Revolução Copernicana

| 19/06/2016 | 0 Comentários

O presente texto pretende discorrer a despeito da filosofia de Kant tendo como plano de fundo a Critica da Razão Pura onde emigraremos, a título de introdução, no seu posicionamento em relação à ciência  seguido de comentários do prefácio da segunda edição dessa mesma obra, tendo por objetivo introduzir o leitor nos conceitos chaves da obra kantiana, quer dizer, sua relação com a ciência, filosofia e metafísica.

Estudar Immanuel Kant (1724-1804) não é uma tarefa fácil, muito menos desenvolver uma visão convicta de sua crítica. A partir desse pensador moderno a filosofia passou a ter um nível de profundidade mais intensa e profunda; desde Kant não se lê mais filosofia, o possível é estudá-la e analisá-la profundamente. A Crítica da Razão Pura traduz uma verdadeira revolução no pensamento ocidental, tratando-se de um momento filosófico único.

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Immanuel Kant

É importante ressaltar que, quanto à atividade filosófica de Kant, tradicionalmente observa-se duas fases. Na fase inicial, designada por pré-crítica, as reflexões incidem predominantemente sobre problemas da física e também sobre questões estritamente metafísica de cânones de Leibniz-Wolff, embora já se note, para o final do período, a influência da leitura de Hume e, com ela, aflorarem aspectos de uma nova atitude filosófica.

Em 7 de junho de 1771, Kant declara em carta à Marcus Herz, seu confidente intelectual, estar empenhado em escrever De mundi sensibilis, noticiando assim estar trabalhando num estudo sobre os limites da sensibilidade da razão, em que deverá estudar não só os conceitos fundamentais e as leis relativas ao mundo sensível, como ainda dar “um esboço do que constitui a natureza do gosto, da metafísica e da moral”. Esse estudo, portanto, reúne o que mais tarde constituirá a matéria das três Críticas – a Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão Prática e Crítica da Faculdade de Julgar.

Somente um ano depois, na data de 21 de fevereiro de 1772, Kant, em carta ao mesmo Marcus Herz(1), anunciou encontrar-se pronto para formar uma crítica da razão pura, “atinente à natureza da consciência, tanto teórica como prática, na medida em que é simplesmente intelectual”, alegou ainda ter elaborado uma parte sobre as fontes da metafísica, seus métodos e limites. De acordo com os dados oficiais, a carta anuncia pela primeira vez o título da Crítica da Razão Pura, além de sugerir que o estudo compreenderá “uma crítica, uma disciplina, um cânone e uma arquitetônica da razão pura”.

De acordo com o pensamento kantiano, a filosofia passa por três fases: a dogmática (representada pelo sistema wolffiano em que cada metafísica apresenta as suas teses como algo que não pode ser objeto de dúvida), a cética (por David Hume) e a crítica, que ele próprio inaugura.

Sobre essas fases, Kant afirma no Prefácio da Primeira Edição (1781)

Houve um tempo em que esta ciência (a metafísica) era chamada rainha de todas as outras e, se tomarmos a intenção pela realidade, merecia amplamente esse título honorífico, graças à importância capital do seu objeto. No nosso tempo tornou-se moda testemunhar-lhe o maior desprezo e a nobre dama, repudiada e desamparada, lamenta-se (…). (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Fundação Calouste Gulbenkian: 2013. p. 3-4)

Após passar por diversas fases, por meio do juízo amadurecido da modernidade que já não se deixa seduzir por um saber aparente; […tem-se] um convite à razão para de novo empreender a mais difícil de suas tarefas, a do conhecimento de si mesma e da constituição de um tribunal que lhe assegure as pretensões legítimas e, em contrapartida, possa coordenar-lhe todas as presunções ingundadas; e tudo isto, não por decisão arbitrária, mas em nome das suas leis eternas e imutáveis. Esse tribunal outra coisa não é que a própria Crítica da Razão Pura.

Por uma crítica assim, não entendo uma crítica de livros e de sistemas, mas da faculdade da razão em geral, com respeito a todos os conhecimentos a que pode aspirar, independentemente de toda a experiência; portanto, a solução do problema da possibilidade ou impossibilidade de uma metafísica em geral e a determinação tanto das suas fontes como da sua extensão e limites; tudo isso, contudo, a partir de princípios. (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Fundação Calouste Gulbenkian: 2013. p. 5-6)

Dada essas consideração, observa-se que a tarefa fundamental da obra kantiana consiste na crítica da própria razão, isto é, averiguar quais as exigências desta que podem ser justificadas e eliminar as pretensões sem fundamento. Assim ela deverá investigar a coisa-em-si e o que pode conhecer o entendimento e a razão, independentemente de toda a experiência. Trata-se de criticar, de encontrar os limites de todo o conhecimento puro, a priori, isto é, independentemente de qualquer experiência (a posteriori). Deste modo se abrirá um caminho certo para a metafísica, que lhe obtenha o consenso dos que se ocupam de filosofia, pois se encontram garantidas a necessidade e universalidade desse saber; a estarem de face com a ciência. A filosofia, portanto, deve se colocar no caminho seguro da ciência, para obter no seu domínio resultados certos e que interroguem a natureza obtendo assim sua resposta.

Ainda no prefácio de 1781 Kant explica o fundamento a priori:

[Ele] anuncia-se pela exigência de ser absolutamente necessário; com mais forte razão deve assim acontecer a respeito de uma determinação de todos os conhecimentos puros a priori que deve servir de medida e, portanto, de exemplo a toda a certeza apodíctica (filosófica). (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Fundação Calouste Gulbenkian: 2013. p. 7)

Em continuação a esse tópico, o filósofo explica na introdução à Crítica da Razão Pura: “Se a intuição tiver que se guiar pela natureza dos objetos, não vejo como deles se poderia conhecer algo a priori; se, pelo contrário, o objeto (como objeto dos sentidos) se guiar pela natureza da nossa faculdade de intuição, posso perfeitamente representar essa possibilidade”. Observa-se então que para além do saber a posteriori haverá um saber de outra ordem (a priori) que precede a experiência e cujo objeto não nos pode ser dado pela experiência. Um objeto dessa ordem será o próprio sujeito, a estrutura do sujeito, e é extra estrutura que torna possível a experiência.

Quanto aos conhecimentos extraídos da experiência, chamam-se eles juízos sintéticos, em que o predicado se acrescenta ao sujeito; sendo, para Kant, tais juízos válidos exclusivamente nos domínios desta e apenas particulares e contingentes. Ao lado destes estão os juízos analíticos, em que o predicado não é mais do que uma nota extraída por análise da própria noção do sujeito e deste modo explicitada.

Através dessas meditações kantianas, a filosofia deixa de ser uma ontologia, ultrapassa um ceticismo empirista e transforma-se em filosofia transcendental através do conhecimento a priori. Este conhecimento, não redutível à análise,  chama-se conhecimento sintético a priori, o problema central da Crítica.

Após observar todas essas questões, é possível, finalmente, chegar ao Prefácio da Segunda Edição (1797). Em seu início, Kant fala sobre como é possível julgar se determinada razão segue ou não a via segura da ciência. Ele julga negativamente os que caem em dificuldade ao chegar à meta ou os que voltam atrás com frequência. Como exemplo positivo a isso ele cita a lógica aristotélica que, “desde os remotos tempos, seguiu a vida segura, pelo fato de (…) não ter dado um passo atrás”.

Sobre a lógica em geral, diz ele em tal escrito ter ela

Sido tão bem sucedida (…) [devido] ao seu caráter limitado, que a autoriza e mesmo a obriga a abstrair de todos os objetos de conhecimento e suas diferenças, tendo nela o entendimento que se ocupar apenas consigo próprio e com a sua forma. Seria naturalmente muito mais difícil para a razão seguir a via segura da ciência, tendo de tratar não somente de si, mas também de objetos; eis porque, enquanto propedêutica, a lógica é apenas como a antecâmera das ciências e, tratando-se de conhecimentos, pressupõe-se a aquisição destes nas ciências, própria e objetivamente designada por esse nome.
(KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Fundação Calouste Gulbenkian: 2013. p. 16)

A lógica, para Kant, deve ser considerada

Como fundamento de todas as outras ciências e como propedêutica de todo o uso do entendimento. E justamente [como dito antes] porque abstrai, de modo pleno, de todos os objetos. (KANT, Immanuel. Lógica [Excertos da] Introdução. Lusosofia: press. 2009. p. 5)

Entretanto, por não poder, enquanto propedêutica universal de todo o uso do entendimento e da razão em geral, ingressar nas ciências e antecipar a sua matéria, é apenas arte universal da razão de ajustar conhecimentos em geral à forma do entendimento e, por isso, é um cânon da razão e do entendimento, que deve conter apenas leis puras a priori, que são necessárias e universais, nunca se remetendo à experiência.

Em seguida Kant reafirma o que já foi dito por este trabalho antes – o que nas ciências há de razão, seja pelo conhecimento teórico seja pelo conhecimento prático, é aquele em que a razão determina totalmente a priori o seu objeto – com o acréscimo de que

A razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem que tomar a dianteira com princípios, que determinam os seus juízos segundo leis constantes e deve forçar a natureza a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta (…) A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro da natureza, para ser por esta ensinada. (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Fundação Calouste Gulbenkian: 2013. p. 18)

PREFÁCIO A SEGUNDA EDIÇÃO (Comentários)

Logo no início de suas considerações, Kant afirma que se a elaboração dos conhecimentos que pertence ao domínio da razão vai seguir ou não um caminho seguro de uma ciência, isso se deva refletir em seus resultados. Ora, e quais são os resultados vistos atualmente? Seria a ciência provida mais de elegância do que, necessariamente “segurança”?! Em contra partida a “ciência”, Kant contrasta a mesma com a lógica, cujo limite acha-se, em suas palavras; “determinada bem precisamente por ser uma ciência que expõe detalhadamente a prova rigorosamente nada mais que as regras formais de todo pensamento”(KANT,p35). Tendo um ligeiro sucesso em relação a primeira, mas a vantagem do sucesso lógico é atribuída a sua limitação, da qual é obrigada a abstrair de todos os do conhecimento, suas diferenças, de forma que nela o entendimento tem que lidar apenas consigo mesmo e com sua forma.

O objeto de crítica de Kant vai mais além, depois de discernir a matemática da física, ele entra na ideia de ciência da Natureza, e aqui se fundamenta sua crítica pauta contra o erro generalizador cometido pelas ciências empíricas, onde a experiência que fundamenta a teoria é dada ao homem como uma espécie de medidoras morais da realidade, chegaríamos num ponto de interrogarmos a natureza como juízes e estipular quais seriam suas verdades e inverdades, a respeito disso ele chega a dizer que:

A razão tem que ir a natureza tendo uma das mãos os princípios unicamente segundo os quais fenômenos concordantes entre si podem valer como leis, e na outra o experimento que ela imaginou segundo aqueles princípios, na verdade para ser instruída pela natureza, não, porém na qualidade de um aluno que se deixa ditar tudo o que o professor quer, mas na de um juiz renomeado que obriga as testemunhas a responder as perguntas que lhes propõe. (KANT,p38 CRP)

Desta forma, estaríamos desfigurando a materialidade do real? Seriamos pressuposto que bons contemporâneos afirmadores da ciência, ditadores da realidade? Quais são os frutos que hoje colhemos tendo em vista que, de acordo com a primeira afirmação desse texto proposto por Kant foi a de que o julgamento de um caminho seguro seria julgado pela seu resultado? Quais são esses resultado? Aqui o empirismo científico cai numa aporia, numa espécie de culpa moral da qual não pode se desprender sem antes negar alguns dos pilares mediante o qual se sustentou durante séculos; o grito da experimentação proferido pelos empiristas renascentistas ainda ecoam em nossos ouvidos, e por não muito tempo tardará a culpa.

O empirismo, metodologia cientifica, comete seu erro aqui, pois seu ‘pecado’ consiste em generalizar um todo em prol de um tudo, entretanto, existe algo que nos impele a ultrapassar os limites da experiência e de todos os fenômenos, esse algo é o incondicionado o qual, a razão exige o último necessariamente e com todo o direito para todo o condicionado, e por meio disso a completude da série das condições. Bem, admitimos que nosso conhecimento de experiência esteja se norteando pelos objetos como coisas em si mesmas, o incondicionado de maneira alguma pode ser pensado sem contradição.

Se olharmos mais de perto, não uma ampliação mas uma restrição do uso da nossa razão na medida em que realmente ameaçam estender sobre todas as coisas os limites da sensibilidade a qual pertencem propriamente, ameaçando assim anular o uso puro (prático) da razão. (KANT,p42.)

Kant, em determinado momento, nos presenteia com um tiro na mosca de sua obra; “O assunto desta crítica da razão pura especulativa consiste naquela tentativa de transformar o procedimento tradicional da Metafísica e promover através disso uma completa revolução na mesma, segundo o exemplo dos geômetras e investigadores da natureza.” (KANT,p42.) seria um tratado de um método e não uma espécie de sistema científico, e aqui vale ressaltar uma observação conveniente a respeito disso, pois o plano cientifico ou político difere de um plano filosófico, a proposta de modificar o homem não implica em modificar a sociedade ou as leis da natureza. E talvez seja essa uma das principais provocações Kantianas, o fato do homem científico conspirar contra a natureza dos objetos, condicionando verdades pra natureza se adaptar a sua ideia de realidade.

Outra questão é a Metafísica, um conhecimento da razão completamente isolado, acima de qualquer conhecimento empírico, onde a razão torna-se aluna de si mesma, porem, a mesma não teve até o momento, dentro do contexto do que Kant escreveu, um caminho seguro como a de uma ciência, conclui-se que seu procedimento fora um simples tatear entre meros conceitos. O sistema Metafísico para Kant deveria ser traçado pela razão pura especulativa a peculiaridade de que pode e devem medir a sua própria faculdade segundo as diversas maneiras de escolhes seus objetos de pensamentos bem como enumerar os vários modos dela se propor tarefas.

Uma consideração final a ser questionada a respeito da obra Kantiana é a sua interpretação, assim como a obra de qualquer filósofo, o perigo não consiste na refutação de um filosofo por outro, isso é ciência, leis matemáticas atualizadas, adaptações que substitui umas as outras, o filosofo aqui não corre demasiado perigo, mas a sua interpretação, o risco de ser mal interpretado, de não conseguir ser exprimido com toda sua cor e potencia pela interpretação de outrem, essa é a vulnerabilidade do filósofo, por isso optamos por não nos alongar nessas linhas sem antes costurar cada premissa aqui citada com uma fonte de citação escrita no prefácio que serviu como coluna principal pra sustentação de todos os pontos aqui afirmados.

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(1) Also Marcus Herz; Janeireo 17, 1747 – Janeiro 19, 1803) foi um médico judeu alemão e professor de filosofia.

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Categoria: Filosofia da Ciência

Sobre o(a) Autor(a) ()

Eu acredito na vida, por conseguinte; na morte, acredito em espíritos, na inexistência da existência de Deus, acredito que existem monstros no armário, eu acredito na beleza, e choro diante dela. Quanto a definição de quem sou, que importa dizer o que faço sem antes denunciar o que penso? Dedico aqui uma boa parte de mim; pois eu acredito no que escrevo.

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