Como Spinoza fundamenta a tese do necessitarismo: “O necessário é a única modalidade do ser”?

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Baruch Spinoza (1632 — 1677)

A filosofia de Spinoza culmina na proposição de que as noções de realidade, determinação e atualidade se reúnem num único complexo onde tudo é necessário e, por conseguinte, nada é contingente. A contingência, aliás, é mera imaginação acarretada pela ignorância dos homens sobre as verdadeiras causas das coisas. De fato, “o que é, é pura necessidade”, nada está fora da natureza do ser divino – pois logicamente “tudo o que existe, existe em si ou noutra coisa” e, se a única coisa que tem por essência a existência é Deus (causa sui) – diz Spinoza que o ser perfeitíssimo existe pela única necessidade de sua natureza –, se segue que nada pode existir nem ser concebido fora dele (E1P14) e, compreendendo que tudo o que existe existe em Deus (E1P15) em virtude de sua necessidade, o necessário é a única modalidade do ser.

Com efeito, o necessitarismo do ser spinozano se dá ou em razão de sua essência, ou em razão de sua causa. Eis como ele parte para o seguinte argumento: a existência, seja do que for, resulta necessariamente ou de sua respectiva essência e definição, ou de uma dada causa eficiente. No que diz respeito àquilo impassível de existência ou atualidade, a coisa não é ou porque sua respectiva essência/definição envolve contradição, ou porque não existe qualquer causa externa que seja determinada a produzir tal coisa. A partir daí percebemos, conforme comenta Curley, que tudo o que é atual é necessário e tudo o que é possível é atual, ou em outras palavras, tudo o que é atual é ou necessário em virtude da essência (a necessidade lógica) ou em virtude da causa.

Segue-se, portanto, nas palavras de Spinoza, que tudo o que é, “é determinado pela necessidade da natureza divina a existir e a agir de modo certo” (Ética, prop. XXIII, L. I).


Referências

CHAGAS, JOSÉ. Liberdade e necessidade em Benedictus de Spinoza. Revista Conatus, Filosofia de Spinoza, 2012, volume 6, número 12.

ESPINOSA, BARUCH. Ética. 2 ed. Tradução e notas de Joaquim de Carvalho. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).

________________. Breve Tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar. Trad. de E. Fragoso e L. Oliva. São Paulo: Autêntica, 2011. 175p.

FRAGOSO, EMANUEL. O conceito de liberdade na ética de Espinosa. Philosophica, Lisboa, 2006, 27, pp. 157-173.

GLEIZER, MARCOS. Considerações sobre o necessitarismo de Espinosa. Analytica, 2003, volume 7, número 2.

OLIVA, LUÍS. Causalidade e necessidade na ontologia de Espinosa. Discurso 45/2.

SANTIAGO, HOMERO. Por uma teoria espinosana do possível. Revista Conatus, Filosofia de Spinoza, 2011, volume 5, número 9.

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Categoria: Filosofia, Filosofia da Natureza, Filosofia Moderna, Metafísica e Ontologia

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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