Introdução à história e estética do Rock

Muito mais do que um gênero musical, o rock é uma forma de existir, uma ótica para enxergar a realidade, uma plataforma para o agir, um gênero musical para ser. O rock é uma clara expressão libertária seja ela musical, ideológica ou sexual (SCIENZA E DEMÉRITO, 2015). O rock pressupõe a troca, a reação corpórea, a vivência dos sentidos. Enquanto outras manifestações artísticas nos tocam pela parte mais racional das sensações, a música nos atinge pela mais sensitiva. Isso porque suas notas se espalham em ondas amplas, sobretudo quando falamos dos acordes distorcidos, elétricos e amplificados do rock.

Escutemos as palavras de Paulo Chacon (1989): “uma nota distorcida de guitarra parece atingir não só o ouvido e o cérebro, mas cada uma das células do corpo humano, fazendo do rock um dos ritmos musicais mais agitados que se conhece nas sociedades modernas”. Contudo, sua clássica agitação (de origem nas tradições negras do rhythm, jazz & blues) não exclui as baladas que, embora mais melódicas, não são menos corpóreas. Esse gênero musical, seja ele clássico, de garagem, power, folk, psicodelico, progessivo, glam, hard, punk etc, não se restringe a um tipo especial de compasso ou de ritmo.

A extensão rítmica presente no rock nos levanta, por conseguinte, o seguinte emblema (Bruce Baugh, 1993): será que o rock tem padrões próprios, que se aplicam unica ou especialmente a ele? A intuição de Baugh aponta para o contraste entre as trajetórias da estética do rock e as trajetórias musicais tradicionais uma vez que, enquanto o classicismo mais se preocupa com a forma e a composição que o modo como a música é sentida, o rock atenta para o modo como ela afeta o corpo do ouvinte, isto é, o rock é constituído por propriedades materiais.

Immanuel Kant,  1724—1804.

Immanuel Kant (1724—1804).

A estética do rock está longe dos conceitos kantianos. Kant chama de belo aquilo que é objeto de um juízo capaz de requerer validade universal, quer dizer, algo é belo quando “qualquer um poderia achar sua forma, ou o arranjo de suas partes, intrinsecamente agradável, não por causa das sensações que sua forma provoca ou por causa de sua utilidade, mas porque a sua forma é inerentemente adequada ao que é percebido, e desse modo conduz ao livre jogo harmonioso da imaginação e do entendimento” (KANT, 1978). Para o filósofo, as respostas idiossincráticas que os estímulos sensoriais provocam no sujeito por causa de sua constituição física e de suas disposições particulares não constituem a base para um juízo estético puro.

Por outro lado, Hanslick, grande conhecedor da música, tornou pura cada uma das notas da escala musical no sentido kantiano de possuir uma forma determinada, em que cada nota é “um tom de uma determinada altura mensurável”, inerentemente relacionada a cada um dos outros tons em virtude da razão entre as alturas, que determinam suas relações na escala (Hanslick, p. 95). Desta maneira, ao fazer com que as notas se tornassem puras, Hanslick resgatou parcialmente as notas musicais da posição indigna de serem apenas a causa de sensações e prazeres condicionados, subjetivos, que podem tão-somente fornecer a base para um juízo estético impuro e heterônomo transformando assim a arte que Kant considerava como a mais baixa e a mais material na mais alta e mais formal.

Daça de Rock N Rol, London Lyceum, 1950.

Daça de Rock N Rol, London Lyceum, 1950.

Baugh (1993) aponta que os princípios básicos de uma estética do rock podem ser encontrados quando “se vira de cabeça para baixo a estética kantiana ou formalista. Onde Kant valorizava o juízo de razão livre e autônomo, e por isso via a beleza mais na forma do que na matéria, uma estética do rock julga a beleza da música por seus efeitos sobre o corpo, e desse modo encontra-se essencialmente voltada para a matéria da música (…) Mas isso não significa que os padrões do rock são pura e simplesmente uma questão de gosto individual. Há certas qualidades que uma peça de rock deve ter para ser boa, embora ouvintes informados possam discordar quanto ao fato de uma determinada peça de música possuir tais qualidades. Em todo caso, essas qualidades são mais materiais do que formais, e estão baseadas em padrões de avaliação da performance, mais do que na composição”.

Quanto à sua história, o surgimento do rock coincide com uma época de relativa tranquilidade sócio econômica nos países centrais capitalistas. Se considerarmos o período de 1953-73, os índices que tradicionalmente medem o comportamento econômico dos países (preço, inflação, produção etc) indicam nos EUA, Inglaterra, França, Itália e Alemanha os melhores níveis do século XX. Deste feito, se analisarmos o rock pelo ponto de vista social, enxergaremos uma reavaliação que incorporou elementos antes concebidos como “sujeira” e “ruído”, reflexo de uma época herdeira de reacionarismos e veemente conservadorismo político, social e cultural. Wisnik (1999) diz que a música é um elemento coordenador das sociedades, e de acordo com sua antropologia do ruído “Um único som afinado, cantado em uníssono por um grupo humano, tem o poder mágico de evocar uma fundação cósmica: insemina-se coletivamente, no meio dos ruídos do mundo, um princípio ordenador”. Dessa maneira, segundo comentário de Adriana Amaral (2002), o rock passou a se apresentar enquanto uma forma de manifestação que transcende limites sociais, culturais e geográficos, ganhando a mente dos jovens a partir da década de 50, pipocando sua sonoridade nos mais variados cruzamentos do mundo.

musicos

Fats Domino, Bill Haley, Little Richard e Chuck Berry.

Vejamos a história. Em 1946, com o término de oito dos principais grupos de jazz dos Estados Unidos, o jazz deixava os palcos e o rock n roll ganhava os holofotes (HEWITT, 2013). Com raízes no blues rural do início do século XX e fusão ao blues urbano, gospel e jump band jazz, segundo Chacon (1985), a vibração negra, com vozes graves e roucas, sexualidade transparente e som pesado agora alimentado pela guitarra elétrica, a nova música que surgia parecia bem mais atrativa à milhões de jovens. Numa onda de repercussões sem precedentes, a guitarra reivindicava a rebeldia inicialmente americana que logo se alastrou nos ouvidos de jovens pelo mundo todo. Pessoas que procuravam uma nova forma de identidade ou mesmo um grito de guerra e de socorro diante dos absurdos sociais os encontraram no rock n roll.

rosetta

Sister Rosetta Tharpe (1915 – 1973).

De acordo com Paul Friedlander (2006) surgia nos anos 50 a primeira geração de roqueiros clássicos: Fats Domino, Bill Haley, Chuck Berry e Little Richard. O quarteto, aliás, foi influenciado por Sister Rosetta Tharpe, uma mulher negra e talvez por consequência disso (preconceito étnico e sobretudo sexismo) um talento pouco mencionado na história. Já nos anos 40 Rosetta misturava o gospel com o ritmo do rock, um feito ímpar que, ao lado da profundidade na voz e interpretação, no ritmo sincopado, nos solos estalados e na dança singular, fez dela uma das melhores guitarristas de rock.

O performático Elvis Presley (1935 — 1977)

Sob essa mesma influência surgiu o Rei do Rock, Elvis Presley, que com seu cabelo penteado para trás, topete e quadris requebrando e murmurando ao microfone se destacou em virtude d’um extraordinário senso rítmico, força interpretativa e timbre de voz. Bob Dylan costumava dizer que “Ouvir Elvis é como escapar da prisão. Eu agradeço a Deus todos os dias por Elvis Presley ter existido”. John Lennon revelou que “Não existia nada antes dele. Elvis era a nossa maior referência. Nada me influenciou tanto”. E Jim Morrison não cansava de o referenciar: “Elvis será sempre o melhor e mais original. Ele abriu espaço para todos que viriam depois dele. Um gênio”.

Bob Dylan, Columbia Studio, New York City.

Bob Dylan, Columbia Studio, New York City.

Movido pelo ideal de revolução e por fortes sentimentos políticos, o mesmo Bob Dylan que se libertava por Elvis apareceu, no início da década de 60, como o ícone da era folk. Ao som de violão, voz e gaita, as letras profundas do astro musicavam a poesia. Dylan anunciava em seu hit Masters Of War os Mestres da Guerra: “Venham seus mestres da guerra – vocês que constroem todas as armas, vocês que constroem os aviões mortais, vocês que constroem as bombas grandes, vocês que se escondem atrás de paredes, vocês que se escondem atrás de mesas – Eu só quero que vocês saibam que eu vejo através das suas máscaras. Vocês que nunca fizeram nada a não ser construir para destruir, vocês brincam com meu mundo como se ele fosse seu brinquedinho, vocês põem uma arma na minha mão, e se escondem dos meus olhos, e se viram e correm para longe quando as balas rápidas voam. Como Judas do passado, vocês mentem e enganam. ‘Uma guerra mundial pode ser vencida’, vocês querem que eu acredite. Mas eu vejo através dos seus olhos, eu vejo através dos seus cérebros, como eu vejo através da água que escorre pelo meu ralo. Vocês apertam os gatilhos para os outros atirarem, então vocês se sentam e assistem quando a contagem de mortos aumenta. Vocês se escondem em suas mansões enquanto o sangue de jovens jorra de seus corpos e é enterrado na lama. Vocês promoveram o pior medo que pode ser lançado; medo de trazer crianças para o mundo por ameaçarem meu bebê não nascido e sem nome. Vocês não valem o sangue que corre em suas veias. O quanto eu sei para falar de mudança? Vocês poderiam dizer que sou jovem, vocês poderiam dizer que sou ignorante, mas há algo que eu sei – Embora eu seja mais novo que vocês, mesmo Jesus nunca iria perdoar o que vocês fazem. Deixem-me fazer uma pergunta: O seu dinheiro é tão bom, ele irá comprar o seu perdão? Vocês acham que ele poderia? Eu acho que vocês irão descobrir quando o sino das suas mortes dobrarem. Todo o dinheiro que vocês fizeram jamais irão comprar de volta suas almas”.

Quarteto formado por John Lennon, Paul McCartney, Ringo Star e George Harrison.

Mas logo o rock começou a declinar nos Estados Unidos, seu país de origem, por outro lado, na Ingleterra, os Beatles traziam pela primeira vez um fenômeno cultural globalizado. A banda se tornou uma verdadeira revolução cultural e social, uma atitude diante da vida, uma negação dos valores até então tidos como absolutos (GARCIA, 2002). John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr pregaram duas idéias altamente subversivas para a época: que os jovens não são adultos incompletos, mas seres humanos dotados de todo direito a se expressar e viver sua vida de acordo com seus parâmetros; e que as pessoas devem, antes de tudo e acima de tudo, buscar ser felizes (IDEM). Foram eles que, numa excelente canção, deram espaço ao Nowhere man (1966): “Ele é um verdadeiro Homem de Lugar Nenhum. Sentado em sua Terra de Lugar Nenhum, fazendo todos seus planos de Lugar Nenhum para ninguém, não tem um ponto de vista, não sabe para onde está indo. Ele não é um pouquinho como eu e você? Homem de Lugar Nenhum, não se preocupe, vá no seu tempo, não se apresse. Deixe isso tudo para lá até que alguém mais lhe dê uma mão”.

Nos anos 60 esse desenho foi reconhecido como o símbolo dos Rolling Stones.

Em 1962, dois anos depois da formação dos Beatles, surgem os Rolling Stones, banda formada por quatro garotos do subúrbio de Londres. Se por um lado os Beatles pareciam anjos bem arrumados caídos do céu, Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Charlie Watts e Brian Jones eram demônios sujos vindos do inferno. Esse contraste pode ser mais nítido tomando como exemplo a dualidade criativa de ambas as bandas: enquanto o disco dos Bealtes se chamava Let it be, os Rolling Stones vinham com o Let it bleed.  A música Satisfaction, no que lhe concerne, era “mais que uma música de comoção geral, foi uma música que capturou os anseios da geração mais nova em uma série de temas, direitos civis e Vietnã inclusive. A sabedoria convencional e os valores sociais foram então sendo desafiados e ‘Satisfaction’ entrou com letras destinadas a criticar a publicidade superficial e a moral sexual“. Por conseguinte o hit se tornou o equivalente de pop rock do que Dylan e outros músicos de protesto estavam oferecendo ao público um pouco menos mainstream.

Eric Clapton, quando fazia parte da banda The Yardbirds, nos anos 60.

Eric Clapton, quando fazia parte da banda The Yardbirds, nos anos 60.

Adiante, a partir de 1965, Eric Clapton, Jimmy Page e Jeff Black trouxeram agressividade ao rock com mais distorção e amplificação nas guitarras a partir da banda Yardbirds. Diziam os garotos: “Enquanto a maioria das outras bandas estava tocando músicas de três minutos, nós pegávamos faixas de três minutos e esticávamos para cinco ou seis, e nisso a platéia ia à loucura, sacudindo a cabeça feito doida e dançando dos jeitos mais bizarros” (CLAPTON, 2007). Clapton singularmente inovava sua técnica: “Eu usava cordas finas na minha guitarra, com uma primeira corda muito delgada, o que facilitava para aumentar a tonalidade das notas, e não raro rebentava pelo menos uma corda ao tocar os trechos mais frenéticos” (IDEM). Os Yardbirds, através da composição de  B. Hugg e M. Hugg, perguntavam: “Você pode julgar um homem pela forma como ele usa seu cabelo? Você pode ler sua mente pelas roupas que ele usa? Você pode ver um homem mau pelo jeito que ele usa uma gravata? Você reconhece um sábio pela maneira que ele fala ou soletra? Seria isso mais importante do que as histórias que ele conta? E chamar um homem de tolo se para a riqueza ele não se esforça?”.

The Who, 1975.

No mesmo cenário de Clapton, Page e Beck, nasceu a banda The Who. Com Pete Townshend, Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon o hard rock chegou ao cenário musical com o single Substitute. Mais tarde Behind Blue Eyes se tornou um hit ao declarar a angústia de viver quando “ninguém sabe como é ser o homem mau, ser o homem triste, por trás de olhos azuis. Ninguém sabe como é ser odiado, ser condenado, contar apenas mentiras. Mas meus sonhos não são tão vazios como minha consciência parece ser. Tenho horas, apenas só. Meu amor é vingança, que nunca é livre. Ninguém sabe como é, sentir estes sentimentos como eu sinto”.

Jim Morrison, Touch me.

Jim Morrison (1943 — 1971)

Daí em diante a inovação musical volta ao seu país de origem. Nos Estados Unidos o rock se torna menos agressivo com bandas como The Byrds, Simon & Garfunkel e The Mammas & The Papas. Mas o verdadeiro retorno americano ao cenário dos rockers acontece psicodelia de The Doors, Jefferson Airplane e Love. Especialmente essa primeira banda, que tem como líder o controverso, polemico e irreverente Jim Morrison, é difícil classificar músicas e poemas tão originais como os dele. “O seu som, marcado pelas investigações musicais daquilo que na altura se designava por psicodelismo, os seus textos, visivelmente compostos sob a influência das drogas duras, tinham o aspecto simultaneamente luminoso e maléfico das criações artísticas radicais’. (Paraire, 1992). Morisson foi um excelente aluno, embora sempre demonstrasse traços de indignação e revolta, talvez por isso a sua excelência. Lia ferozmente poetas como Rimbaud, Blake e Baudelaire e acreditava na beleza do infinito, tendo por isso encarnado o xamanismo em suas entranhas. Influenciado por poetas da geração Beat, Jim começa a se dedicar a outros poetas desta mesma geração como Allen Ginsberg, e é a partir destas leituras que Jim percebe que aquela chama ideológica beat o inflamava, pois se via como um próprio beat (MARSICANO, 2005). Estudou profundamente a filosofia de Nietzsche e por meio dela a tradição dionisíaca das tragédias gregas. Para a infelicidade dos fãs, logo após o sucesso da banda Morrison foi descoberto morto na banheira de seu apartamento deixando seu ultimo poema, composto na mesma noite do acontecimento:

 Todo o humano
se esvai
de sua face
logo desaparecerá
no calmo
pântano vegetal
Fique!
Meu amor selvagem!

Movimento Flower Power

Movimento Flower Power.

Influenciados pelo psicodelismo e pela cultura hippie, outros grupos caracterizaram o rock da época. Entre eles, os já citados Bob Dylan e The Doors, Greteful Dead, Jimi Hendrix, Pink Floyd, Crosby, Stills & Nash (and Young), Jefferson Airplane e Gong. Influenciadas pelas drogas e pelo movimento Hippie, algumas dessas bandas carregaram como lema o Paz e Amor, e o Flower Power marcou a época pregando a liberdade total e a vivência em comunidades alternativas. A heroína dos beats cedeu lugar às drogas alucinógenas, com destaque para a maconha e para o ácido lisérgico (RODRIGUES, 2003). As características do movimento eram os cabelos compridos, roupas coloridas e sandálias de couro, além da presença notável de flores, daí o nome Força da Flor.

Woodstock: Três dias de paz e música.

O movimento se tornou ainda mais forte no festival de Woodstock, ocorrido nos dias 15, 16 e 17 de agosto, em 1969. O evento manifestou uma atitude desconhecida e evitada até então, quando estes jovens contestarem os antigos valores, tabus e preconceitos vigentes da época. A geração Woodstock, unida pelo lema “paz e amor” e pelo entusiamos pelo rock n roll, se sentia capaz de mudar o mundo. O desejo de liberdade encontrava seu apogeu. Richie Havens, o primeiro cantor a se apresentar no Festival, explicou bem o seu significado: “Eu tenho explicado Woodstock sob a perspectiva da infra-estrutura. Por que tanta gente foi lá? Não foi apenas música. Nem apenas sexo, drogas e rock’n’roll como a mídia gosta de dizer. Eu falo que o que aconteceu em Woodstock foi que todos estiveram lá por causa dos problemas comuns que tínhamos, questões dos anos 50 com os quais tivemos que lidar nos anos 60, uma temática ampla que ia dos direitos das mulheres à Guerra do Vietnã passando pelos direitos civis. Como conseqüência, o que aconteceu foi o que chamo de ‘acidente cósmico’. Ninguém sabia que 850 mil pessoas iam aparecer. No que diz respeito à música, mais da metade das pessoas no palco jamais havia visto algo parecido. E isso foi a mágica de tudo”. À maneira hippie, havia liberdade, sobretudo sexual, mas não o sexo materialista, e sim aquele que despe os antigos tabus e busca integrar a totalidade do ser humano no conjunto da natureza.

O desastre dos Rolling Stones em Altamont.

O desastre dos Rolling Stones em Altamont.

Contudo, em Altamont, na Califórnia, em 5 de dezembro daquele mesmo ano, o rock não se manifestou ao som de paz e amor. Os Rolling Stones rivalizaram o Festival de Woodstock com seu próprio som. Ao público, de cerca de 400-600 mil pessoas, os músicos das bandas de aberturas trouxeram briga, excesso de consumo de drogas e álcool e membros da gangue dos motociclistas Hell’s Angels, cujos integrantes possuíam um extenso passado de crimes e contravenções. Eles bateram em instrumentistas, empresários de bandas e nas pessoas que tentavam se aproximar do palco. Diante da bagunça, Mick Jagger logo encerrou seu show. Assim se finda os anos 60, sob a trágica marca de Altamont e o fim da geração paz e amor do movimento hippie e da psicodelia.

A Santíssima Trindade Trágica do Rock: Os três J - Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin.

A Santíssima Trindade Trágica do Rock: Os três J – Jimi Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin.

Sob esse infeliz legado o ano de 1970 continua drástico, os famosos três “J” morrem aos 27 anos num curto espaço de menos de um ano: Jimi Hendrix é encontrado sufocado com seu próprio vômito e Janis Joplin sofre overdose de heroína. Um ano depois Jim Morrison morre devido a uma parada cardíaca. Essa série de eventos é conhecida como a “Santíssima Trindade Trágica do Rock”.

Marcado pelo mote “Sexo, drogas e Rock and Roll”, o rock acaba sendo alvo de críticas, visto pelo público como uma “vulgaridade”. A sua musicalidade então, buscando se reinventar tornando-se “intelectualizada”, eleva o rock à categoria de arte. “O rock parecia dominado pelo lado intelectual, pelo progressivo, pelo acadêmico, pelo auditivo. Não se deixara de dançar, mas sentar diante do aparelho de som e escutar tornara-se algo tão comum que o perceptual de rockeiros dançantes diminuíra se comparado com o da época do rock’n’roll” (Chacon, 1985, p.44). Muitos músicos utilizavam da influência de compositores eruditos como Bach e Mozart.. Os Beatles e The Who apresentam trabalhos mais elaborados, surgem bandas como Led Zepellin, Cream, Jethro Tull e Deep Purple.

Led Zeppelin, live.

Led Zeppelin, live.

O rock se torna primoroso, sinal disso são as palavras Peter Grant de 1993: “Quando Led Zeppelin faz um show não é só um show. É um evento”. “Ouvir Led Zeppelin é ouvir a canção da banda mais os solos de guitarra de Jimmy Page. Ao vivo eles são espetaculares”. Diz John Paul Jones, membro multi-instrumentista da banda: “Para mim as gravações eram só o ponto de partida. A coisa mais importante sempre foi o palco… Nas nossas piores noites ainda éramos melhor que a maioria”. “A beleza de tocar na banda”, reflete o guitarrista Jimmy Page, “era que quando estávamos no palco nós nunca sabíamos realmente o que iria acontece com a estrutura das músicas. Elas mudavam constantemente. Novas partes eram bem vindas durante a noite. A espontaneidade estava no nível ESP, o que era sempre excitante”.

David Bowie (1947 — 2016).

Além desta intelectualização, o rock progressivo se expande. Surgem nos Estados Unidos bandas como Slade, Sweet, Gary Glitter, T Rex, Bay City Rollers e Elton John. Como sua extensão, ramifica-se o glam-rock, cujas principais características podem ser resumidas no culto de si próprio através das vestimentas, da maquiagem e da busca de uma identidade baseada na apreciação dos sentidos, na ambiguidade sexual e na presença constante de riffs de guitarra repetitivos (O perspectivismo por David Bowie, Ericson Saint Clair). David Bowie é um bom exemplo disso. Após o homem pisar a lua, em 1969, nasce o “Space Oddity, primeira grande música de David Bowie”, e com isso o glam-rock, assim como todo o rock and roll, atinge “uma dimensão totalmente diferente” (Idem).

Black Sabbath em 1970,

Black Sabbath em 1970.

Na dianteira, em 1970, o heavy metal se torna conhecido pelo grande público através do primeiro disco do Black Sabbath. Dessa vez a polêmica do rock diz respeito à primeira fase do vocalista Ozzy Osbourne que, conhecido como “Príncipe das Trevas”, chegou a arrancar a cabeça de um morcego a dentadas nos palcos e ficou famoso por se envolver com sexo, drogas e “satanismo”. Junto dos outros integrantes, ele manifesta que “O amante da vida não é um pecador / o fim é apenas um início / quanto mais perto você fica do entendimento / mais cedo você saberá que você está sonhando” e anuncia: “Para proteger minha filosofia até meu último suspiro / eu a transfiro da realidade para uma morte em vida / eu simpatizo com inimigos até a hora certa / com Deus e satanás ao meu lado / da escuridão surgirá a luz”. 

Kiss live in Whistler.

Kiss live in Whistler.

Essa foi também a época de grande domínio do Deep Purple – vejamos, para denotar a importância da banda, que quando Adrian Smith, ex-guitarrista do Iron Maiden, fala sobre um dos mais famosos riffs do D.P., Smoke On The Water, notavelmente o salienta: “Todos os guitarristas da minha geração foram muito influenciados por ele. É uma das levadas mais memoráveis de todos os tempos”. Além deles, a banda Kiss, na mesma época, une o rock ao teatro quando seus integrantes vestem máscaras e fantasias ao berrar por “Rock and Roll a noite toda e festa todos os dias”. Além deles e em paralelo ao hard rock e rock progressivo, surge a banda Queen e Judas Priest, igualmente importantes no cenário musical.

The Ramones.

The Ramones.

Doravante, em 1971, o cenário se torna punk, reinventado especialmente pelos Ramones, Sex Pistols e The Clash. E os Ramones, seja dito de passagem, abordavam o punk para além das manifestações artísticas, esboçando-o também em atitudes e exposições críticas. Foi o embrião dos Ramones que deu um recado ao homem político: “Não vire um dos filhos de Hitler”, até porque, “Você sabe, a vida realmente cobra o seu preço / e o que os poetas fazem é buscar em suas próprias almas” como se tudo o que quisessem fosse “pular fora deste mundo” onde “todo mundo tem um coração envenenado”.

Never mind the bollocks, here's the Sex Pistols.

Never mind the bollocks, here’s the Sex Pistols.

A atitude rebelde e crítica dos Sex Pistols, por sua vez, trouxe crítica até mesmo à música. Em dezembro de 1976 Johny Rotten, o vocalista da banda, disse: “Eu não preciso de um Rolls-Royce, eu não preciso de uma casa no campo, eu não tenho que morar na França. Eu não tenho heróis do rock. Eles são desnecessários. Os Stones e o The Who não significam nada para mim; eles estão estabilizados. Os Stones são mais um negócio do que uma banda.” E mais: “A música precisa dar assistência a todo esse lixo (a sociedade britânica). A música tem que mostrar saídas para se vencer a estagnação. Ela tem que ser verdadeira mas também bem-humorada. E isso não é política.” Ele declara: “O rock n’roll está acabado, você não entende? Os Sex Pistols acabaram com o rock, eles são a última banda real de rock n’roll”. E acrescenta o baterista, Paul Coock, em 1976: “Nossa atitude de quebrar tudo só vai durar até quando estivermos tão velhos quanto o Pete Townshend, fazendo rock só pelo dinheiro, mas quando isso acontecer, Sex Pistols não existirá mais.” Enquanto isso não acontecia, a banda toda gritava: “I am an Antichrist / I am an anarchist / Anarchy for the U. K / I wanna be anarchy!”.

Joe Strummer.

Joe Strummer (21 de agosto de 1952 — 2002).

Já The Clash, embora seja também da primeira geração punk inglesa, existiu por muito tempo e alcançou o maior estrelato. Seu vocalista, Joe Strummer, “parecia sentir na pele toda essa contradição, que era ter ajudado dar origem ao punk e, poucos anos depois, ser ele próprio um dos mais valiosos artistas da indústria do entretenimento. É o que afirma o crítico Greil Marcus” (Punk: anarquia, neotribalismo e consumismo no rock’n’roll, Cristiano Marlon Viteck): “O Clash se agarrou a idéias pré-concebidas, mas logo as transformou em suas próprias idéias, e foi transformado por elas – ou pelo menos Joe Strummer. Nunca ficou claro se ele queria ser uma estrela ou se queria que todo mundo o escutasse: na tradição do rock à qual ele estava tão amarrado, a diferença entre uma coisa e outra jamais esteve clara. Com uma grande corporação multinacional por trás deles, o Clash realizou turnês pelos EUA, uma atrás da outra. Em 1982 eles finalmente entraram no top ten dos EUA: fizeram isso duas vezes, com Combat Rock na parada dos álbuns e com a indelével ‘Rock the Casbah’ na lista dos singles. A maioria das pessoas assumiu que o Clash estava trabalhando só para isso, que as heresias do punk londrino de 1976 eram meramente as roupas velhas de sonhos ruins, mas o sucesso da banda parecia chocar Joe Strummer. Se o Clash havia conseguido emplacar seus hits, se um grande número de pessoas estava finalmente contente em escutar o que a banda tinha dizer, Strummer parecia haver decidido que isso significava que o Clash não estava mais dizendo nada” (MARCUS, Greil. A Última Transmissão. São Paulo, Conrad. 2005, p. 126 e 127).

Debbie Harry, com a camisa “Andy Warhol’s Bad”, Old Street Studio, London.

Outro aspecto importante da cultura punk foi a participação feminina. Iniciada nos anos 70, com inspiração em artistas como Debbie Harry, Chrissie Hynde, Joan Jett, entre outras, a presença de garotas na culutra DIY eclodiu com com o movimento Riot Girrrl, iniciado nos Estados Unidos, na década de 90. A presença feminina no cenário do rock sempre existiu, mas majoritariamente como público consumidor. O riot girrrl possibilitou que as garotas participassem como artistas e também como produtoras culturais, extrapolando os limites do consumo de música para a própria articulação política e identitária. (GOTTLIEB; WOLD, 1993 / DIY: A CULTURA UNDERGROUND DO “FAÇA VOCÊ MESMO” NA SOCIEDADE EM REDE Máira Nunes, Otacílio Vaz)

The Runaways, as garotas do rock.

The Runaways, as garotas do rock.

Joan Jett formou a banda The Runaways, composta essencialmente por mulheres e que durou de 1975 até 1979. Em uma entrevista recente, a cantora se pronunciou sobre o machismo no rock que, segundo ela, continua a existir: “Sempre foi domínio masculino, um mundo de homens. E de repente as 7 garotas estavam com uma guitarra. Foi uma reação natural dos homens: ‘Não, você não pode tocar‘. Para mim, de forma lógica, não fazia sentido. Não era que elas não podiam dominar o instrumento, elas não tinham permissão socialmente falando, justamente porque o rock é sexual” (JOAN JETT, em entrevista à revista ―Rolling Stone Brasil‖ em março de 2012).

Axl Rose.

W. Axl Rose.

Por fim chegaram os novos tempos, nem hippies nem punks. Os movimentos de outrora concentraram-se em tribos urbanas. Os anos oitenta, por exemplo, foram heterogêneos, quer dizer, não seguiram uma lógica estrutural precisa no cenário do rock. Até mesmo os discursos sociais eram fragmentados. Surgiram bandas como R.E.M., Stray Cats, Iron Maiden, Venom, Slayer, Poison, Bon Jovi, Cinderella, Metallica, Suicidal Tendencies, Napalm Death, Guns N Roses, Van Halen, Sepultura, Halloween, Gamma Ray, Raphsody, Viper e Angra. Já os anos 90 representam a era grunge (com bandas como Pearl Jam e Nirvana), o Britpop (Blur, Pulp, Verve, Green Day, Superglass e Oasis) e o Indie Rock (Smashing Punpkings e Radiohead). E, finalmente, o ano 2 mil é marcado pelo rock alternativo, rock & hip hop, rock pop e o chamado rock inglês.

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Categoria: Artes e Letras, Música e Pintura

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (3)

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  1. Sérgio disse:

    Simplesmente espetacular. Uma perfeita pesquisa e extremamente esclarecedora sobre o querido Rock’n Roll.
    Parabéns por essa reportagem tão rica!

  2. Ismar disse:

    A pesquisa não deixa a desejar, uma vez que falar sobre rock é algo tão complicado dado a diversidade de seu conteúdo, entretanto o artigo toca nos pontos que ao meu ver considero os principais, de maneira clara, objetiva e cronológica.

    Meus Parabéns ao FILOVIDA!

    Meus Parabéns a NATÁLIA SULMAN!

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