ter alguma assinatura, alguma abstração que não escreva meu nome com sangue. Ainda assim, seguida da necessidade da fala sobre o quão estou insatisfeita, oprimida pela insatisfação de todos, pergunto se adianta me manifestar quando a cada vez que falo minhas palavras perdem sua propriedade, sua hiperrealidade, sua racionalidade. E não porque não acredito nos silogismos. Vocês me entendem, afinal! Como hei de negar o entendimento humano? Como hei de negar que falo o que falo e vocês leem o que comunico? Nego, porém, que esse entendimento, que os significantes apreendidos por vocês, que tudo isso, um pouco de quase nada, contempla, na realidade, o significado das mais significativas coisas que tenho a vos dizer.
 
Acaso vocês percebem que escrevo enquanto estou espantada com a existência? Acaso vocês percebem como é um caso sério o fato de que eu jamais havia me pronunciado sobre o espanto antes? Acaso vocês percebem que por mais que percebam é difícil que algo mude? Eu não tenho o poder de conhecer o caminho, porque neste trajeto nós não podemos conhecê-lo, mas somente fazê-lo. E não é por falta de vontade que não o faço (sei que vocês também não). Só não podemos fazer nada quando estamos sozinhos, quando não há comunicação do incomunicável, quando a voz não tem paciência para educar pouco a pouco as crianças e os iletrados, quando o direito à fala está embasado em conteúdos históricos, dogmáticos, jurídicos, compreensíveis em linguagem, no entanto, uma vez destrinchados, desenterrado um totem sem sustentáculo corpóreo algum. E eis que vocês me perguntam: para algo ter uma base, não é preciso de um corpo? Sim, para ter uma base sólida sim. Mas não, não quando o que se tem é a abstração, é o fragmento da solidez, é o fragmento silenciador das vozes de nossos nomes fidedignos.
 
E vê que ainda tendo dito tudo isso continuo em silêncio. Escrevo, mas não tenho voz. Posso ir às ruas, como até ia outrora, mas não terei voz. Posso pensar, pode parecer que tenho o direito à fala, mas minha voz não alcança as vozes vossas. Por mais que exista a televisão, o jornal, a internet, o português, não falamos a mesma língua. O nosso corpo civil está assujeitado à abstração. Somos, portanto, sujeitos; eis que minhas dores são assujeitamentos, lágrimas de direito, angústias desumanas. Elas até podem vir da minha frágil estrutura psicológica, e quando vêm, até reconheço que sinto dores profundas no campo existencial, mas elas são consequências, e não causas.
 
Sofro dia após dia a ponto de ponderar arrancar meu coração, meus ouvidos, meus olhos, minha língua, meu cérebro, minha voz, minha consciência. Todavia, eu sofreria ainda se estivesse lavando pratos, colhendo cana ou sendo a presidente da república. Eu sofreria até mesmo se tivesse sexo livremente condicionado todo santo ou profano dia. Eu sofreria até mesmo se pudesse pagar por todas aquelas cervejas que quero beber no boteco da esquina. Eu sofreria até mesmo se eu fosse magra. Eu sofreria até mesmo se eu fosse gorda. Neste estado clássico, medieval, moderno e simultaneamente crítico eu sofreria até mesmo se não sofresse. Deus poderia existir, meus pais poderiam viver para sempre, mas ainda assim eu seria órfã, porque eu sou órfã do meu prenome.
 
Eu não tenho um nome próprio, eu tenho uma rubrica e por mais que eu assine meus textos e as minhas mais diversas linguagens, eu continuo sem nada dizer, continuo sempre no meu primeiro manifesto que pouco pode comunicar. Eu continuo sem conseguir dormir em paz. Mas ainda assim continuo tentando acordar amanhã.

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Categoria: Artes e Letras, Cartas, Crônicas e contos, Ética e Cidadania, Existência, Política

Sobre o(a) Autor(a) ()

Sou um pseudônimo do meu nome próprio, de uns vinte e tantos anos, duas dezenas de existência, umas centenas de angústia.

Comentários (1)

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  1. Sua angústia é tão bela que não sei se diante dela choro ou sorrio

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